Máscara do que não se é?

Máscara do que não se é?
"Assemelham-se, porém não são. São, mas não se assemelham. Um jogo de esconde. Como se entrássemos num labirinto de espelhos, e perdêssemos a imagem verdadeira. Ou todas as imagens à nossa volta dadas como verdadeiras. Aceitar todas, admitindo a multiplicidade, ou permanecer em busca da única?" - Não verás país nenhum - Ignácio de Loyola Brandão.

Solidão quando almejada

Solidão quando almejada
"Eu era um homem que se fortalecia na solidão, ela era para mim a comida e a água dos outros homens. Cada dia sem solidão me enfraquecia. Não que me orgulhasse dela, mas dela eu dependia. A escuridão do quarto era como um dia ensolarado para mim. Tomei um gole de vinho". (Charles Bukowski – Factótum, cap. 17, ed. lp&m e "Melancholy" - Van Gogh 1883).

24/11/2009

"... escrevo o tempo todo, mesmo quando durmo." Marguerite Duras

Marguerite Duras, que além de romancista foi teatróloga e cineasta, estreou na literatura em 1943 com o romance “Os Impudentes”. Antes, porém, em 1941, teve seu primeiro romance, “A Família Taneran”, recusado por um editor. Costuma ser incluída entre o que se convencionou chamar o “novo romance” francês, uma vez que sua obra apresenta algumas das características formais dos principais escritores daquela escola – Nathalie Sarraute, Alain Robbe-Grillet, Michel Butor. Apesar de haver começado a afirmar-se logo após a Segunda Guerra Mundial, o “novo romance” só recebeu a atenção da crítica no final dos anos cinqüenta. O termo “escola”, aliás, é pouco apropriado para designar um grupo relativamente heterogêneo de romancistas que não estavam unidos por nenhum programa comum, mas cujas afinidades na maneira de conceber o romance levaram os críticos a designá-los como tal a posteriori.

Entre aquelas peculiaridades formais compartilhadas pelos “novos romancistas”, incluem-se o desrespeito à linearidade temporal, em prol de uma narrativa que se permite ir e vir livremente no tempo; a apresentação ao leitor de várias possibilidades paralelas para um único fato, entre as quais o autor se recusa a optar; a redução do enredo a muito pouco, o que leva à exploração exaustiva ou à repetição de certas cenas ou situações; a desatenção ao “interior”, à psicologia das personagens, resultante de uma descrição minuciosa, “objetiva”, de seres e coisas – daí a designação que lhe foi aplicada de “escola do olhar”. Foi sobretudo essa última característica que fez com que a crítica falasse em “desumanização” a propósito dos exemplares mais representativos do “novo romance”.

“O que parece divertido”, escreveu Marc Saporta, crítico e romancista francês, “é que, após terem contestado com tanta freqüência a relação entre Duras e a escola do olhar, alguns se insurgem contra a pretensa ‘traição’ da autora em ‘O Amante’ – apesar de que esse último livro não esteja longe, devido a vários de seus artifícios de composição, da técnica neo-romanesca.”
Seja como for, dificilmente se poderia dizer que “O Amante” é um livro “desumano”. Embora ainda possua certos traços – uns mais diluídos, outros menos – do “novo romance”, o texto contrapõe-se à frieza típica daquela escola. Talvez, nesse caso específico, isso advenha do fato de tratar-se de uma narrativa construída sobre material autobiográfico. Essa é a principal razão aventada por alguns para o sucesso da obra, num momento em que a literatura confessional parece ter estado ou ainda está em voga.

A autora, no entanto, foi a primeira a discordar dessa hipótese. “Minha vida, minha biografia, meus filmes são tudo uma coisa só; não há momento em que eu não escreva; escrevo o tempo todo, mesmo quando durmo. Fazer uma distinção entre todos esses estados me parece completamente fora de propósito no meu caso”, disse num depoimento dez anos antes de sua morte.
Mas o que há de autobiográfico num livro como “O Amante”? Até onde se pode saber, praticamente tudo. Marguerite Duras nasceu na então Indochina francesa em 1914, filha de um casal de professores primários franceses. Seu sobrenome verdadeiro é Donadieu. Duras é um pseudônimo tirado do nome de uma aldeia no norte da França, próxima do local onde nasceu seu pai. Este, por sua vez, morreu quando ela tinha apenas quatro anos. A mãe resolveu aplicar todas as suas economias numa concessão onde pretendia plantar, mas administradores desonestos venderam-lhe uma concessão inexplorável: terras alagadas pelo mar da China. Essa história, juntamente com a do amante de origem chinesa e a do irmão sem escrúpulos que é o preferido da mãe, já fora contada, sob forma ficcional, num romance de 1950, “Uma barragem contra o Pacífico”.
Aos dezessete anos, Marguerite, ainda Donadieu, foi para Paris e, após estudos de Matemática na Sorbonne, acabou diplomando-se em Direito e Ciências Políticas. Casou-se, perdeu um filho, morto ao nascer, e logo em seguida morreu o seu irmão mais novo. Integrou a Resistência francesa juntamente com seu marido, Robert Antelme, que foi preso e deportado. Seria reencontrado em 1945, graças às diligências do “coronel” da Resistência Fraçois Morland – nome de guerra do presidente francês François Mitterrrand –, num campo de concentração em Dachau, na Alemanha. Num diário dessa época, incluído no livro “A Dor”, de 1985, ela narra a expectativa de seu retorno.
Divorciada em seguida, casa-se com Dionys Mascolo; desse segundo casamento, desfeito onze anos depois, teve um filho. Inscreveu-se, após a guerra, no Partido Comunista, que abandonaria mais tarde. O alcoolismo, a que se refere no início de “O Amante”, levou-a, a partir da meia-idade, a freqüentes tratamentos para desintoxicação, o último deles logo após haver escrito “A Doença da Morte”, livro de 1982.

Todo o resto, como diria o poeta francês Paul Verlaine, é literatura. Até a própria vida, diria Marguerite Duras.

O clássico da tragédia

Eis aqui um pouco de crítica literária que me veio novamente aos sentidos ao estar às voltas com Andrômaca:

Produto dos mais requintados do espírito francês, a tragédia clássica é um dos gêneros mais fixos da literatura universal. Se as dificuldades, em arte, não constituíssem simultaneamente estímulos, as regras estreitas que seus cultores e teóricos lhe impuseram tinham que matá-la no nascedouro.
Nessa variante da arte teatral, que vigorava nos séculos XVII e XVIII, os sentimentos e paixões comuns a toda a humanidade eram obrigatoriamente encarnados por pessoas ilustres, reis e príncipes da História Antiga ou da Mitologia (profusamente ensinadas nas escolas e que constituíam então o fundo comum da cultura do honnête homme). A linguagem era solene e metafórica, sendo excluídos não somente os vocábulos vulgares e grosseiros, mas até a maioria dos termos concretos mais corriqueiros da língua de todos os dias. As cenas de sangue e violência são proscritas: os duelos, as batalhas e mortes, em vez de representados no palco, são geralmente relatados por um mensageiro.

Além disso, a interpretação arbitrária de um trecho de Aristóteles encerrou a tragédia no círculo de ferro das “três unidades”: as da ação, do lugar e do tempo, das quais só a primeira pode parecer lógica ao espectador moderno. A ausência de ações secundárias favorece, com efeito, a concentração das emoções e a intensificação do ritmo. A obrigação de comprimir a ação nas vinte e quatro horas do dia (que força os autores a intercalar verdadeiras narrativas para deixar os espectadores a par dos antecedentes da ação) e a de fazer desenrolar todas as cenas no mesmo cenário prejudicam as exigências mais elementares da verossimilhança e da ilusão. Mas o que mais importava ao autor trágico não era o enredo e sim as suas repercussões na psicologia das personagens.

Entre os muitos artifícios da tragédia clássica cabe assimilar aquele que possibilita a dissecação dos sentimentos em pleno palco: a presença, junto a cada personagem principal, de um confidente a quem ele revela os seus conflitos íntimos. Os confidentes, em regra geral, não desempenham papel ativo: a sua participação limita-se a ouvir os protagonistas desvairados e a apontar-lhes – quase sempre em vão – o caminho do dever e os argumentos da razão.
Dentro desse sistema de convenções figura também a da forma, que é sempre a do verso alexandrino ou dodecassílabo, com a obrigatória alternância de pares de rimas femininas e masculinas (em geral não observada nas traduções).

Que apesar de tantos óbices artificiais o gênero tenha criado obras primas capazes de emocionar os espectadores até hoje é, sem dúvida, a melhor prova do gênio de seus representantes mais ilustres, como Corneille e Racine. Este último, por sinal, é quem menos sofre com as restrições impostas; adapta-se a elas, até, com surpreendente facilidade, por lhe permitirem concentrar-se exclusivamente naquilo, que, para ele, representava a própria essência do teatro: a análise da existência.

