Johann
Carmina
J.J. de Campos Leão
CARMINA _Johann! Johann! Onde está escondido? Oh, má sorte de vida a minha! Quando mais preciso de uma alma para escutar-me, só encontro o silêncio a atordoar-me e a dizer-me que por mais que grite e clame, jamais me darão ouvidos!
JOHANN (com a cara amassada, olheiras profundas, cabelos espetados, típica visão de quem acabou de acordar) _Por que todo esse alarido? Estava tentando me concentrar num sono profundo para quem sabe conseguir sonhar com alguma composição, mas eis que aparece-me num pesadelo uma desvairada a escabelar-se por estar na companhia de tão doce e agradável solidão! Que queres, afinal, Carmina?
CARMINA _Quero tudo. Mas para você pode ser nada. Vai me dizer que tudo e nada são subjetivos.
JOHANN _Pensei que quisesse quedar com o seu “Oh Fortuna” em paz. E além do mais estou tentando ocupar meu tempo com novas bachianas. Mais tarde mostro o que consegui.
CARMINA _E já conseguiu o que?
JOHANN _Apenas uma meia sonata e alguns prelúdios que não me renderão nada. Mande chamar J.J. preciso que ele me critique, estou vazio de entendimento e ele sempre consegue calcar meus pés no chão.
CARMINA _Sim, claro. Ele é sempre quem consegue tudo para você! Eu sirvo tão somente para você dizer que possui uma companhia feminina. Confesse! Você é tão ou mais vil que este seu amigo que diz produzir peças e poemas esplendorosos, mas eu só entendo que ele pega as atrocidades humanas e joga-as no papel, maculando-o menos do que quem as lê!
JOHANN _Por que todo esse alvoroço? Por que toda essa raiva incontida por J.J.? Oh, que saudade da cama que lá deixei! O sono esvaiu-se por entre meus sentidos. Sabe-se lá quando irei dormir e sonhar novamente para poder compor...
CARMINA _Não conheço pessoa mais egocêntrica que você! Como consegue preocupar-se tão somente consigo mesmo? Eu aqui me desfazendo em medos e angústias e você vem me falar de sonhos?
JOHHAN _Sim! (grita intrepidamente ele, puxando os cabelos, pulando pela sala)
CARMINA _E ainda confessa! Dizem que a mentira nos faz sofrer menos. Então, minta para mim, invente mil coisas. Mas não me faça permanecer nesse sofrimento! Imploro-te!
JOHANN _Não percebe? Tive a idéia que estava precisando há meses! Tudo já soa em meu ser... o nome será Sleepers Awake e terá os mais breves e cálidos soares que alguém já ouviu. Será um “acordar” sem alarde, sem pressa. Algo que fará a humanidade despertar, mas ao mesmo tempo, voltar a sonhar, voltar a acreditar que não existe razão entre realidade e sonho!
CARMINA _Eis que chega seu amigo. Eu me retiro, pois não me sinto bem-vinda aqui! Aproveitem a tarde, está propícia para dois loucos que se crêem sãos!
J.J. _Johann! Passei para mostrar os meus trabalhos dos últimos dias! E ouvi da soleira da porta que já está com idéias novas! Como vai Carmina? (dirigindo-se a ela). Parece-me cansada, um tanto quanto sorumbática.
CARMINA _Estou bem, mas estou farta de estar assim. Trouxe mais poemas? Me empreste alguns, preciso distrair a mente.
JOHANN _Minha cara, os poemas dele não servem para distrair mentes vazias! Venha cá, J.J. preciso pôr no papel minha idéia! Traga seus escritos. Eles sempre me ajudam muito a compor melhor.
J.J. _Sim, vamos. Mas antes, deixe-me presentear Carmina com alguns versos.
CARMINA _Alguém finalmente se importa comigo! Versos? Onde estão?
