Máscara do que não se é?

Máscara do que não se é?
"Assemelham-se, porém não são. São, mas não se assemelham. Um jogo de esconde. Como se entrássemos num labirinto de espelhos, e perdêssemos a imagem verdadeira. Ou todas as imagens à nossa volta dadas como verdadeiras. Aceitar todas, admitindo a multiplicidade, ou permanecer em busca da única?" - Não verás país nenhum - Ignácio de Loyola Brandão.

Solidão quando almejada

Solidão quando almejada
"Eu era um homem que se fortalecia na solidão, ela era para mim a comida e a água dos outros homens. Cada dia sem solidão me enfraquecia. Não que me orgulhasse dela, mas dela eu dependia. A escuridão do quarto era como um dia ensolarado para mim. Tomei um gole de vinho". (Charles Bukowski – Factótum, cap. 17, ed. lp&m e "Melancholy" - Van Gogh 1883).

29/03/2008

Confusão dolorida


(O Grito - Edvard Munch)

A dor
Vasculha-destrói
Avança-corrói.
Desabrocha como uma tépida flor.

A dor
Caminha-estaca
Fere como fina faca.
Resplandece a alvura de sua escura cor.

A dor
Trama-disfarça
Foge-ameaça.
Faz fenecer os ímpetos de qualquer calor.

A dor
Desfaz-enternece
Balança-desce.
Será sempre essa estranha flor
Com seu profundo e intenso torpor!

Dizeres para Aracne


Oh, Ser que agiu com o coração, esquecendo da razão, que sofreu o infortúnio da maldição rogada por Palas! Seu destino é arrastar-se sôfrega a cada maldito dia, pois, no passado, como louca, decidiu ser melhor que a deusa grega!
Condenada foi a eternamente tecer. Assim será com seus descendentes; assim será a cada fatídico renascer. As mãos delicadas transformaram-se em finas patas. Da sua boca não saem mais palavras de desafio e sim um sensível fio de tom quase imperceptível.
Paga agora a superação errônea de outrora!

Weird Man and His Book

(Man, Sitting, Reading a Book, 1882 - Vincent Van Gogh)
Por entre brumas do dia, por entre raios da noite, ele, o só, aquele que tudo via, mas que mesmo assim era considerado menos que ignorado pó, apanhou um livro, virou a cadeira para a parede, para o não-comunicável e ali a solidão deu-se em forma pouco rude de compreensão. Viu-se nu, mas não mais só. A cabeça pendia em busca de mais expressões que o atestassem apenas alguém insólito e aceito como aqueles tantos personagens. Queria permanecer por lá... mas já estava de volta. A parede suja e comum. Seus sapatos rotos. Sua pele flácida. O livro segurou-o pelos braços.

Pedido a Osíris

A minha morte se faz presente!
Osíris, Senhor do Além,
Toque meu coração,
Este grão descrente,
E veja se ele, com a morte, deixou de ser refém,
Sinta se ele, de alguma forma, vence
Toda e qualquer maldição.

Será ele leve?
Estará ele tão branco
Como a neve?
Será ele franco?
Serei eu tão apenas poeira breve?

Osíris,
Deus Egípcio Poderoso!
Se fui, de todos,
O mais monstruoso,
Não clamo que olvide todo o mal que fiz,
Nem espero um afagar desdenhoso.

Todavia peço: envolva-me já com tua bruma gris!

14/03/2008

A ira do mar

Numa manhã fria,

Poisedon me confidencia:

“A humanidade se consumirá.

Portanto, minha ira eu jogo

E, assim, tudo logo

Se exterminará!”

Deusa da Sabedoria

Minerva ordena:
“Superem-me!
Destruam toda e qualquer algema;
Surpreendam-me!”

Minerva grita:
"Quem importa-se com o conhecimento?
Onde está o coração que se agita
Ao toque da sabedoria?
Presenciarei o dia
Em que o saber causará estremecimento?"

Minerva clama:
"Oh, discípulos, levem-me na memória!
Não deixem de lado minha preciosa chama,
Cravem-me em toda e qualquer história,
Pois meu sangue aqui está e é por todos que ele derrama."

Minerva sonha:
"Chegará o momento
Em que toda vez que me exponha
Serei bem-recebida e levada aos povos pelo vento
É por este dia que eu tanto hoje persisto e tento."

"Não me deixem sentir o pesar
De que foi desperdício.
Não me deixem presa a esse enorme vício

Que é pela eternidade lamentar!"

09/03/2008

Influência externa

Deu-se o dia
E dele fez sua companhia.
Sofreu calado,
Aceitou seu destino malfadado,
Equilibrou as lágrimas amargas
E sentiu-as como finas farpas.

Dava-se o dia...
Quase o abandonava a nostalgia.
Olhou ao redor
E viu-se, de todos, o menor.

Chegou-se a noite
E todo o açoite
Imposto pelo dia
Já se ia...

Agora, ele via-se maior!

03/03/2008

Súplicas de outrora

De tanto suplicar,
A voz ficou rouca.
De tanto sofrer,
A vontade de viver
Tornou-se pouca!

Reflexos

O medo prazeroso
A peste ensandecida
O gesto temeroso
A humanidade homicida

Quem vai dizer que não é assim que funciona?
Quem vai dizer que não possui um algoz que o aprisiona?

No fundo do “eu”

No fundo do escuro poço,
Esconde-se o meu destroço.
No fundo do buraco,
A minha dor eu mastigo com tabaco.

No fundo de minha melancolia
Está o meu eu, nu e só;
Em profundo coma de letargia
Encontra-se, e alma alguma tem dó.