19/11/2009

Divagações num dia chuvoso: hipocrisia da fascinação pelo frio

No livro “Utopia”, Thomas More cita em diversas partes Platão e numa delas traz a explanação de algo que fiquei ruminando hoje, num dia em que um temporal – seguido de granizos e muita ventania – não conseguiu retirar das ruas os mendicantes, os eternos eremitas da fome e da desilusão que são amparados apenas pelo descaso de quem os olha e consegue sentir-se aliviado por não ser um deles:

“Quando os sábios vêem, na rua, passantes molhando-se sob intensa chuva, sem conseguir persuadi-los a procurar abrigo, sabem que nada ganhariam ao sair para protegê-los, a não ser ficarem molhados junto com eles. Por isso é que ficam abrigados, contentes, na impossibilidade de dar solução à loucura dos outros, de se manterem em local seco.”

Após tal citação, More (na voz do idealizador Rafael) discorre a respeito de recursos que, na opinião dele, não podem ser distribuídos de modo igual e justo, os negócios dos homens não podem ser geridos com equidade, se não for suprimida a propriedade privada. Ainda salienta que enquanto o privado subsistir, a parte mais numerosa e melhor da humanidade carregará um pesado e ‘inevitável fardo’ de miséria e preocupação. Por fim, salienta que tal fardo pode ser ‘aliviado’, embora em medida bastante fraca, mas suprimi-lo completamente, afirma, ‘é impossível’.

Minha visão em meio à chuva constante: Um senhor metido com seus farrapos no temporal, esmolava moedas para a bebida da noite que o ajudaria a aplacar o frio e a fome.

O que pensar? Agir como? Meus pensamentos balançavam entre as árvores com seus galhos esvoaçantes enquanto admirava espantosamente aquela cena de horror que todos já se habituaram e não vêem nela nem mesmo um drama digno de ser assistido até o fim.

Um alento: seria aquele senhor alegre em sua desgraça tal qual uma das personagens de Mafra Carbonieri que vê na utopia um algo a mais do que simplesmente ‘um lugar que não existe’?

"utopia é um lugar que não existe mas eu prefiro interpretar, muito pessoalmente, que é o lugar que ainda não existe... eu não vejo, eu não quero ver na utopia um projeto impossível... eu a entendo como um sonho a ser perseguido até que se realize."

Qual seria o sonho dele? O imediato: a garrafa de bebida. O sonho em longo prazo: indefinição, sem esperas... deve macular menos.

Depois de tal cena senti raiva de uma casa com portas e janelas que abrigam do frio, da chuva e do vento.

Indagação meramente retórica: Seria hipocrisia alguém (eu) apreciar o frio intenso (na comodidade de um lar seguro, seco e quente) enquanto tantos padecem a ira e a fúria dos céus em dias como o de hoje?

Tragédia de Racine: Andrômaca

O assunto desta peça enquadra-se numa das situações dramáticas fundamentais, a da ‘ronda não fechada’, a mesma que Carlos Drummond de Andrade assim esquematizou em seu poema ‘Quadrilha’:
"João amava Teresa que amava Raimundo
Que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
Que não amava ninguém."



Só que esta sequência de desencontros sentimentais, tão frequente na vida de todos os dias, envolve, no drama de Racine, não simples mortais, mas celebridades da Fábula.
Hermione, filha de Menelau e da famosa Helena, chega ao Épiro para casar com o rei Pirro. Seu noivo, porém, inventa pretextos para adiar o casamento: apaixonado por Andrômaca, viúva de Heitor que lhe caiu nas mãos quando do saque de Tróia, é a ela que deseja desposar. Andrômaca, fiel à memória de Heitor, mas temerosa pela vida do filho cuja extradição os gregos reclamam, acaba por ceder, com a idéia secreta de tirar a própria vida depois de realizada a cerimônia. Ao saber-se rejeitada pelo noivo, Hermione, ultrajada, arma contra ele o braço de Orestes, chefe da delegação grega. Seduzido pela esperança de obter o amor de Hermione, Orestes trucida o rei ao pé do altar no momento de seu matrimônio com Andrômaca. Porém, ao saber do crime, a desvairada Hermione repele o assassino, nega ter-lhe dado ordem para o crime e suicida-se sobre o corpo do ex-noivo. Acabrunhado, Orestes mergulha na loucura, enquanto Andrômaca, em nome do filho, assume o poder e manda expulsar os gregos cúmplices do assassinato.
Como na maioria de suas tragédias, nesta também Racine utiliza material proveniente das fontes antigas. No prefácio à edição impressa de Andrômaca afirma ter encontrado o assunto, as personagens e seus caracteres já prontos num episódio da Eneida de Virgílio e na Andrômaca de Eurípedes, tendo apenas tomado algumas ‘liberdades leves’ ao adaptá-los. Compreende-se que o jovem dramaturgo (que alcançaria o êxito decisivo precisamente com esta tragédia) se abrigasse sob a tutela daqueles grandes predecessores; entretanto as modificações a que submeteu os dados convencionais do episódio foram substanciais. Segundo a tradição, Pirro casou foi com Hermione e não com Andrômaca; Orestes, apaixonado por aquela, o teria assassinado, pois, por ciúme e não por instigação da noiva desprezada.
A transcendência dessa modificação salta aos olhos: é graças a ela que a personalidade de Hermione ganha complexidade e relevo. Tomada de incontida paixão pelo noivo, ofendida pelas evasivas deste e exasperada pela sua traição, a princesa entrega-se aos excessos do ódio mais violento, a ponto de ordenar o sacrifício do infiel a quem, no entanto, não deixou de amar. Cumprida a ordem, recua horrorizada ante o executor, chegando a negar que foi ela a mandante:
“Mas fala: quem te fez árbitro de tal gesto?
Por que matá-lo? Enfim, que fez? Qual o pretexto?
Quem to disse?”
E, percebendo que o seu amor sobreviveu à sua vingança, suicida-se.
O ardor da paixão fremente que a queima, suas oscilações entre o amor mais violento e o ódio mais feroz fazem de Hermione, sobretudo quando representada por atriz de talento, uma das grandes amorosas do teatro e a verdadeira heroína da peça.
O título leva, porém a supor que na intenção do autor a protagonista era Andrômaca, pura figura da esposa e mãe, colocada diante do insolúvel dilema de ser fiel à memória do marido ou consentir na morte do filho. A força do seu amor a ambos leva-a a inventar um estratagema ao mesmo tempo ingênuo e grandioso que lhe permita, embora com sacrifício da própria vida, não infringir nenhuma das suas obrigações.
De maneira curiosa, a tragédia pode também ser encarada do ponto de vista das personagens masculinas. Orestes e Pirro: quer dizer que reúne em si nada menos de quatro dramas, sem que isto lhe prejudique a unidade.
A sorte de Orestes talvez seja a mais terrível. Hermione nega o assassínio de Pirro num transe de loucura desvairada; Orestes, porém, leva-o a efeito na plena posse de suas faculdades, consciente da felonia que pratica, abusando dos direitos de hóspede e embaixador. A inesperada reação de Hermione não só lhe faz ver todo o horror do crime cometido, mas mostra-lhe a espantosa inutilidade desse crime. A sua exclamação, ao ser informado do suicídio de Hermione, exprime a impotente ironia do homem desamparado em face da crueldade do destino:
“Ó céu, tu que em golpear-me o auspício me ultrapassas!
A esta tua constância Orestes rende graças.”

Não é de admira-se que logo depois as Fúrias se apoderem de seu espírito conturbado.

Quanto a Pirro, contemporâneos de Racine censuram-lhe o comportamento pouco cavalheiresco em tentar conseguir o amor da sua prisioneira por meio de ameaças à vida do filho. O que cabia era, precisamente, a objeção oposta. As leis bárbaras da guerra faziam dele senhor absoluto de sua escrava Andrômaca; procurando obter-lhe não só a posse, mas o amor, mostra-se mais próximo de um cortesão de Versalhes, leitor de Mlle. De Scudéry, do que do capitão impiedoso que Homero nos apresenta na Ilíada.
A sublime fidelidade de Andrômaca esposa e mãe, forte de seu puro amor pelo marido morto (cuja sombra continua atuante como que a vingar-se em seus inimigos, desencadeando contra eles toda aquela série de catástrofes); as oscilações fatais do temível Pirro a quem as tormentas da paixão tiram a capacidade de decidir e agir; o desmoronamento de Orestes ao perceber que cometeu em vão o mais nefando dos crimes; a insânia de Hermione, incapaz de distinguir a voz do próprio coração entre dois sentimentos contrastantes e aniquilada pelo crime que arquitetou, oferecem a toda a arte teatral alguns de seus momentos mais altos, gravando-se de maneira inesquecível na memória do leitor e do espectador. Acresce a musicalidade mágica dos versos (que a melhor tradução só imperfeitamente pode reproduzir), muitos dos quais são apontados justamente entre os mais fascinantes da língua francesa.

18/11/2009

Interligações a partir do conto "A Segunda Vida" - Machado de Assis

“Tornei a ler a sua última carta: é, indubitavelmente, a carta de um lunático. É incerto que a alma exista depois da morte, e, se existe, é claro que o homem não pode dispor dela, fadada como está a outro mundo, a um destino próprio. Como se explica, então, esta floração de sentimentos novos no meu espírito, esta semelhança entre a minha alma de hoje e a do suicida?”
“Diz-me a razão que estou desnorteado. Nunca aceitei aquela herança. Não saberia que fazer dela. Nada quero. Mas, certos fatos, inegáveis e inexplicáveis, inquietam-me...” Capítulo “A alma em herança” – GOG de Giovanni Papini.


