“Guide me safely in worlds I've never been to
Heal me Heal me My dear Brena
Vulnerable
It's alright”
A Perfect Circle - Brena
A Perfect Circle - Brena
Brena esmolava pelo meio-fio. Nada ganhava além de umas poucas moedas e todas do mais baixo valor. Mesmo assim não se importava. Sorria com o sofrimento diário. Chorava quando tudo parecia bem. Em momentos de alegria e também nos de desespero tinha algo que a fazia melhor: um pedaço de espelho. Apertava-o com força em sua mão. Ele respondia sempre. O sangue começava a escorrer. Mais apertava. Mais o queria dentro de si. Quando a fome a tomava, o próprio sangue a alimentava. Era quente e se tornava frio assim que entrava nela. Brena corria pelas calçadas lotadas tentando se afastar o quanto antes de toda aquela gente que a condenava com olhares, com gestos de repulsa e medo. Medo dela? Era apenas uma criança. Mas uma criança que sabia muito mais do que a maioria dos adultos. Sim, realmente estavam certos em temê-la. Mas a temiam pelo motivo errado. A temiam porque era uma esfarrapada, uma criança filha de mendigos que morava debaixo do viaduto. A temiam porque ela poderia roubá-los. Roubar seus bens materiais. No entanto, ela deveria ser temida por outros motivos. Pois, o roubo do material era o mínimo que ela se tornaria capaz de fazer. Brena com seu sangue, ninguém mais teria como impedi-la, como pará-la... juntos eram invencíveis.
Na última noite em que passou na companhia dos pais debaixo daquele viaduto, quis dar-lhes um pouco do seu sangue. Com um tapa da mãe foi atirada longe. Chegou a bater na marquise e quase perdeu os sentidos, só não os perdeu porque apertou novamente o pedaço do espelho e ele respondeu fazendo seu sangue saltar. Olhava sua mão, via o brilho da lua refletida em seu sangue que escorria, que pingava, que lavava não apenas o seu externo como o interno. Fechava os olhos e continuava sentindo sua força pulsar de dentro para fora. Rastejando em busca das sombras que estava acostumada a encontrar na madrugada a qual somente ela sabia aproveitar, visualizou uma que ainda não havia visto por ali. Corria dela. Se ocultava no teto. Mas Brena jamais se enganava. Estariam juntas em breve. Com os pés descalços, escalavrados, Brena esperava com olhos penetrantes que a sombra nova aparecesse, se apresentasse a ela. E enquanto esperava, segurava firmemente o pedaço de espelho roto. Mordia os lábios com a intenção de que os dentes fizessem o mesmo que o espelho fazia com sua mão. Os olhos retumbaram podridão e lascívia assim que a sombra se aproximou. Brena correu e a sombra foi atrás. Na escadaria pararam. Brena quis cortar a mão da sombra, mas cortava a si mesma. Já fazia o caco passar por seus braços, pernas, pescoço, cabeça, olhos, nariz, boca. Seu corpo lavado em sangue a fazia livre. Carregada por aquela sombra e por todas as outras que já a conheciam, foi parar onde não se pára de cair no desespero: na terra da Angústia. Ali Brena não precisava mais esmolar. Tinha todo o tempo livre para se cortar. O sangue jorrava. Lavava seu corpo, sua alma… e nunca era o bastante. Nas águas escuras que se tornavam mais frias durante à noite, ela lia sua essência representada por uma onda que fazia vibrar tudo em volta. O sangue pingava na água, tornava tudo incandescente. O mar em fogo gélido. O fogo em água que queima. Suas pegadas na areia eram como demarcações eternas numa pele sensível, como uma pedra maculando um peito, como um ferro rachando um crânio, como uma lança furando espáduas ou como um chão áspero ferindo uma face que nele cai fatalmente.
Brena estava livre. O sangue a libertava. Quando queria partir invocava as sombras. Elas apareciam e a carregavam até onde sua alma pudesse se sentir confortável para que suas perdições pudessem ser colocadas em prática. Eram as vítimas que ela buscava agora: todos e qualquer um. Todos serviam. Eram todos da mesma raça comum nauseante. Do meio da noite saltava em jugulares arrancando deles o que não precisavam. Eram não merecedores da vida. A morte lhes caía melhor. O sangue impuro e alheio tornava-se em suas mãos o sangue mais elevado. E quando pensava que tudo ia terminar, que iam descobri-la, que iam impedi-la de continuar, tinha sempre o pedaço do espelho para confortá-la. Bastava um toque e ele respondia: “Brena, dear Brena, I Will heal you now!”.
