Ao te olhar


Meu José,
Ao te olhar lanço-te tudo o que jamais me atreveria a dizer,
Talvez por medo ou até por covardia,
[Impedi-me também essa cultura machista]
Lanço-te todo o amor que a ti nunca disse,
Mas que pulsa em meu peito a todo tempo;

Quando longe, tenho-te revivido no pensamento;
Vejo-te chegando sujo do trabalho, nervoso, sem muito papo,
Ah, como eu gostava de ouvir o barulho do portão que, batendo,
Anunciava que estavas chegando, para alívio da minha cabeça lunática de menino,
Gostava mesmo sabendo que nessas horas
Deveria desligar a TV, parar de brigar e bagunçar,
Era meio atemorizante, mas hoje me lembro com profunda nostalgia,
Pois a vida já começa a me mostrar que o tempo, além da nossa distância hoje vivida,
Separa-nos a cada instante, e tremo e suo frio ao pensar assim,
Choro como nos pesadelos onde não mais lhe tinha;

E como gostava de te ver vendo aqueles filmes chatos de domingo à noite,
Nada tinham de interessantes, mas estar ao teu lado, dividindo o mesmo cobertor
Cobria-me de uma segurança nunca mais sentida...
Ah, José! Não sabes o quanto gosto desse teu jeito,
Antes duro, impaciente, nervoso, mas nunca frio, sempre protetor,
[detalhe, mexia com as mulheres na rua, isso eu não gostava, mas hoje me lembro às gargalhadas]
E hoje és calmo, prudente, e já vislumbro em ti, apesar da pouca idade que tens,
A sabedoria que transborda em teus pais;

Então brindemos o teu dia, Pai!
Levantemos cedo, e tomemos, o senhor só leite e pão, e sem manteiga,
E eu, café com leite e pão molhado, ambos sem dizer palavra alguma...
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