“João, vai ali à estação de urbanos, fala da minha parte ao comandante, e pede-lhe que venha cá com um ou dois homens, para livrar-me de um sujeito doido...”
“Como ia dizendo a Vossa Reverendíssima, morri no dia vinte de março de 1860, às cinco horas e quarenta e três minutos da manhã (...) Renasci em cinco de janeiro de 1861. Não lhe digo nada da nova meninice, porque aí a experiência teve só uma forma instintiva...” A Segunda Vida – Machado de Assis.

Depois de trinta e quatro reais e vinte e sete centavos gastos em exatas vinte e três obras literárias na feira do livro, chega um momento em que a indecisão, por qual obra começar a ler, torna-se, ao mesmo tempo, um tormento e uma satisfação. Para aliviar o tormento da dúvida por qual começar, vem o alento em forma de idéia: começar com mais de uma e assim o ‘deliciamento’ (como escreveu Oscar Wilde, dizendo que seus livros deveriam ser deliciados e não devorados, metaforizando assim, mais sutilmente, o arrebatamento causado pela leitura) se instaura e, além disso, ainda me faz recordar e fazer interligações entre as leituras atuais com outras mais antigas.
Entre as obras encontradas na feira, duas se encontraram num rol de surpresa: tratam-se de dois livros cada qual com um conto do Machado de Assis. Um deles carrega o título “A Segunda Vida” e decidi comprar por um motivo além do motivo notório: obra machadiana. Motivo além do motivo notório: percebi que, apesar de ser uma editora desconhecida (Sivadi Editorial), a edição é mediana e além do conto integral (lê-se: completo e original) as ilustrações são muito bem feitas e se mostram bastante concatenadas com a narrativa do texto machadiano. Depois de ter indagado ao livreiro da banca (era na parte infantil da feira e os livros do Machado de Assis obviamente não eram os mais procurados, lamentável tal fato!) se os contos daquela edição eram integrais e depois também de ter recebido como resposta: “Não sei, não li, abre e vê”, foi que fiquei pensando se uma criança (por mais que seja uma com prontidão) estaria preparada para receber textos com tanta carga emocional ou ainda: se conseguiria compreender uma quarta parte, se conseguiria interpretar ou se apenas tal leitura a faria se distanciar ad eternum da leitura já que sua primeira tentativa foi frustrante por pouco ou nada entender. Fiquei lá divagando se comprava aqueles livros para dar a algumas crianças da família. Depois de ter lido o livro que contém o conto “A Cartomante” (um dos contos que de tanto reler sei de cor algumas partes) e de ter percebido que o texto é mesmo fiel ao original, comprei dois títulos com contos que não tinha lido ainda. Comprei porque me convenci em presentear crianças? Não. Comprei para mim. Ainda fico pensando se uma criança conseguiria expandir seus horizontes num mar de desentendimentos (isso se um adulto-leitor não estiver por perto tornando claras algumas idéias para que desde cedo o leitor infantil adquira as bases relevantes) e por esse motivo decidi não repassar livros como aquela edição (repito: comprada na área infantil, com ilustrações e notas explicativas, mas ainda assim muito distantes de serem apreendidas por mentes ainda muito imaturas e que geralmente não são acompanhadas por outras mentes mais elevadas) para crianças. Talvez, se um dia eu tiver oportunidade e tempo e se algum infante se mostrar aberto para adentrar no mundo machadiano, terei a chance de não apenas apresentar tais contos como também regar com algumas explicações que se fazem necessárias para quem ainda está apenas começando a ler. Por ora, como comentei com uma pessoa da família quando esta me indagou se não iria dar os livros para a filha dela, prefiro ficar com os livros e não repassá-los sem que eu possa também dar um respaldo maior por trás de uma doação de livros tão incríveis, porém, não compreendidos por todos e isso ocorre exatamente por motivos já citados acima.

O conto “A Segunda Vida” me propiciou fazer ligações com outras obras do Machado. Uma delas o conto tão conhecido (será que por isso bem compreendido?!?) “O Alienista”. E “Quincas Borba”, o romance em que o ‘humanitismo’ do filósofo Quincas é melhor explicado. Estas trazem a loucura como uma desculpa para a criação de personagens atípicos que geralmente são rechaçados pelos que se consideram ‘normais’. Outro texto que entra no barco das ligações com tais contos é uma das partes de um livro que se tornou um dos meus favoritos: “Gog” – Giovanni Papini. O capítulo “A alma em herança” traz também a loucura como base central da história exposta. Tanto Machado quanto Papini souberam engendrar seus textos de forma a defender idéias pouco usuais e pouco encaradas como aceitáveis, criando assim personagens principais sem o ranço do notório, ainda que outros personagens secundários também tivessem sido criados para mostrar a verossimilhança: os comuns julgando os que estão num meio-fio social.

Ainda sobre a edição “A Segunda Vida”, editora Sivadi, o organizador das notas explicativas e quem escreveu a informação biográfica foi Maicon Tenfen, professor de Língua Portuguesa e também escritor. Ele encerra a parte sucinta da biografia de Machado de Assis escrevendo algo simples, mas enormemente importante: “Caro leitor, deixe de lado os resumos, esqueça as adaptações, e vá direto ao texto machadiano. Mas vá firme, com a mente aberta, desconfiando de cada frase, de cada palavra, que então você lamentará o tempo que demorou para folhear um livro de Machado de Assis!”

13/11/2009

Nietzsche, Hesse e Dostoiévski: semelhantes em suas diferenças!

No livro de Hermann Hesse, O Lobo da Estepe, no capítulo ‘anotações de Harry Haller – só para loucos’ existe uma citação de Nietzsche:
“É bom colocar luvas quando se lê o novo testamento. A presença de tanta sujeira praticamente obriga a isso.”

Enquanto neste capítulo já citado, Harry sente cada expressão de Nietzsche como se fosse algo intrínseco a ele mesmo; numa outra parte em que é outro o narrador que foca a história do Lobo da Estepe, Nietzsche é mais uma vez citado como se o personagem (não se sabe bem se está referindo-se ao lobo ou ao homem-Harry) fosse, à semelhança das concepções de Nietzsche, um ‘gênio do sofrimento’ e que assim havia forjado dentro de si uma capacidade de sofrimento genial, ilimitada e terrível. Esse tal sofrimento engendrado por um sentimento de insatisfação é gerado justamente por lobo e homem nunca coabitarem. Cada um digladia por seu espaço, por um espaço único e reservado dentro de uma existência. Pois ‘o homem e o lobo não caminham juntos, nem sequer se ajudam mutuamente, mas permanecem em contínua e mortal inimizade e um vive apenas para causar dano ao outro...’. E tudo acaba caindo num paradoxo conflitante: ‘... andava sobre duas pernas, usava roupas e era um homem, mas não obstante era também um lobo da estepe...’.
Harry Haller sendo um homem que acumulava livros em seu quarto alugado numa hospedaria, em diversas partes da obra, se indaga sobre as mazelas do catolicismo e certa vez chega a comentar consigo mesmo ‘queria poder acreditar nessas mentiras metidas em véus que querem me mostrar como verdade, mas simplesmente não consigo, deve ser por culpa dos grandes clássicos que li ao longo dos anos’.

Pensando em Hermann Hesse e em suas freqüentes citações de Nietzsche, lembrei do livro: ‘O Idiota’ – Dostoievski. E por coincidência ou não, o personagem central da obra é um questionador do catolicismo e um inconformado com todas as inverdades pronunciadas como verdades absolutas ‘dependuradas numa espada papal’ e, segundo ele, o ateísmo nasceu, tendo como pai o descontentamento gerado pelas verdades impostas:

“(...) O catolicismo romano é até pior do que o próprio ateísmo, é essa a minha opinião! Sim! O ateísmo também prega o nada, mas o catolicismo vai além: prega um cristo deformado, que ele mesmo denegriu e profanou (...) O papa apoderou-se da terra, do trono terrestre e pegou a espada; desde então não tem feito outra coisa, só que à espada acrescentou a mentira, a esperteza, o embuste, o fanatismo, a superstição, o crime, brincou com os próprios santos, com os sentimentos verdadeiros, simples e fervorosos do povo, trocou tudo, tudo pelo dinheiro, pelo vil poder terrestre. Isso não é uma doutrina anticristã?! Como o ateísmo não iria descender deles?. O ateísmo derivou do próprio catolicismo romano! Antes de mais nada o ateísmo começou deles; poderiam eles crer em si mesmos? Ele se fortaleceu a partir da repulsa a eles; antes ele existia pelo obscurantismo e pela mentira, e agora já é por um ódio fanático à Igreja e ao cristianismo.”

E... voltando para os pensamentos de Harry Haller, personagem de Hermann Hesse, quando o lobo abandonava o homem por veredas áridas nas tentativas de entendimento, mais algumas idéias nitzschianas são reveladas como uma maneira de tornar verossímil um personagem bem atípico:

“O que é cristão é o ódio contra o intelecto, contra o orgulho, a coragem, a liberdade, a libertinagem do espírito; o que é cristão é o ódio contra os sentidos...”