J.J. _(tirando um papel amassado do bolso) Aqui estão eles: “Perdi o que pensava estar seguro, encontrei o que pensava nem existir. O que faço com o que existe? E o que perdi? Onde o encontrarei novamente? Ah, deixemos de lado esse atrolho. Eu quero mesmo é desexistir para não ter que me perder!”
JOHANN _Bravo! Muitas vezes precisamos nos perder para só então nos encontrar. No caso, vamos desexistir, talvez, assim, possamos existir novamente, mas de forma menos medonha!
CARMINA _Não entendi nem o poema nem o comentário! Ah, vocês só me causam mais dor! (sai correndo, com as mãos no rosto)
J.J. _Pelo jeito, ela está pior do que antes. Os chineses tomam um tal de chá verde. Dizem que é bom para tudo, até mesmo para essas dores imaginárias que ela tem.
JOHANN _Ela está como sempre esteve: chorosa por não conseguir ser útil.
J.J. _Deixemos ela nos braços de Wagner, lá, ela encontrará maior conforto do que aqui entre nós, entre um poeta malfadado e entre um compositor incompreendido, mas que já tem novas idéias para entorpecer quem se deixa levar, se permite sentir.
JOHANN _Oh, amigo! O acordar só não é um martírio quando desperto com alguma idéia que servirá para me fazer sentir útil nesse mundo tão incompreensível.
Os dois abraçam-se e saem de cena sob o entoar de Sleepers Awake.
Carmina
J.J. de Campos Leão
CARMINA _Johann! Johann! Onde está escondido? Oh, má sorte de vida a minha! Quando mais preciso de uma alma para escutar-me, só encontro o silêncio a atordoar-me e a dizer-me que por mais que grite e clame, jamais me darão ouvidos!
JOHANN (com a cara amassada, olheiras profundas, cabelos espetados, típica visão de quem acabou de acordar) _Por que todo esse alarido? Estava tentando me concentrar num sono profundo para quem sabe conseguir sonhar com alguma composição, mas eis que aparece-me num pesadelo uma desvairada a escabelar-se por estar na companhia de tão doce e agradável solidão! Que queres, afinal, Carmina?
CARMINA _Quero tudo. Mas para você pode ser nada. Vai me dizer que tudo e nada são subjetivos.
JOHANN _Pensei que quisesse quedar com o seu “Oh Fortuna” em paz. E além do mais estou tentando ocupar meu tempo com novas bachianas. Mais tarde mostro o que consegui.
CARMINA _E já conseguiu o que?
JOHANN _Apenas uma meia sonata e alguns prelúdios que não me renderão nada. Mande chamar J.J. preciso que ele me critique, estou vazio de entendimento e ele sempre consegue calcar meus pés no chão.
CARMINA _Sim, claro. Ele é sempre quem consegue tudo para você! Eu sirvo tão somente para você dizer que possui uma companhia feminina. Confesse! Você é tão ou mais vil que este seu amigo que diz produzir peças e poemas esplendorosos, mas eu só entendo que ele pega as atrocidades humanas e joga-as no papel, maculando-o menos do que quem as lê!
JOHANN _Por que todo esse alvoroço? Por que toda essa raiva incontida por J.J.? Oh, que saudade da cama que lá deixei! O sono esvaiu-se por entre meus sentidos. Sabe-se lá quando irei dormir e sonhar novamente para poder compor...
CARMINA _Não conheço pessoa mais egocêntrica que você! Como consegue preocupar-se tão somente consigo mesmo? Eu aqui me desfazendo em medos e angústias e você vem me falar de sonhos?
JOHHAN _Sim! (grita intrepidamente ele, puxando os cabelos, pulando pela sala)
CARMINA _E ainda confessa! Dizem que a mentira nos faz sofrer menos. Então, minta para mim, invente mil coisas. Mas não me faça permanecer nesse sofrimento! Imploro-te!