Num sussurro estranho, viu-se presa. Presa como nunca. Presa a ponto de já nem conhecer mais o que era ser livre. Vendas nos olhos, amarras nas mãos, mordaça na boca... queria ter as mãos livres, pelo menos, para poder tocar em seu pedaço de vidro, mas não podia... a dor tomava conta, mas era a dor que não acalentava sentir. A dor da prisão que não se almeja, que não se escolheu. Que sussurro era aquele? Que vozes que tão alto falavam, mas que nada e de forma alguma se faziam entender? Ela queria saber... chamou pelas sombras. Não vieram. Provavelmente estavam presas igualmente. Clamou por seres das trevas. Ninguém. Roçou-se na parede até que as amarras caíram. Sem nem mesmo se importar com a visão ou com a mordaça na boca, procurou o espelho. Lá estava ele. Ele novamente para libertá-la. Nem que fosse pela vez derradeira. A cabeça tombou para trás quando sentiu o sangue sair. Brena, Brena, Brena... até o fim fatídico LIVRE.
Na última noite em que passou na companhia dos pais debaixo daquele viaduto, quis dar-lhes um pouco do seu sangue. Com um tapa da mãe foi atirada longe. Chegou a bater na marquise e quase perdeu os sentidos, só não os perdeu porque apertou novamente o pedaço do espelho e ele respondeu fazendo seu sangue saltar. Olhava sua mão, via o brilho da lua refletida em seu sangue que escorria, que pingava, que lavava não apenas o seu externo como o interno. Fechava os olhos e continuava sentindo sua força pulsar de dentro para fora. Rastejando em busca das sombras que estava acostumada a encontrar na madrugada a qual somente ela sabia aproveitar, visualizou uma que ainda não havia visto por ali. Corria dela. Se ocultava no teto. Mas Brena jamais se enganava. Estariam juntas em breve. Com os pés descalços, escalavrados, Brena esperava com olhos penetrantes que a sombra nova aparecesse, se apresentasse a ela. E enquanto esperava, segurava firmemente o pedaço de espelho roto. Mordia os lábios com a intenção de que os dentes fizessem o mesmo que o espelho fazia com sua mão. Os olhos retumbaram podridão e lascívia assim que a sombra se aproximou. Brena correu e a sombra foi atrás. Na escadaria pararam. Brena quis cortar a mão da sombra, mas cortava a si mesma. Já fazia o caco passar por seus braços, pernas, pescoço, cabeça, olhos, nariz, boca. Seu corpo lavado em sangue a fazia livre. Carregada por aquela sombra e por todas as outras que já a conheciam, foi parar onde não se pára de cair no desespero: na terra da Angústia. Ali Brena não precisava mais esmolar. Tinha todo o tempo livre para se cortar. O sangue jorrava. Lavava seu corpo, sua alma… e nunca era o bastante. Nas águas escuras que se tornavam mais frias durante à noite, ela lia sua essência representada por uma onda que fazia vibrar tudo em volta. O sangue pingava na água, tornava tudo incandescente. O mar em fogo gélido. O fogo em água que queima. Suas pegadas na areia eram como demarcações eternas numa pele sensível, como uma pedra maculando um peito, como um ferro rachando um crânio, como uma lança furando espáduas ou como um chão áspero ferindo uma face que nele cai fatalmente.
Brena estava livre. O sangue a libertava. Quando queria partir invocava as sombras. Elas apareciam e a carregavam até onde sua alma pudesse se sentir confortável para que suas perdições pudessem ser colocadas em prática. Eram as vítimas que ela buscava agora: todos e qualquer um. Todos serviam. Eram todos da mesma raça comum nauseante. Do meio da noite saltava em jugulares arrancando deles o que não precisavam. Eram não merecedores da vida. A morte lhes caía melhor. O sangue impuro e alheio tornava-se em suas mãos o sangue mais elevado. E quando pensava que tudo ia terminar, que iam descobri-la, que iam impedi-la de continuar, tinha sempre o pedaço do espelho para confortá-la. Bastava um toque e ele respondia: “Brena, dear Brena, I Will heal you now!”.
Num sussurro estranho, viu-se presa. Presa como nunca. Presa a ponto de já nem conhecer mais o que era ser livre. Vendas nos olhos, amarras nas mãos, mordaça na boca... queria ter as mãos livres, pelo menos, para poder tocar em seu pedaço de vidro, mas não podia... a dor tomava conta, mas era a dor que não acalentava sentir. A dor da prisão que não se almeja, que não se escolheu. Que sussurro era aquele? Que vozes que tão alto falavam, mas que nada e de forma alguma se faziam entender? Ela queria saber... chamou pelas sombras. Não vieram. Provavelmente estavam presas igualmente. Clamou por seres das trevas. Ninguém. Roçou-se na parede até que as amarras caíram. Sem nem mesmo se importar com a visão ou com a mordaça na boca, procurou o espelho. Lá estava ele. Ele novamente para libertá-la. Nem que fosse pela vez derradeira. A cabeça tombou para trás quando sentiu o sangue sair. Brena, Brena, Brena... até o fim fatídico LIVRE.
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