E juntando, ainda, uma idéia de Dostoievski com outra do Nietzsche, é possível perceber semelhanças bem propícias. Quando o russo escreve: ‘O papa apoderou-se da terra, do trono terrestre e pegou a espada; desde então não tem feito outra coisa, só que à espada acrescentou a mentira, a esperteza, o embuste, o fanatismo, a superstição, o crime...’, o filósofo alemão se mostra reflexivo numa forma de pensamento bem aproximada: ‘A noção de deus se torna um instrumento nas mãos de sacerdotes agitadores que doravante interpretam toda felicidade como recompensa, toda desgraça como castigo da desobediência...’.

Divagando, encontro uma citação de Nietzsche (do afamado livro ‘o anticristo’) que é uma síntese das características do lobo da estepe de Hermann Hesse: ‘... a infelicidade contaminada pela noção de ‘pecado’; o bem-estar considerado como um perigo, como uma ‘tentação’; o mal-estar fisiológico envenenado pelo verme da consciência.’
E tal ‘consciência’ do homem, quando o lobo se faz ausente, é como se fosse ‘uma caminhada algumas vezes angustiosa, outras cheias de entusiasmo através do caos de um mundo anímico tenebroso, caminho percorrido com a vontade de atravessar o inferno, de oferecer a face ao caos e de padecer o mal até o fim’, isto segundo as próprias palavras do narrador que inicialmente apresenta ao leitor um pouco do que conheceu tanto do homem quanto do lobo.

Hermann Hesse, Nietzsche e Dostoievski terminam a postagem com suas frases únicas, embora carregadas com intencionalidades semelhantes em suas diferenças. O primeiro escreveu ‘existe maior ironia do que qualquer religião que quer me incutir uma fé tão patética quanto inaceitável?’; o segundo sagazmente pronunciou em seu ‘anticristo’: ‘O estupendo ponto de interrogação chamado cristianismo: em vão se procura forma mais grandiosa de ‘ironia da história do mundo.’; já Dostoievski sentencia: ‘quanto furor na mentira religiosa dessa gente... para elas sou tão inaceitável com minha mordaz ironia como elas são para mim uma enorme interrogação com suas verdades de faz de conta.’

11/11/2009

O gênero realismo fantástico de Modesto Carone

Alguns escritores brasileiros de realismo fantástico não são conhecidos pela grande maioria. Ou até são, mas não recebem o devido reconhecimento. É o caso de Modesto Carone, professor, jornalista, escritor e tradutor contemporâneo. Talvez ele seja mais conhecido por sua tradução da obra completa de Kafka do que por seus livros já publicados e um deles inclusive recebeu o Prêmio Jabuti. Esse ‘descrédito’ ou não reconhecimento por parte de leitores que apreciam endeusar autores estrangeiros de realismo fantástico é algo bem inexplicável. Ou talvez seja explicável pelo fato de tal gênero literário não ser muito difundido (com exceção do período em que Machado de Assis exercitou o realismo com obras como “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, “Memorial de Aires” e “Quincas Borba”) nas bandas tupiniquins como é em outras partes do mundo. Escritores como Guy de Maupassant (e suas tão magníficas versões do conto “Horla”), Franz Kafka (qual apreciador de histórias absurdas não conhece o autor de “A Metamorfose”?), Nikolai Gogol (o russo de origem ucraniana, autor do conto “O Nariz” e muito conhecido por sua novela “O Capote”), Edgar Allan Poe (quem nunca ouviu falar dos afamados e tão inusitados contos “O Gato Preto”, “A Carta Roubada”, “Manuscrito Encontrado Numa garrafa”, O Retrato Oval” e o tão incrível conto-poema “O Corvo”?) e tantos outros escritores que se dedicaram ao realismo fantástico, à maneira inusitada de discorrer sobre os declínios e desastres da humanidade, privando sumariamente pelo pessimismo.
Carone não fica atrás de nenhum destes gênios do fantástico. Encontra-se ele no mesmo patamar, embora muitos leitores brasileiros prefiram continuar centrando suas leituras nos estrangeiros que sem dúvida alguma são extraordinários, porém, por que não abrir um espaço para escritores brasileiros que nada deixam a desejar como também fazem parte da enorme gama de extraordinários fantásticos?
Será que estou divagando exacerbadamente e apostando muito em sentimentos telúricos? Mas se fosse assim eu não teria comentado que tantos outros escritores estrangeiros deste gênero são sensacionais. Inclusive muitos deles são as maiores influências de Carone. Então, por que não dar um crédito a quem escreveu o conto “Beco de Flores”? Este faz referência direta às personificações da vingança – Erínias –aquelas que puniam os mortais enquanto Nêmesis era quem punia os deuses. As Erínias eram três: Alecto (Interminável), Megera (Rancor) e Tisífone (Castigo). Todas elas habitavam os mais profundos recônditos do Hades e lá mesmo causavam as piores agonias e tormentos em almas pecadoras que eram subjugadas por Perséfone e Hades. Eufemisticamente, em Atenas, costumavam usar a expressão Semnai Theai (σεμναὶ θεαί) ou ainda deusas idolatradas. Mas onde encontra-se a referência às Erínias no texto do Carone? Exatamente no nome da personagem feminina: Erínia. E Carone conseguiu engendrar em um estereótipo todas as três personificações. Sendo que através de cada parte do conto, uma Erínia de cada vez mostra ora seu desejo e necessidade de castigar, ora seu rancor excessivo, ou ainda sua busca interminável pela vítima.

Abaixo segue o conto na íntegra de Carone o qual eu considero um dos melhores do gênero realismo fantástico brasileiro e, no entanto, tanto o conto quanto seu autor são quase anônimos, o que não dá para deixar de lamentar.


Beco de flores
Modesto Carone

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As sereias dos barcos soavam desoladas ao largo da costa quando cheguei a Paraty. Embora fosse maio chovia sem parar; ninguém se aventurava pelas ruas alagadas por causa do mau tempo; os hotéis pareciam acomodados à escuridão. Apesar disso andei durante horas para encontrá-lo. No meio do nevoeiro era natural que a túnica colasse ao meu corpo como uma armadura; as sandálias mergulhavam com ruído nas poças mais fundas. Atendendo a um comando subterrâneo eu segurava o punhal na mão direita: dentro de alguns instantes ia vê-lo diante de mim. Ao entrar no beco de flores tive a certeza de que ele caminhava ao meu encontro. Pisei tensa nas pedras lisas, as narinas abertas ao tóxico das plantas pendentes de muros e janelas. A essa altura a visibilidade era quase nula e as cãibras paralisavam os dedos em volta do punhal; no entanto não afrouxei nem um pouco a pressão. Isso não me impediu de estremecer ao surpreendê-lo sentado no chão. De fato a vontade de golpeá-lo enquanto ele estava anestesiado era muito grande: só a custo me contive. Por isso esperei que ele voltasse a si para vencer a distância que me separava do seu pescoço. Ao enterrar a lâmina na carne desprotegida percebi que as lágrimas me subiam aos olhos; pois eu o odiava a ponto de saber que obedecia passivamente a uma realização de desejo.

2
Senti que Erínia estava por perto quando cheguei ao centro comercial de Paraty. Embora fosse maio a chuva caía sem parar; as pedras lisas impediam que os turistas se aventurassem pelas ruas; além do mais faltava luz em toda parte e as sereias dos barcos soavam desoladas ao largo da costa. Eu tinha armado o guarda-chuva de plástico e caminhava em direção ao mar; surpreendido pelo nevoeiro percebi que não chegaria à praia; tanto que depois de andar mais de uma hora estava no ponto de partida. Foi nesse lance que desviei o olhar para o beco: parecia um jardim suspenso. Os tufos de flores despencavam pelos muros e janelas; a primeira vez que os vi pensei que fossem restaurantes; as casas, no entanto, estavam fechadas por causa do mau tempo. Atraído pelo silêncio entrei no beco como quem sobe num navio iluminado. O perfume das plantas era muito mais forte do que eu imaginava – em poucos segundos sentei-me intoxicado no chão. Creio que só nesse instante Erínia apareceu de corpo inteiro diante de mim: a túnica branca escondia as sandálias de couro e uma luz de vinho vazava dos seus olhos. Movido pela surpresa eu lhe disse alguma coisa amável; não tive resposta. Lembro-me apenas de que ela avançou pisando nas poças e enterrou o punhal no meu pescoço. Enquanto o sangue ensopava o colarinho eu mantinha a calma; pois o crime de Erínia tinha as marcas usuais da alucinação satisfatória.