JOHANN _Não percebe? Tive a idéia que estava precisando há meses! Tudo já soa em meu ser... o nome será Sleepers Awake e terá os mais breves e cálidos soares que alguém já ouviu. Será um “acordar” sem alarde, sem pressa. Algo que fará a humanidade despertar, mas ao mesmo tempo, voltar a sonhar, voltar a acreditar que não existe razão entre realidade e sonho!
CARMINA _Eis que chega seu amigo. Eu me retiro, pois não me sinto bem-vinda aqui! Aproveitem a tarde, está propícia para dois loucos que se crêem sãos!
J.J. _Johann! Passei para mostrar os meus trabalhos dos últimos dias! E ouvi da soleira da porta que já está com idéias novas! Como vai Carmina? (dirigindo-se a ela). Parece-me cansada, um tanto quanto sorumbática.
CARMINA _Estou bem, mas estou farta de estar assim. Trouxe mais poemas? Me empreste alguns, preciso distrair a mente.
JOHANN _Minha cara, os poemas dele não servem para distrair mentes vazias! Venha cá, J.J. preciso pôr no papel minha idéia! Traga seus escritos. Eles sempre me ajudam muito a compor melhor.
J.J. _Sim, vamos. Mas antes, deixe-me presentear Carmina com alguns versos.
CARMINA _Alguém finalmente se importa comigo! Versos? Onde estão?
J.J. _(tirando um papel amassado do bolso) Aqui estão eles: “Perdi o que pensava estar seguro, encontrei o que pensava nem existir. O que faço com o que existe? E o que perdi? Onde o encontrarei novamente? Ah, deixemos de lado esse atrolho. Eu quero mesmo é desexistir para não ter que me perder!”
JOHANN _Bravo! Muitas vezes precisamos nos perder para só então nos encontrar. No caso, vamos desexistir, talvez, assim, possamos existir novamente, mas de forma menos medonha!
CARMINA _Não entendi nem o poema nem o comentário! Ah, vocês só me causam mais dor! (sai correndo, com as mãos no rosto)
J.J. _Pelo jeito, ela está pior do que antes. Os chineses tomam um tal de chá verde. Dizem que é bom para tudo, até mesmo para essas dores imaginárias que ela tem.
JOHANN _Ela está como sempre esteve: chorosa por não conseguir ser útil.
J.J. _Deixemos ela nos braços de Wagner, lá, ela encontrará maior conforto do que aqui entre nós, entre um poeta malfadado e entre um compositor incompreendido, mas que já tem novas idéias para entorpecer quem se deixa levar, se permite sentir.
JOHANN _Oh, amigo! O acordar só não é um martírio quando desperto com alguma idéia que servirá para me fazer sentir útil nesse mundo tão incompreensível.
Os dois abraçam-se e saem de cena sob o entoar de Sleepers Awake.
2 lágrima(s) de sangue derramada(s):
Já que eu sou o único que tem postado comments por aqui, a senhorita sombria poderia comentar também, assim vamos nos desmembrando pelos caminhos do inusitado. E tbm tem a questão de que nem sempre dizemos tudo nos textos, tem sempre uma palavra a mais, um comentário que deveria ter sido anexado ao texto mas não foi, então, podemos usar este espaço aqui. Gostei do texto. Tem corpo. É intenso. Foge do simplório. Explora o inconvencional. Os desenhos sao bem interessantes conseguiram captar a essência de cada personagem. Estou gostando dessa nova fase "inspiração nos desenhos ou desenhos inspirados nos textos".
Volto em breve!
Não és mais o único Bruno. E concordo, os desenhos e textos estão interligados como se estivessem sendo carregamos pelo mesmo sistema. O texto prende, dá vontade de ler mais e mais. O que houve com Carmina, ela se suicidou? E os outros dois? Ficaram tao contentes com a presença um do outro que se descobriram gays e satisfeitos com tal situação? Sei que são perguntas que nem têm respostas porque um texto fala por sí só e o que não está ali pode ser imaginado. Mas também tenho a mania de ir além. Ainda me consumirei com essa mania.
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