Máscara do que não se é?

Máscara do que não se é?
"Assemelham-se, porém não são. São, mas não se assemelham. Um jogo de esconde. Como se entrássemos num labirinto de espelhos, e perdêssemos a imagem verdadeira. Ou todas as imagens à nossa volta dadas como verdadeiras. Aceitar todas, admitindo a multiplicidade, ou permanecer em busca da única?" - Não verás país nenhum - Ignácio de Loyola Brandão.

Solidão quando almejada

Solidão quando almejada
"Eu era um homem que se fortalecia na solidão, ela era para mim a comida e a água dos outros homens. Cada dia sem solidão me enfraquecia. Não que me orgulhasse dela, mas dela eu dependia. A escuridão do quarto era como um dia ensolarado para mim. Tomei um gole de vinho". (Charles Bukowski – Factótum, cap. 17, ed. lp&m e "Melancholy" - Van Gogh 1883).

11/08/2008

A mordida de Aracne

Naquela manhã, Leonidas foi despertado pelo toque aveludado de Aracne. Os olhos dele brilharam ao perceber que sua amiga estava de volta, pois dias atrás ela havia dito que partiria para produzir suas tapeçarias em forma de teia e jamais retornaria. Ficou chateado. Triste mesmo. Mas agora não importava a dor de outrora, pois ela estava ali, mirando-o intensamente com seu ar de fascinante mistério.
Antes mesmo que ele pudesse expor sua alegria causada pela presença dela, Aracne foi logo dizendo:
_Estou preocupada, meu jovem amigo! – Leonidas franziu o cenho e indagou:
_O que houve? Não terminou a tapeçaria?
Aracne responde um tanto quanto sorumbática:
_A teia da vida vai sendo construída aos poucos. Porém ela é deveras frágil. E você terá que ajudar-me a não permitir que uma sensível teia, hoje, se rasgue.
Leonidas, ainda uma criança, não entendeu muito bem o que sua tão sábia amiga queria dizer e, isso ocorria quase sempre, todavia, ele não se preocupava, pois ela, certa vez, disse-lhe que, um dia, a compreensão oculta por seu véu, seria revelada. Por enquanto, ele só queria brincar de ser super-herói!
Saltou da cama, abriu o guarda-roupa e pensou qual vestimenta heróica usaria. A do batman era usada mais à noite; a do super-homem estava com os fundilhos rotos e sua mãe ainda não havia arrumado. Enfim, escolheu a sua preferida: Homem-aranha! Enquanto vestia-se, o menino olhava para sua amiga, estava ela tal qual uma viúva negra, olhos pequenos, cabelos muito negros e a boca sempre pronta para opinar. Leonidas olhou em sua direção e disse:
_Sabia que todos pensam que você não existe de verdade? Pensam que você é imaginária! – terminou ele diminuindo o tom da voz.
_Você acredita em mim?
_Eu sim.
_Então, isso basta!
O menino sorriu, pois sentiu-se confortado. Ele estendeu a mão e ela pulou em seu pulso. Saíram para o pátio indo encontrar a mãe pendurando roupas no varal. Ele dirigiu-se para a lateral da casa, assim poderia conversar melhor com sua ‘amigaracnídeo’:
_Vamos subir na figueira dos fundos?
_Antes temos uma missão. A teia da vida de alguém está por um fio. Precisamos ajudar!
E, dizendo isso, Aracne mordeu-o no pulso. O sangue tingiu a manga da roupa de herói. O menino, assustado, saiu em desespero para a parte da frente da casa. Estava desolado. Sua melhor amiga havia-lhe mordido! No entanto, seu coração era puro e ele esperou por sua companheira de aventuras, mas ela não vinha. Sentiu o peito apertar e as lágrimas pareciam querer brotar da alma para as pálpebras.
Mal teve tempo de sentir sua dor, pois logo o cheiro de fumaça invadiu o ar e esta vinha do lado da casa vizinha. Correu até o portão e pôde ver as chamas lambendo a moradia. A mãe estava ao seu lado e ele só teve tempo de dizer :
_Vai ficar tudo bem! – E saiu correndo em direção à casa que estava incendiando freneticamente.
Com sua roupa azul e vermelha, foi saltando o fogo e percorrendo os cômodos da casa. Enquanto caminhava, seu pulso começou a latejar e logo ouviu os gritos de uma menina que se debatia no berço devido ao calor intenso. Leonidas viu Aracne perto do berço envolvendo a menina num emaranhado de teias para protegê-la até que ele chegasse. Sem muito mais pensar, ele pegou a menina, olhou para Aracne e sentiu que ela devolvia o olhar com cumplicidade. Saíram os três da casa ardente, no entanto, todos ali só viram o menino saindo com o bebê em seus braços.
Os bombeiros estavam por lá e os repórteres da televisão também! E quando começaram a fazer mil perguntas ao menino-herói, o qual havia entrado num local em chamas, ele respondeu o que Aracne ditava-lhe ao ouvido: “A teia da vida continua!”.


Este conto foi exposto a um grupo de discussão e análise de textos. Recebi críticas com relação às vírgulas, mesmo assim as deixei, tenho a mania de pausar e isso não é considerado por mim como um erro tão medonho. Propuseram algumas modificações e também não as fiz. Fazer o que se aprecio o conto assim com tudo aquilo que é considerado errôneo, não claro, incoerente e prolixo... enfim, mudei apenas o nome do personagem principal, pois o outro era meramente para figurar uma situação real que ocorreu.

2 lágrima(s) de sangue derramada(s):

Luci disse...

oi, menina dark! sou a luci a mesma que trabalhava na famecos. Trocamos algumas idéias sobre as influências literárias do the cure durante alguns semestres. remember? achei seu blog quando fiz uma busca por seu nome. Gostei. Nada simpático. Muito obscuro. Gostei das imagens também. Vou ler mais por aqui e tratar de comentar, ando muito parada. Tranquei mais uma vez o curso, mudei para outro, já tranquei novamente. Me escreva se tiver um tempo luci_maryhuanna@terra.com.br

guga disse...

a teia da vida continua? afinal, era uma aranha mesmo ou uma menina? imaginária ou real? muitas coisas ficaram sem explicação. mesmo assim a narrativa é atrativa.