09/11/2009

Crítica: uma das campanhas da 55ª Feira do Livro de Porto Alegre esboça cunho apelativo


Especificamente a campanha publicitária intitulada “Pernas” (e está presente como um dos temas dos marcadores de página distribuídos quando se faz alguma compra nos estandes) da 55ª Feira do Livro de Porto Alegre, criada por uma agência chamada Matriz (quem quiser que confira os vídeos no site
http://www.feiradolivro-poa.com.br/campanha.php), traz uma intencionalidade chamativa – para não repetir que considerei a mesma extremamente apelativa – e um tanto quanto atrativa (os seguidores e adoradores de BDSM que o digam) num sentido que me soa ofensivo. Não sou puritana, inclusive, muitas vezes, me vejo defendendo idéias antagonistas ou algumas que vão contra a mesmice e ao comodismo tão nauseante do esperado e estipulado, porém, até mesmo eu considerei que a específica campanha contém cunho de uma sensualidade escachada, o que pode muito bem ser entendido e apreciado por adultos, mas para um público infantil (para o qual a feira é também destinada) a visualização daquelas pernas metidas em meias de seda preta pode muito bem ser sentida como algo que vem a anular ou a macular a candidez que é tão proeminente na infância. Será que uma campanha assim vem mesmo para trazer o sentido de descoberta? Ou será que tamanha apelação foi invocada propositadamente para que jovens e adultos se sentissem atraídos e assim, com o slogan estratégico “Tem sempre uma emoção esperando por você”, os livreiros alcançassem mais vendas de livros? I really don´t know! O que sei é que me senti um pouco incomodada por receber o marcador das pernas. Certamente a premissa de que “a emoção está sempre esperando” fica bem concatenada com tal campanha, mas mesmo assim acredito que uma feira voltada para o público em geral deveria tomar um mínimo de cuidado para não abalar as estruturas imaginativas de crianças que precisam vivenciar fase por fase e não avançar repentinamente como se fossem um bólido a se rasgar num céu de incompreensões.
Só para não dizer que fui totalmente do contra com relação às campanhas da feira, cito aqui que nem todas me causaram mal estar. Uma delas é um periscópio de um submarino, o que dá para imaginar que tal ‘olho’ busca as emoções nos livros que o slogan deixa bem claro. Outra publicidade é a mão de um zumbi que sai de uma cova e especificamente esta me fez lembrar das “Histórias Extraordinárias” do Edgar Allan Poe.

Há quem diga que as pernas, o periscópio, a mão do zumbi e as outras campanhas carregam o mesmo objetivo: despertar a vontade nas pessoas de buscar nos livros as tão diversas emoções que certamente eles nos trazem. Porém, ainda não consigo considerar todas as campanhas como algo interessante, chamativo, perspicaz sem que sejam também (terei que me repetir) apelativos (uma delas extrapolou, as outras, conseguiram encontrar um meio termo entre capacidades de percepção e de entendimento adultas e infantis).

08/11/2009

Você gosta de Brahms.. - Françoise Sagan

Um livro marcante. Cheio de referências ao tempo em que a independência feminina começou a ser declarada e cada vez mais demarcada e vivida. Tal pano de fundo não poderia deixar de se ser evidenciado na obra de uma escritora francesa. Narrativa entre leve e densa, cheia de diálogos e monólogos que fazem vir à tona a realidade, os sonhos e os tormentos de uma mulher de 39 anos já meio habituada e resignada numa relação amorosa que mais lhe causava dores e descontentamentos do que satisfação e alegria. O que mais tinha eram momentos vazios em que o telefone tocava e Roger dizia “Peço perdão.. terei um jantar de negócios...” enquanto ela olhava-se e via-se pronta para o compromisso que haviam marcado para aquela noite e totalmente despreparada para enfrentar mais uma noite só, ela percebeu que desde o início (nove anos) ocorreu da mesma maneira. Todavia, ela, mesmo indecisa entre os versos pessoanos que tanto me fascinam “não sabia se estava alegre ou cansada de estar triste”, tinha algo que a aproximava cada vez mais daquela situação: nada mudaria e exatamente isso a confortava de modo a não se ver em qualquer outra situação.
Num repente, ela fica sabendo da existência de um homem jovem (muito mais do que ela) com uma vida cheia de decadências, vícios e desordens sociais e pessoais (mas incrivelmente inspirador). Aí, ela enfrenta (ou tenta) a idéia que nunca sai de sua mente: o julgamento alheio (embora tal julgamento sempre partiu mais dela do que de qualquer meio externo) por conta da diferença excessiva de idade cronológica. Infelizmente, ela não era madura o bastante (mesmo com seus quase quarenta anos) para perceber que o importante era o conteúdo de Simon e não o que aparentava em seus 25 anos até então mal vividos. E como Simon tinha conteúdo... e como Roger (um pouco mais velho do que ela) era imaturo, ignorante e vazio... esses detalhes que saltam aos olhos de qualquer leitor não puderam ser aceitos por ela. Ela sabia, via tudo claramente, mas não queria acreditar que pudesse existir uma simbiose perfeita entre forma e conteúdo. Era assim Simon. Terá sido ele muito? Terá sido ela pouco? Terão os dois tentado uma relação que já sabiam malfadada? Terá Roger, com suas manias de possessão, a atraído tanto exatamente por não ser perfeito no que ela considerava perfeição? Terá ela abandonado Simon exatamente por ver nele um pouco do absurdo entre conteúdo e forma?
Definitivamente é uma obra que traz muitas reflexões. Realmente fiquei me indagando o que a teria feito deixar Simon e seus livros e sua paixão por música clássica e seu carinho tão elevado para com ela para reatar uma relação com Roger e sua tão inconfundível e notória infidelidade. Por estas questões e outras é possível constatar que a obra de Françoise Sagan é cheia de humanidade. Cheia dos erros que todos cometem, cheia de um vazio sagaz que reflete nas misérias mais tenras de todos. Um livro sem o tão chato e inverossímil ‘happy end’. Um fim passional e dramático: ela prefere a dor tão bem sua conhecida a trilhar um caminho desconhecido, mas tão atraente e raro. O fim de Simon: juntou seus livros (que já estavam no apartamento dela), recolheu seus discos de música clássica e partiu com todo o seu sofrimento ressoando nos seus passos na escada, mas ele sabia. Ela sabia. Roger também sabia. Eu, no fundo, desde o inicio, torcia para que Simon a fizesse mais madura, mas eu também sabia, desde o momento em que Simon apareceu no texto, eu sabia, definitiva e angustiadamente sabia que ele terminaria sozinho.
E... resolvi trazer Simon para os meus instantes ou entrar no texto de Sagan e me tornar um ombro que confortaria tal personagem. Não que fosse servir de substituição ao amor dele por ela. Não, isso nunca. Até porque o que ele sentia por ela não ficaria no passado, como ele bem disse. Mas eu poderia dizer a ele que quem é capaz de chegar à luz da tão profusa imensidão de sentimentos e proferir a uma mulher as seguintes palavras:

“Quanto a vós, eu vos acuso de não terdes cumprido vosso dever de ser humano. Em nome deste morto, eu vos acuso de terdes deixado passar o amor, negligenciado o dever de ser feliz, vivido de subterfúgios, de expedientes e de resignação. Deveríeis ser condenada à morte, sereis condenada à solidão.”

Não encontrará em qualquer mulher (não importando idade cronológica) o verdadeiro merecimento, a verdadeira sensação do compartilhar de sentimentos. Tal busca pode ser a utopia de toda uma existência.

Simon ficou só. Assim como ele profetizou naquela fala acima que ela estaria. Certamente os dois estão sozinhos. Ela com as desculpas eternas de Roger e Simon sem ela. Eis aí um belo texto. Verossímil, ao menos. E obras assim fazem a diferença. A diferença de não confortar àqueles que somente com finais hipócritas e totalmente à parte de uma possibilidade humana (vivida) se sentem agraciados.

06/11/2009

A Pomba (reveladora) de Patrick Süskind

Uma das minhas aquisições obtidas na Feira do Livro deste ano:

Jonathan Noel, passando dos cinqüenta anos, “jamais teria contado com que um dia ainda lhe pudesse ocorrer alguma coisa de essencial que não a morte”. Isso o alegrava, pois “não gostava de acontecimentos e odiava francamente aqueles que abalavam o equilíbrio interno e confundiam a ordem externa da vida” desde aquele julho de 1942, quando ao voltar de uma pescaria para casa – acontecimentos que preferia não lembrar –, depois de uma tempestade de verão (com a alma satisfeita por ter metido os pés descalços em todas as poças do asfalto encharcado e esperançoso de encontrar sua mãe na cozinha), não mais encontrou a mãe, que fora levada para o Leste, de onde ninguém voltava... Jonathan nada compreendeu desse episódio e também não compreendeu o desaparecimento do pai alguns dias depois; ele e sua irmã menor foram colocados por estranhos num trem para esconderem-se até o fim da guerra. Trabalhara no campo e servira na Indochina. Na primavera de 1954 perde de sua vista sua irmã, que emigrara para o Canadá. Por exigência de um tio casou-se com Marie Baccouche – quatro meses mais tarde ela deu à luz e no mesmo outono fugiu com um vendedor de frutas de Marselha. De todos esses acontecimentos desconcertantes e humilhantes a conclusão que tirou foi a de que não podia não confiar em ninguém – pensamento que determinou sua vida dali por diante – “só poderia viver em paz mantendo-se afastado”.
Jonathan era guarda de segurança de um banco em Paris e vivia há trinta anos como trabalhava, com a postura fixa e imóvel de uma estátua, a impassividade de uma esfinge, quebrada de quando em quando com alguns passos à esquerda e à direita nos degraus da escadaria de mármore da portaria do banco.
Não tinha amigos, não conhecia os vizinhos de seu alojamento na Rue de la Planche: um simples chambre de bonne, um minúsculo quarto, mas “a única coisa de sua vida que se mostrara fiel”. E nessa humilde ilha de tranqüilidade sentia-se feliz, aquecido e protegido, até que numa manhã de 1980, ao abrir a porta, ele a viu. “Estava agachada com pés vermelhos e ungulados nos ladrilhos vermelhos cor de sangue de boi do corredor, com a lisa plumagem cinza-chumbo: a pomba.”

