Ele tinha uma expressão de alegria e desconfiança ao mesmo tempo. Queria algo para calçar. Queria também um pouco de comida. E o que mais? Alguém que o olhasse, que o visse num mundo onde pessoas que vagam sem rumo não são vistas, até são, mas são esnobadas, esmagadas pelo palmilhar ligeiro e apressado dos que passam para mais um dia em que trabalharão para ter, ter, ter e ter. Do que adianta ter se o ser, se o sentimento de compaixão fica amortalhado numa gaveta ou armário qualquer? A premissa de que o ser vem antes do possuir está sendo enterrada e nesta cova irão escrever “Aqui jaz o que existiu em algumas almas, mas em sua grande maioria serviu apenas como teoria”.
A boca de um outro tentava abrir um saco de lixo na sarjeta. Conseguiu seu objetivo. Começou a vasculhar para ver se algo poderia saciar sua fome, seu frio, sua angústia de eterno peregrino numa cidade grande que é grande em quase tudo, principalmente no descaso e no preconceito.
Uma menina. Esperta sim, mas com olhar cansado. Havia trabalhado vendendo balas: duas por um real. Recebeu o dobro, deu quatro balas. Foi dito a ela que ficasse com as balas. Que as comesse. Que as saboreasse. Que sentisse o sabor que os outros sentem quando ela as vende. Não aceitou. Disse que comia bastante. Mentiu para fugir das balas e da possibilidade de repreensão. Levou o dinheiro. Saiu rápido. E ficamos com as balas de goma. Sem graça. Insossas. Mesmo assim, as balas que a menina insistiu para que comprassemos. As balas que ela não pôde dar-se o prazer de comer. As balas mesmas que ela continuará vendendo amanhã, depois e... depois? O que será? Mais balas para todos que tiverem um real. Menos para ela que sempre as venderá e nunca, nunca mesmo as comerá.
A boca de um outro tentava abrir um saco de lixo na sarjeta. Conseguiu seu objetivo. Começou a vasculhar para ver se algo poderia saciar sua fome, seu frio, sua angústia de eterno peregrino numa cidade grande que é grande em quase tudo, principalmente no descaso e no preconceito.
Uma menina. Esperta sim, mas com olhar cansado. Havia trabalhado vendendo balas: duas por um real. Recebeu o dobro, deu quatro balas. Foi dito a ela que ficasse com as balas. Que as comesse. Que as saboreasse. Que sentisse o sabor que os outros sentem quando ela as vende. Não aceitou. Disse que comia bastante. Mentiu para fugir das balas e da possibilidade de repreensão. Levou o dinheiro. Saiu rápido. E ficamos com as balas de goma. Sem graça. Insossas. Mesmo assim, as balas que a menina insistiu para que comprassemos. As balas que ela não pôde dar-se o prazer de comer. As balas mesmas que ela continuará vendendo amanhã, depois e... depois? O que será? Mais balas para todos que tiverem um real. Menos para ela que sempre as venderá e nunca, nunca mesmo as comerá.
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