Máscara do que não se é?

Máscara do que não se é?
"Assemelham-se, porém não são. São, mas não se assemelham. Um jogo de esconde. Como se entrássemos num labirinto de espelhos, e perdêssemos a imagem verdadeira. Ou todas as imagens à nossa volta dadas como verdadeiras. Aceitar todas, admitindo a multiplicidade, ou permanecer em busca da única?" - Não verás país nenhum - Ignácio de Loyola Brandão.

Solidão quando almejada

Solidão quando almejada
"Eu era um homem que se fortalecia na solidão, ela era para mim a comida e a água dos outros homens. Cada dia sem solidão me enfraquecia. Não que me orgulhasse dela, mas dela eu dependia. A escuridão do quarto era como um dia ensolarado para mim. Tomei um gole de vinho". (Charles Bukowski – Factótum, cap. 17, ed. lp&m e "Melancholy" - Van Gogh 1883).

08/11/2009

Você gosta de Brahms.. - Françoise Sagan

Um livro marcante. Cheio de referências ao tempo em que a independência feminina começou a ser declarada e cada vez mais demarcada e vivida. Tal pano de fundo não poderia deixar de se ser evidenciado na obra de uma escritora francesa. Narrativa entre leve e densa, cheia de diálogos e monólogos que fazem vir à tona a realidade, os sonhos e os tormentos de uma mulher de 39 anos já meio habituada e resignada numa relação amorosa que mais lhe causava dores e descontentamentos do que satisfação e alegria. O que mais tinha eram momentos vazios em que o telefone tocava e Roger dizia “Peço perdão.. terei um jantar de negócios...” enquanto ela olhava-se e via-se pronta para o compromisso que haviam marcado para aquela noite e totalmente despreparada para enfrentar mais uma noite só, ela percebeu que desde o início (nove anos) ocorreu da mesma maneira. Todavia, ela, mesmo indecisa entre os versos pessoanos que tanto me fascinam “não sabia se estava alegre ou cansada de estar triste”, tinha algo que a aproximava cada vez mais daquela situação: nada mudaria e exatamente isso a confortava de modo a não se ver em qualquer outra situação.
Num repente, ela fica sabendo da existência de um homem jovem (muito mais do que ela) com uma vida cheia de decadências, vícios e desordens sociais e pessoais (mas incrivelmente inspirador). Aí, ela enfrenta (ou tenta) a idéia que nunca sai de sua mente: o julgamento alheio (embora tal julgamento sempre partiu mais dela do que de qualquer meio externo) por conta da diferença excessiva de idade cronológica. Infelizmente, ela não era madura o bastante (mesmo com seus quase quarenta anos) para perceber que o importante era o conteúdo de Simon e não o que aparentava em seus 25 anos até então mal vividos. E como Simon tinha conteúdo... e como Roger (um pouco mais velho do que ela) era imaturo, ignorante e vazio... esses detalhes que saltam aos olhos de qualquer leitor não puderam ser aceitos por ela. Ela sabia, via tudo claramente, mas não queria acreditar que pudesse existir uma simbiose perfeita entre forma e conteúdo. Era assim Simon. Terá sido ele muito? Terá sido ela pouco? Terão os dois tentado uma relação que já sabiam malfadada? Terá Roger, com suas manias de possessão, a atraído tanto exatamente por não ser perfeito no que ela considerava perfeição? Terá ela abandonado Simon exatamente por ver nele um pouco do absurdo entre conteúdo e forma?
Definitivamente é uma obra que traz muitas reflexões. Realmente fiquei me indagando o que a teria feito deixar Simon e seus livros e sua paixão por música clássica e seu carinho tão elevado para com ela para reatar uma relação com Roger e sua tão inconfundível e notória infidelidade. Por estas questões e outras é possível constatar que a obra de Françoise Sagan é cheia de humanidade. Cheia dos erros que todos cometem, cheia de um vazio sagaz que reflete nas misérias mais tenras de todos. Um livro sem o tão chato e inverossímil ‘happy end’. Um fim passional e dramático: ela prefere a dor tão bem sua conhecida a trilhar um caminho desconhecido, mas tão atraente e raro. O fim de Simon: juntou seus livros (que já estavam no apartamento dela), recolheu seus discos de música clássica e partiu com todo o seu sofrimento ressoando nos seus passos na escada, mas ele sabia. Ela sabia. Roger também sabia. Eu, no fundo, desde o inicio, torcia para que Simon a fizesse mais madura, mas eu também sabia, desde o momento em que Simon apareceu no texto, eu sabia, definitiva e angustiadamente sabia que ele terminaria sozinho.
E... resolvi trazer Simon para os meus instantes ou entrar no texto de Sagan e me tornar um ombro que confortaria tal personagem. Não que fosse servir de substituição ao amor dele por ela. Não, isso nunca. Até porque o que ele sentia por ela não ficaria no passado, como ele bem disse. Mas eu poderia dizer a ele que quem é capaz de chegar à luz da tão profusa imensidão de sentimentos e proferir a uma mulher as seguintes palavras:

“Quanto a vós, eu vos acuso de não terdes cumprido vosso dever de ser humano. Em nome deste morto, eu vos acuso de terdes deixado passar o amor, negligenciado o dever de ser feliz, vivido de subterfúgios, de expedientes e de resignação. Deveríeis ser condenada à morte, sereis condenada à solidão.”

Não encontrará em qualquer mulher (não importando idade cronológica) o verdadeiro merecimento, a verdadeira sensação do compartilhar de sentimentos. Tal busca pode ser a utopia de toda uma existência.

Simon ficou só. Assim como ele profetizou naquela fala acima que ela estaria. Certamente os dois estão sozinhos. Ela com as desculpas eternas de Roger e Simon sem ela. Eis aí um belo texto. Verossímil, ao menos. E obras assim fazem a diferença. A diferença de não confortar àqueles que somente com finais hipócritas e totalmente à parte de uma possibilidade humana (vivida) se sentem agraciados.

2 lágrima(s) de sangue derramada(s):

cprsbr disse...

De repente não tem nada a ver com teu texto, mas lembro de tua preocupação com relação ao assunto dos marcadores. Pelo visto, rendeu mesmo algumas polêmicas.

Fernanda Barros disse...

Antes de ler teu comentário eu já tinha escrito certa crítica exatamente sobre 'a polêmica do marcador com as pernas femininas'. O que me despertou foi um sentimento de inquietação e certa preocupação também, mas... a maioria pega aqueles marcadores e tão logo se desfaz, já que nem metade dos frequentadores da feira são realmente leitores.