Patrick Süskind nasceu em Ambach, na Baviera, em 1949, filho do também escritor W. E. Süskind. Estudou História medieval e moderna na Universidade de Munique e em Aix-en-Provence, na França. Antes de ‘O Perfume’, havia publicado apenas um conto, ‘Uma batalha’, incluído em uma antologia, adquirindo depois algum renome como autor do monólogo dramático ‘O contrabaixo’, encenado em vários países, inclusive no Brasil. Durante algum tempo, viveu de seu trabalho como autor de roteiros.

Ilustração da capa da edição da Record de 1987 (tradução de Reinaldo Guarany): "L´Homme au Chapeau Melon" de René Magritte.

05/11/2009

O incomparável prazer da leitura impressa (para alguns)


Estando às voltas com a 55ª Feira do Livro de Porto Alegre, num dos dias idos por lá, estava eu diante de uma banca, especificamente na parte dos saldos, quando escuto a seguinte frase proferida por uma pessoa atrás do estande de livros:

“O Senhor conhece o Google?”.

Em minha mente voltada para livros, quis me forçar a entender a frase como: “O Senhor conhece Gogol?”. Mas não. A pessoa não se referia ao escritor russo do conto fantástico “O Nariz”.
Olhei para os lados para ver se tal frase tinha surpreendido mais alguém além de mim. Em meio à algazarra, acredito que somente o tal senhor (a quem a pessoa estava se dirigindo) e eu ouvimos. Aí, enquanto saía para procurar mais saldos, fiquei elucubrando: será que o desenfrear tecnológico já tomou conta da vida cotidiana a ponto de alguém perguntar por uma ferramenta de busca soando como se estivesse indagando a respeito de um ser humano? Fiquei pensando que estando onde estávamos (numa feira de livros!!!), ela poderia ter indicado alguma biblioteca ou livros de pesquisa como uma barsa ou outras enciclopédias. A tal frase ficou me acompanhando. “O Senhor conhece o Google?”. A sentença começou a ganhar diversos rumos em minha mente: teria, no questionamento, um sentido de obrigação da outra pessoa conhecer o Google? Ou será que existiu uma ironia, sendo que para quem usa freneticamente o Google soa como impossível que outros não conheçam e não façam dele uso? Ou ainda: talvez, a premissa da frase fosse apenas uma forma de trocar a grande alegria da existência de uma ferramenta que ‘salva’ (ou não... acredito que um ‘nem sempre’ cairia melhor, já que nem todas as fontes encontradas são seguras ou fidedignas) a vida informativa e de busca por conhecimento de muitas pessoas. O que me incomodou não foi o fato de ter escutado uma frase que é inserida num meio informativo virtual, o que me incomodou foi ter escutado tal frase naquele meio entre livros, no qual deveria prevalecer um tipo de “fidelidade ao livro” ou talvez eu esteja apenas criando barreiras entre tecnologia e o escrito impresso. Mas que me doeu ter capturado aquela frase naquelas circunstâncias, ah doeu sim.
Bem provável que nem mesmo aquele senhor o qual foi indagado sobre o Google ainda se lembre de tal frase, provável também que nem aquela pessoa que a proferiu se lembre, mas eu não esqueci. Não tem como cair no olvido uma situação que chegou até a mim como algo paradoxal: que tipo de livreiros temos hoje que indicam sites ao invés de livros? Será, talvez, um tipo de complemento para a leitura? Será que a dica era para encontrar alguma informação que nem aquele senhor e nem ela e nem mais ninguém ali por perto conheciam? Será que eles estão fundando alguma instituição mafiosa contrária ao livro do ‘leia o resumo antes e se gostar, somente se gostar, compre o livro’? Tantas possibilidades... e eu ainda fico pensando que a pessoa atrás do estande poderia ter focado a dica na palavra impressa, pois quem vai numa feira e pergunta por algum livro é porque quer o livro. Ou não? Será que sou eu que me engano? Será que estou vendo o que não existe? Será que agora quando perguntamos por alguma obra já recebemos a resposta “O Google lhe espera com muitos e-books”. Se eu depender de e-books para manter minha regularidade de leituras, então, estarei mesmo perdida. Necessito do contato com o objeto livro, necessito da palavra impressa, do cheiro de livro antigo comprado num sebo, das prateleiras e das lombadas me encarando no meu quarto e em outras partes da casa. Ainda assim, não renego a idéia de e-books. Eles estão lá na esperança de que quem se sente tão próximo da virtualidade, consiga direcionar um pouco de seu tempo para leituras. Mas... quem começou com o contato da leitura impressa dificilmente se habituará com a leitura de, por exemplo, As Brumas de Avalon no formato PDF baixado de um site que disponibiliza gratuitamente todos os quatro volumes da obra da escritora americana Marion Zimmer Bradley. Admiro quem tem a habilidade de fazer o download de inúmeras obras e de conseguir fazer a leitura de todas (baixei a obra completa da Clarice Lispector, certa vez.. e tempos depois percebi que não conseguiria ler diante de uma tela, deletei tudo e me convenci da minha inabilidade e da minha incompetência para ler e-books ou da minha jamais sanada vontade de carregar comigo, ao menos, um livro impresso... companhia incomparável). Certamente pessoas que fazem isso gastam menos, os espaços que seriam ocupados com livros impressos são designados para outros objetos e vejam só: traças, nunca mais! Eu continuo preferindo digladiar com as traças, continuo ocupando mais espaços da casa (meu quarto já não é mais o bastante) com livros e me desfazendo de outros objetos meramente decorativos e ainda prefiro ‘gastar’ (o gasto com livros é sempre irrisório diante da imensidão que nos proporcionam) com a compra de livros do que ficar me encantando com a imensidão de e-books existentes os quais bem posso baixar, mas que jamais lerei.

E... ainda pensando naquela frase “O Senhor conhece o Google?”, lembrei de uma frase que se aplica no que senti no momento em que a frase foi proferida:

“São os livros que nos causam os maiores prazeres e os homens quem nos causam as maiores dores”. Joseph Joubert.

Pois, em tal situação, o que senti foi uma dor extrema ao ter escutado a referência à internet, sendo que tantos livros estavam lá à disposição. Fiquei imaginando quantas obras não se debateram quando a famigerada frase foi dita: “O Senhor conhece o Google?”. E quantas não exultariam se ouvissem: “O Senhor conhece Cervantes?”, “Conhece Verlaine?”; “Conhece Maiakovski?”; “Conhece Cesário?”; “Conhece Wilde?”; “Conhece Tchecov?”. Questionamentos assim deveriam fazer parte da gama indagativa de livreiros porque.. creio que foi Cícero quem disse: “Uma casa sem livros é como um corpo sem alma.” E.. a ‘googleland’ pode até preencher muitos espaços, mas jamais será ‘a alma de um corpo’ como uma obra impressa geralmente é. That´s just the way I think!

02/11/2009

Os dias bons que causam dor - Hermann Hesse

Relendo “O Lobo da Estepe” - Hermann Hesse, reencontrei minhas passagens favoritas. É um daqueles livros que me fazem bem e mal: bem porque assisto nele muito do que sempre carreguei no âmago e mal exatamente por perceber que tais males existem ou existiram em alguém (mesmo que seja ficção.. embora a obra de Hesse demonstre cunho autobiográfico) ou ainda foram tão somente sonhados por algum escritor que não os sentia, mas sentiu que poderia retirar de seu baú de imaginação algum texto que não representasse o que vinha de si mesmo, mas que vinha de outros ou que nem vinha de outros e tão somente de sua mente divagante:

“Muito se tem a dizer sobre o contentamento e a ausência de dor, sobre esses dias suportáveis e submissos, nos quais nem o sofrimento nem o prazer se manifestam; em que tudo apenas murmura e parece andar na ponta dos pés. Mas o pior de tudo é que tal contentamento é exatamente o que não posso suportar. Após um curto instante parece-me odioso e repugnante. Então, desesperado, tenho de escapar para outras regiões, se possível a caminho do prazer, senão, a caminho da dor. Quando não encontro nenhum deles e respiro a morna mediocridade dos dias chamados "bons", sinto-me tão dolorido em minha alma infantil, que atiro a enferrujada lira do agradecimento à cara satisfeita do sonolento deus, preferindo sentir em mim uma verdadeira dor do quê essa saudável temperatura de um quarto aquecido. Arde então em mim um selvagem anseio de sensações fortes, um ardor pela vida desregrada, baixa, estéril, bem como um desejo louco de destruir algo belo, seja uma catedral, ou a mim mesmo, de cometer loucuras temerárias.”

