O apartamento era mal iluminado e as paredes precisavam de pintura, tinha cheiro de mofo e gotas de sangue escorriam dos azulejos do banheiro. Ele estava lá... fazia a barba, transpirava muito e já havia se decidido ser o que nunca conseguiu, afinal, já era um homem feito e precisava tomar uma atitude, mesmo que esta pudesse transtornar os outros. Pensando nisso, esqueceu-se do que estava fazendo e a lâmina roçou-lhe a pele.
Abriu a torneira, a água estava fria e clorada, a banheira era amarelada, todavia, com a pouca luz, pouco se percebia. Segurou firme a lâmina e começou a se cortar (desta vez sim sabendo bem o que fazia). Os braços, as pernas, o rosto. Dentro de poucos instantes estava completamente ensangüentado; olhou-se no espelho e viu o que sempre quis ser, aquilo que estava vendo era o que sempre teve gana de fazer, porém jamais havia tido coragem o suficiente para tal ato. Porém, agora, estava ali, pronto tanto para o tudo quanto para o nada, para a vida e principalmente para a morte que lhe chorava ao ouvido.
Naquele instante, almejou muito morrer e eternamente sentir que sua idéia permaneceria. Sentindo o sangue quente escorrer-lhe pela boca, teve uma vontade enorme de subir na geladeira, tocar no teto e deixar suas digitais sangrentas. Foi o que fez. Subiu num banco e dentro de pouco tempo estava de pé sobre o eletrodoméstico; com as mãos no teto, sentia medo, ouvia vozes e procurava o que nunca encontrou. A banheira transbordava. O ar era abafado em demasia.
Ainda sobre a geladeira, abriu-a, com certa dificuldade, e pegou lá de dentro um revólver o qual continha apenas uma bala, “não é preciso de muito para deixar de ser”, engatilhou e apertou contra a cabeça. A bala saiu como a luz da manhã: tardia, vagarosa e dolorida.
No final, deixou a vida com um sorriso irônico nos lábios, como a debochar de todos, inclusive de si mesmo, pois sabia que o objetivo de sua vida era a morte, mesmo esta sendo irreversível e aquela contraditória!
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