Máscara do que não se é?

Máscara do que não se é?
"Assemelham-se, porém não são. São, mas não se assemelham. Um jogo de esconde. Como se entrássemos num labirinto de espelhos, e perdêssemos a imagem verdadeira. Ou todas as imagens à nossa volta dadas como verdadeiras. Aceitar todas, admitindo a multiplicidade, ou permanecer em busca da única?" - Não verás país nenhum - Ignácio de Loyola Brandão.

Solidão quando almejada

Solidão quando almejada
"Eu era um homem que se fortalecia na solidão, ela era para mim a comida e a água dos outros homens. Cada dia sem solidão me enfraquecia. Não que me orgulhasse dela, mas dela eu dependia. A escuridão do quarto era como um dia ensolarado para mim. Tomei um gole de vinho". (Charles Bukowski – Factótum, cap. 17, ed. lp&m e "Melancholy" - Van Gogh 1883).

04/07/2008

Outra margem

Trevas. Ruídos animalescos ecoavam por entre as poucas paredes que ainda estavam de pé naquelas ruínas. Danna caminhava apressadamente por entre antigos ciprestes e carvalhos, pedaços de suas vestes esvoaçantes iam ficando presas nas árvores, deixando-a quase que totalmente nua. Pisava nos cascalhos, ferindo os pés descalços e, com isso, deixando a marca de seu sangue por onde passava. Quando sentiu seus pés tocarem numa relva macia, respirou mais tranquilamente. Sabia que o riacho estava ali por perto. Esqueceu que era a época das rosetas na grama. Os pés já outrora maculados, sangravam mais e mais a cada novo passo que dava. A respiração ofegante a denunciava presente naquele local proibido. Olhando para o céu, viu as nuvens começarem a se afastar, logo a lua estaria por ali... e ela precisava chegar até à água antes. Exasperou-se, tentou correr, mas tropeçou em pedaços duros de algo que não identificou no momento e em alguma ponta feriu-se no joelho. Seus gritos ecoaram num uníssono juntamente com os ecos dos ruídos que vinham de longe. Respirou o ar gélido da noite e encontrou forças para prosseguir. Tocou em seu joelho e identificou o sangue escorrendo. Era quente. Tremeu. Deu mais alguns passos e sentiu seus pés afundarem no barro. Estava praticamente nas margens do riacho. Nesse momento, as trevas foram invadidas pela luz funestamente escarlate da lua. Danna sentiu perder-se por todos os meandros de suas incógnitas passadas e atuais. Viu a água caudalosa vibrar em seu ‘desritimado’ compasso, abriu os braços, preparou as pernas para carregarem o corpo todo até o mergulhar que lhe tiraria da angústia de respostas ocultas. O véu da incompreensão seria rasgado. Seria? Pelo menos assim pensava ela. Danna. Danada estava. Condenada igualmente. O que havia naquela água? Somente quando mergulhou no vazio pôde perceber que estava adentrando no abismo mais doloroso de todos: sua própria alma. Trevas. Ruídos animalescos ecoavam...

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