Na postagem que escrevi sobre o conto da Clarice, já divaguei bastante sobre um sentimento paradoxal: sentir dor exatamente por não senti-la. E em tal citação do livro do Hesse é também o que ele evidencia. Os dias que ele considera ‘bons’ são os mesmos que o fazem ir em busca de algo menos ‘medíocre’ ou de algo que possa ser identificado como mais ‘palpável’ à sua atroz realidade na qual o sofrimento é a notoriedade mais bem-vinda ou apenas bem-aceita já que não seria coerente que tais dias bons fossem os mais vivenciados. Deve ser por essa falta de costume com ‘bons dias’ que os maus soem como um agrado, como a representação do que existe num determinado intrínseco. E quando este se vê em ausência de sofrimento, logo vem a idéia de que foi roubado, corrompido e maculado (por ele mesmo) ou que entre lobo e homem encontra-se num vão estreito e pouco cômodo. E é sobre essa falta de comodidade quando a alegria se apresenta – como se fosse absurdamente eterna – é o que causa o terror e desperta o ódio na parte lobo e na parte homem de Harry Haller, personagem de Hesse:

“Pois o que mais odeio profundamente é essa satisfação, saúde e comodidade, esse otimismo, a educação adiposa e saudável do medíocre, do normal, do acomodado. Não que meus dias não sejam bons...”

A Revolta de estarmos sempre - e cada vez mais - sendo analisados

“Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre esta situação. Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer. Ou ter coragem para fazer”.
Carlos Drummond de Andrade


Um choro incontido. Um riso sarcástico. Uma lágrima que demarca uma essência fragilizada. Uma voz irritante que ecoa: “ter é sempre mais importante do que ser”. Tudo é analisado, julgado e condenado. Qualquer ação que se pratique está sendo subjugada por pelo menos um batalhão de pessoas a nossa volta. Não sei quanto ao restante da humanidade, mas a mim isto incomoda e transtorna em demasia. Não temos o poder de agradar a todos e quando tentamos tal proeza, malfadamos no poço da desilusão: o risco de, mais uma vez, sermos analisados e considerados, sem sombra de dúvida, hipócritas.
Somos mentirosos em potencial, usamos a verdade como algo subjetivo... Tudo pode ser modificado conforme a situação? “Diga o que os outros querem ouvir”, foi o que me disseram. Essa frase me dilacera os sentidos toda a vez que dela lembro, mas também me faz pensar que sempre tem alguém se importando com os “defensores de idéias próprias”, com “seguidores de seus instintos viscerais” e com aqueles todos que “reagem contra ações abertamente incoerentes”. Isso é um alento. Há sim sempre quem se importe... e há também quem se importe com a vida alheia, não importando se esta segue uma coerência ou se é a personificação da falsidade ideológica. Apenas se importam, se intrometem, se engancham como macacos nos galhos que não lhes pertencem e ficam lá mesmo feito um bicho preguiça alimentando-se da sombra e da inércia alheias.
Mas há algo que não importa. Não importa se você é tido por feio ou possuidor se uma aparência pré-estipulada perfeita. Não importa porque, ainda assim, você será julgado, analisado e amordaçado. Não importa que você tenha uma vida bem notória e normal ou que você tenha uma personalidade evasiva e anti-social, você será julgado seja qual for a forma de seu corpo, seus hábitos, sua cor, seu estilo de vida e suas idéias preconcebidas. Isso não é paradoxal? Creio que vem a ser muito mais. Isso é extremamente revoltante! E o que fazemos com a revolta? A colocamos no bolso para, quem sabe um dia, talvez, escrever textos bobos como este ou então a deixamos guardada dentro de uma caixa de papelão e se por eventualidade uma enxurrada inundar a casa, fingiremos nem perceber que a água começa a carregar e a levar embora... talvez, seja melhor mesmo que nos tirem a revolta, já que ela está nos servindo apenas para que possamos dizer que a possuímos ('to be is to do' wrote Sartre, but when we don´t do? we aren´t? simple like that? I don´t think so...).
Já vejo o dia em que a revolta será contada como uma lenda, na qual ninguém irá acreditar.

29/10/2009

Gênio poético, alquimia e algumas quadras de Fernando Pessoa

“O gênio é uma alquimia. O processo alquímico é quádruplo: 1- putrefação; 2- albação; 3- rubificação; 4- sublimação. Deixam-se, primeiro, apodrecer as sensações; depois de mortas embranquecem-se com a memória; em seguida ‘rubificam-se’ com a imaginação; finalmente se sublimam pela expressão.”
(Fernando Pessoa, Páginas de Estética e de Teoria Crítica Literária, Ed. Ática, Lisboa, sem data)

As Quadras ao gosto popular de Fernando Pessoa, consideradas por ele mesmo como “vasos de flores que o povo põe à janela de sua alma”, são norteadas de uma subjetiva melancolia e de uma constante nostalgia (até mesmo pelo jamais vivido). Na quadra 189 existe a presença de certa auto-piedade juntamente com o realismo de um espírito que lamenta não de seu fado, mas de sua constante condição idiossincrática:
“Nunca houve romaria
Que se lembrassem de mim...
Também quem se lembraria
De quem se lamenta assim?”

Já na quadra 300, uma verdade inusitada chega arrebatando em forma de verso e ecoa no que alguns sentem e no que alguns jamais admitem, embora também sintam. Afinal, a essência humana está interligada com misérias de seus mais diversos matizes e formas, apenas, às vezes não reconhecemos os vícios como máculas e os usamos como alcunhas de notoriedades bem-aceitas:
“A vida é um hospital
Onde quase tudo falta.
Por isso ninguém se cura
E morrer é que é ter alta.”

Aquilo tudo que não se diz, embora se queira, mas não se diz por que não se sabe como ou porque não existem signos lingüísticos para serem explanados e para serem resumidos os sentimentos, fica sempre suspenso num sentir atordoante que desemboca na razão de nem saber ao certo se o que desejava dizer seria compreendido como se pretendia ser entendido. Eis o que a quadra 232 propõe tão incrivelmente:
“Se eu pudesse dizer
O que nunca te direi,
Tu terias que entender
Aquilo que nem eu sei.”

O desespero manso de Clarice

“Pois a hora escura, talvez a mais escura, em pleno dia, precedeu essa coisa que não quero sequer tentar definir.” É assim que começa o conto “Tanta mansidão” da Clarice Lispector. Logo após, ela descreve um sentimento de vazio, como se “o coração tivesse sido tirado, e no lugar dele houvesse uma súbita ausência”, tal ausência poderia ser interpretada como a ausência do sentir de contentamento, porém, a Clarice, em tal conto, evidencia o desaparecimento, a retirada da dor e do sofrimento ‘natural’ que algumas almas possuem mais do que as outras: “uma ausência quase palpável do que era antes um órgão banhado da escuridão da dor”. Fugindo ao comum, a autora adentrou no campo antagônico da idéia de evidenciar aquele momento em que um coração desesperançado mostra-se assim exatamente por não estar sob os efeitos de sofrimento e de desolação. E como se quisesse dizer que tal instante não é sentido ou percebido por qualquer um, argumenta de forma a tornar mais palpável sua premissa: “Não estou sentindo nada. Mas é o contrário de um torpor. É um modo mais leve e mais silencioso de existir.” Quiçá, o sentimento mais evidente quando um ‘esvaziamento’ de agonia ocorre é exatamente esse ‘sentir nada’. Mas... será que às vezes esse nada ou esse vácuo não é apenas uma justificativa que se dá para dizer “não estou mal, logo deveria estar bem, mas parece-me que sinto falta do contrário sentir de agora”.
Em uma análise mais crua, o texto traz em si a idéia de que nem sempre nos descobrimos padecendo mil males internos e externos, porém, exatamente por isso, exatamente por não nos vermos dessa forma agônica em todo e qualquer momento que vamos arrumando motivos para que algo nos prove o quanto estamos melancólicos. E paradoxalmente, o texto demonstra que alguém pode se sentir terrivelmente entristecido por um único fato: não estar triste ou por não existir motivos, embora sinta algo como “querer consolar-se da angústia e da dor, mas simplesmente possuir uma simples e tranqüila alegria”.
No terceiro parágrafo do conto, a personagem (existem alguns contos da Clarice que me fazem pensar que os personagens são apenas ela conversando consigo mesma) relembra que a chuva costumava consolá-la, mas ela conclui novamente que “não tem dor a consolar”. Buscando ainda um motivo para mostrar-se nada satisfeita com sua ausência de dor, desencadeia uma sentença enunciativa que cai exatamente num confronto e num conforto para a sua tão presente falta de sofrimento (ou presença dele, ainda que pelo motivo de não sentir dor): “Estou procurando agora na chuva uma alegria tão grande que se torne aguda, e que me ponha em contato com uma agudez que se pareça a agudez da dor.”
Desesperadamente, no penúltimo parágrafo, o eu-lírico, ainda procura no próprio pulso o latejar tão dolorido e conhecido da dor. “Constato que não há o latejar da dor”. E tal situação devendo assemelhar-se com um sentir de conforto provido de satisfação e alegria, mostra-se cada vez mais uma prova meio incoerentemente humana de que existe uma dor camuflada que é desencadeada pela presença de uma alma desprovida de males. “Quanto durará esse meu estado?”, é o questionamento que salta da página enquanto a personagem apalpa ainda seu pulso em busca... em busca de uma dor que a chuva, a qual mansamente cai, possa acalmar e consolar.

