Máscara do que não se é?

Máscara do que não se é?
"Assemelham-se, porém não são. São, mas não se assemelham. Um jogo de esconde. Como se entrássemos num labirinto de espelhos, e perdêssemos a imagem verdadeira. Ou todas as imagens à nossa volta dadas como verdadeiras. Aceitar todas, admitindo a multiplicidade, ou permanecer em busca da única?" - Não verás país nenhum - Ignácio de Loyola Brandão.

Solidão quando almejada

Solidão quando almejada
"Eu era um homem que se fortalecia na solidão, ela era para mim a comida e a água dos outros homens. Cada dia sem solidão me enfraquecia. Não que me orgulhasse dela, mas dela eu dependia. A escuridão do quarto era como um dia ensolarado para mim. Tomei um gole de vinho". (Charles Bukowski – Factótum, cap. 17, ed. lp&m e "Melancholy" - Van Gogh 1883).

20/06/2008

Peça baseada em "Sleepers Awake" de Johann Sebastian Bach

Johann
Carmina
J.J. de Campos Leão


CARMINA _Johann! Johann! Onde está escondido? Oh, má sorte de vida a minha! Quando mais preciso de uma alma para escutar-me, só encontro o silêncio a atordoar-me e a dizer-me que por mais que grite e clame, jamais me darão ouvidos!

JOHANN (com a cara amassada, olheiras profundas, cabelos espetados, típica visão de quem acabou de acordar) _Por que todo esse alarido? Estava tentando me concentrar num sono profundo para quem sabe conseguir sonhar com alguma composição, mas eis que aparece-me num pesadelo uma desvairada a escabelar-se por estar na companhia de tão doce e agradável solidão! Que queres, afinal, Carmina?

CARMINA _Quero tudo. Mas para você pode ser nada. Vai me dizer que tudo e nada são subjetivos.

JOHANN _Pensei que quisesse quedar com o seu “Oh Fortuna” em paz. E além do mais estou tentando ocupar meu tempo com novas bachianas. Mais tarde mostro o que consegui.

CARMINA _E já conseguiu o que?

JOHANN _Apenas uma meia sonata e alguns prelúdios que não me renderão nada. Mande chamar J.J. preciso que ele me critique, estou vazio de entendimento e ele sempre consegue calcar meus pés no chão.

CARMINA _Sim, claro. Ele é sempre quem consegue tudo para você! Eu sirvo tão somente para você dizer que possui uma companhia feminina. Confesse! Você é tão ou mais vil que este seu amigo que diz produzir peças e poemas esplendorosos, mas eu só entendo que ele pega as atrocidades humanas e joga-as no papel, maculando-o menos do que quem as lê!

JOHANN _Por que todo esse alvoroço? Por que toda essa raiva incontida por J.J.? Oh, que saudade da cama que lá deixei! O sono esvaiu-se por entre meus sentidos. Sabe-se lá quando irei dormir e sonhar novamente para poder compor...

CARMINA _Não conheço pessoa mais egocêntrica que você! Como consegue preocupar-se tão somente consigo mesmo? Eu aqui me desfazendo em medos e angústias e você vem me falar de sonhos?

JOHHAN _Sim! (grita intrepidamente ele, puxando os cabelos, pulando pela sala)

CARMINA _E ainda confessa! Dizem que a mentira nos faz sofrer menos. Então, minta para mim, invente mil coisas. Mas não me faça permanecer nesse sofrimento! Imploro-te!

JOHANN _Não percebe? Tive a idéia que estava precisando há meses! Tudo já soa em meu ser... o nome será Sleepers Awake e terá os mais breves e cálidos soares que alguém já ouviu. Será um “acordar” sem alarde, sem pressa. Algo que fará a humanidade despertar, mas ao mesmo tempo, voltar a sonhar, voltar a acreditar que não existe razão entre realidade e sonho!

CARMINA _Eis que chega seu amigo. Eu me retiro, pois não me sinto bem-vinda aqui! Aproveitem a tarde, está propícia para dois loucos que se crêem sãos!

J.J. _Johann! Passei para mostrar os meus trabalhos dos últimos dias! E ouvi da soleira da porta que já está com idéias novas! Como vai Carmina? (dirigindo-se a ela). Parece-me cansada, um tanto quanto sorumbática.

CARMINA _Estou bem, mas estou farta de estar assim. Trouxe mais poemas? Me empreste alguns, preciso distrair a mente.

JOHANN _Minha cara, os poemas dele não servem para distrair mentes vazias! Venha cá, J.J. preciso pôr no papel minha idéia! Traga seus escritos. Eles sempre me ajudam muito a compor melhor.

J.J. _Sim, vamos. Mas antes, deixe-me presentear Carmina com alguns versos.

CARMINA _Alguém finalmente se importa comigo! Versos? Onde estão?

J.J. _(tirando um papel amassado do bolso) Aqui estão eles: “Perdi o que pensava estar seguro, encontrei o que pensava nem existir. O que faço com o que existe? E o que perdi? Onde o encontrarei novamente? Ah, deixemos de lado esse atrolho. Eu quero mesmo é desexistir para não ter que me perder!”

JOHANN _Bravo! Muitas vezes precisamos nos perder para só então nos encontrar. No caso, vamos desexistir, talvez, assim, possamos existir novamente, mas de forma menos medonha!

CARMINA _Não entendi nem o poema nem o comentário! Ah, vocês só me causam mais dor! (sai correndo, com as mãos no rosto)

J.J. _Pelo jeito, ela está pior do que antes. Os chineses tomam um tal de chá verde. Dizem que é bom para tudo, até mesmo para essas dores imaginárias que ela tem.

JOHANN _Ela está como sempre esteve: chorosa por não conseguir ser útil.

J.J. _Deixemos ela nos braços de Wagner, lá, ela encontrará maior conforto do que aqui entre nós, entre um poeta malfadado e entre um compositor incompreendido, mas que já tem novas idéias para entorpecer quem se deixa levar, se permite sentir.

JOHANN _Oh, amigo! O acordar só não é um martírio quando desperto com alguma idéia que servirá para me fazer sentir útil nesse mundo tão incompreensível.

Os dois abraçam-se e saem de cena sob o entoar de Sleepers Awake.

2 lágrima(s) de sangue derramada(s):

Bruno disse...

Já que eu sou o único que tem postado comments por aqui, a senhorita sombria poderia comentar também, assim vamos nos desmembrando pelos caminhos do inusitado. E tbm tem a questão de que nem sempre dizemos tudo nos textos, tem sempre uma palavra a mais, um comentário que deveria ter sido anexado ao texto mas não foi, então, podemos usar este espaço aqui. Gostei do texto. Tem corpo. É intenso. Foge do simplório. Explora o inconvencional. Os desenhos sao bem interessantes conseguiram captar a essência de cada personagem. Estou gostando dessa nova fase "inspiração nos desenhos ou desenhos inspirados nos textos".

Volto em breve!

Cezar Dias disse...

Não és mais o único Bruno. E concordo, os desenhos e textos estão interligados como se estivessem sendo carregamos pelo mesmo sistema. O texto prende, dá vontade de ler mais e mais. O que houve com Carmina, ela se suicidou? E os outros dois? Ficaram tao contentes com a presença um do outro que se descobriram gays e satisfeitos com tal situação? Sei que são perguntas que nem têm respostas porque um texto fala por sí só e o que não está ali pode ser imaginado. Mas também tenho a mania de ir além. Ainda me consumirei com essa mania.