28/10/2009

Antígona: a persistência no impossível


Algumas das partes mais tensas de “Antígona” do Sófocles (Antígona argumentando com sua irmã, a respeito da atitude que tomaria para conseguir que seu irmão tivesse um sepultamento), me fazem pensar em algumas questões que nem sempre parecem ser as cruciais: o comprometimento entre o que se pensa e como se age; a palavra dada em algum momento é jogada na sarjeta mais próxima, já que logo após ser proferida percebe-se que o ser age como se nunca tivesse tomado conhecimento do que sua boca proferiu.
A morte em forma de alento para aplacar a agonia que foi uma vida cercada de farsas (mais alheias do que próprias: é ela quem morre por uma causa a qual acredita imprescindível ser cumprida) é o que Antígona tenta expor com a seguinte fala emocionante:

“Não te direi mais nada, mesmo se quisesses ajudar, a mim não me trarias nenhum prazer. Age como se te parece melhor; a esse eu enterrarei. Se ao fazê-lo tiver que morrer, que bela morte será! Amada repousarei com ele, com meu amado, criminosamente pura, por mais tempo deverei agradar os lá debaixo que os cá de cima. Lá repousarei para sempre”.

Ainda num diálogo entre irmãs (nada semelhantes em seus pensares e pesares):

“Amas o impossível!”

“Quando me faltarem forças, cessarei”.

“Não convém nem começar a buscar o impossível”

“Se falas assim, terás meu ódio, e, com razão, serás odiosa ao morto. Deixa-me, deixa que minha loucura se afunde em horrores. Não padecerei com certeza nada que não seja morrer gloriosamente”.

Buscar alguma resolução e tentar caminhar em direção ao que é considerado, pelo senso comum, algo utópico ou praticamente impossível de ser alcançado é uma das tantas justificativas que a maioria usa para designar um insano. Mas aí, Sófocles tão bem reluta, dizendo “... deixa-me, deixa que minha loucura se afunde em horrores...”, ainda que muitos sigam repetindo ininterruptamente: “não convém nem começar a buscar o impossível”. Lá no fundo, uma Antígona continuará ressoando: “Tens razão, amo o impossível”.

Un poème de Les Fleurs du Mal et mes commentaires

“... Worm mouche brutale, mineur obscurité,
de vous offrir un agréable morts,
qui recherchent librement les ténèbres, la pourriture!”
Les Fleurs du Mal
O entoar de alguns versos no original francês do grandioso e perseguido (quando da publicação do livro “As Flores do Mal”, em 1857, Baudelaire é acusado de ultrajar a moral pública e os exemplares chegam a ser apreendidos pelo poder público) poeta francês, Charles Baudelaire, me fez recordar de uma tradução de Delfim Guimarães do poema “O morto prazenteiro”. Analisando e comparando os versos originais com a tradução, fica perceptível o comprometimento que alguns tradutores-escritores costumavam ter não somente com a tradução em si, mas também com a questão tão relevante da estrutura de forma e conteúdo do texto original.
O morto prazenteiro
de Charles Baudelaire e tradução de Delfim Guimarães

Onde haja carações, n'um fecundo torrão,
Uma grandiosa cova eu mesmo quero abrir,
Onde repouse em paz, onde possa dormir,
Como dorme no oceano o livre tubarão.
Detesto os mausoleus, odeios os monumentos,
E, a ter de suplicar as lágrimas do mundo,
Prefiro oferecer o meu carcaz imundo,
Qual precioso manjar, aos corvos agourentos.
Verme, larva brutal, tenebroso mineiro,
Vai entregar-se a vós um morto prazenteiro,
Que livremente busca a treva, a podridão!
Sem piedade, minae a minha carne impura,
E dizei-me depois se existe uma tortura
Que não tenha sofrido este meu coração!
(‘O morto prazenteiro’ é um dos cem poemas publicados em 1857 no livro “As Flores do Mal”)

Tiny opinion personnelle: Toutes les caractéristiques désirées à la pourriture est inhabituelle car il n'a jamais été bien compris. Aussi bien quand il voulait faire partie de l'Académie française et réécrit des poèmes pour le livre pouvait être publié. Baudelaire, comme un Hamlet, crève parce qu'il se sent «quelque chose de pourri dans le social».

24/10/2009

Whitman, Braga e Scliar

Deixem que eu trace o meu próprio caminho:
que outros promulguem leis,
das leis não tomarei conhecimento;
que outros exaltem homens eminentes
e promovam a paz,
eu promovo conflito e agitação;
eu não exalto nenhum homem eminente,
e ainda reprovo bem na cara dele
o que foi dado por mais valioso.
(Walt Whitman 1819/1892)

Este poema de Walt Whitman foi copiado na primeira lauda de um dos livros de contos que mais me marcaram na adolescência. Os tão presentes (lidos e relidos tantas vezes) contos do Rubem Braga. O poema ficou no livro demarcando uma época em que eu lia o conto “Diário de um subversivo” do Braga e pensava no quão me pareciam inaceitáveis as exaltações ao comum, exatamente como escreveu W. Whitman em seu poema, o mesmo poema aquele copiado num livro que viu meus dias e noites serem invadidos por um sonho fustigante do exército de uma pessoa só.
E então, reabro o livro do Braga, reencontro minha letra e revejo naquele poema a imagem de alguns sentimentos daquele tempo. E como minha mente deu em fazer altas referências, recordei de um outro livro, lido anos depois de ter copiado o poema do Whitman. Um livro do Moacyr Scliar chamado “O Exército de um Homem Só”. Qual o motivo da referência? Bom, neste livro existe um outro poema do Whitman, poema este que é declamado por uma das ‘companheiras’ de uma sociedade que eles chamam de ‘Nova Birobidjan’. Ela declamava “Pioneiros! Ó Pioneiros! O passado inteiro deixamos para trás, desembocamos em um mundo novo e potente, variegado mundo. Sadios e robustos nos apossamos do mundo, mundo de trabalho e marcha...” enquanto isso, Mayer Guinzburg ficava pensando em sua Rosa de Luxemburgo e em Marx. Quando seu pai o indagava quem era o tal Marx e sobre o que ele sabia a respeito da felicidade dos homens, ele, Mayer, respondia com orgulho revolucionário: “Sabe tudo! Sabe que não deve haver fome, nem injustiça. Não deve haver ‘meu’ nem ‘teu’; deve ser: ‘O que é meu é teu; o que é teu, é meu’”.
Mayer era considerado o excêntrico da família. Primeiro tentou uma revoluçãozinha no quintal de casa. Montou uma barraca, ergueu uma bandeira, recolheu a cabra e a galinha que o pai havia comprado para o sustento familiar e assim o antagônico Mayer ia ficando com os restos que ninguém queria, rejeitados por todos os outros e daquilo ia sobrevivendo, mas ainda sentia-se culpado por estar ali, fazendo parte de um sistema que corrompe: “Aquele ano foi terrível” — recorda Avram Guinzburg — “Nosso pai e nossa mãe discutiam o dia inteiro com Mayer. Ele não queria estudar; afirmava que o estudo era só um mecanismo de ascensão social; também não queria trabalhar, porque dizia que não iria enriquecer nenhum porco capitalista.”
Conforme percebeu que a vida naquele meio social-familiar nada o tranquilizaria, Mayer juntou-se com alguns amigos e foi em busca de uma chácara para abrigar um novo projeto social. Naquele sonho, ele não via-se sozinho, embora, o desenrolar do livro mostre que o sonho ou jamais poderia tornar-se real ou foi apenas sonhado com o único objetivo de ser sonho, pois a solidão foi a única resposta de sua tão almeja ‘Nova Birobidjan: “Mayer Guinzburg tem idéias. Formarão uma colônia coletiva, Léia, José Goldman e ele. Ficará longe de Porto Alegre; não muito longe, é claro, pois de lá terá de vir, um dia, a Grande Marcha. Haverá um mastro, onde flutuará ao vento a bandeira de Nova Birobidjan. Semearão milho e feijão. Tratarão as plantas como amigas, como aliadas no grande empreendimento. Criarão um porco — o Companheiro Porco; uma cabra — a Companheira Cabra; uma galinha — a Companheira Galinha.”

Por coincidência ou não, um conto do Rubem Braga chamado “A navegação da casa” (Mayer via homenzinhos flutuando numa nau, todos balançando a cabeça afirmativamente quando ele sonhava com sua nova sociedade que se mostrava cada vez mais como algo para um ser apenas: para ele, somente para ele e para mais ninguém), e o conto do Braga revela os sentimentos de um homem que sonha seus fantasmas (antigos e atuais) para sentir-se menos sozinho em seu tão conhecido abandono, em sua tão contumaz e derrocada utopia: “Meus bons fantasmas voltam e se misturam aos presentes; estão sentados; estão sentados atrás de mim, apresentando ao fogo suas mãos finas de mulher, suas mãos grossas de homem. Murmuram coisas, dizem meu nome, estão quietos e bem, como se sempre todos vivêssemos juntos; olham o fogo. Meus sucessivos ‘eus’ dão as mãos. Sabemos que há muita coisa triste, muito erro e aflição e todos temos tanta culpa...”.

Tentativas malfadadas. Sonhos. Loucura. Falta de aceitação. Sofrimento. Quimeras. Mayer reluta, mas um dia se vê na necessidade de sustentar a família (que erroneamente constituiu). Começa a trabalhar numa loja com toda a má vontade existente em seu âmago. E lá, naquele emprego em que ele sentia a neblina da manhã dominar seus sentidos, ele via os homenzinhos, sobre o balcão, a analisá-lo sorridente e atentamente. Depois de tantas vezes tentando que se afastassem, Mayer vê-se acompanhado, pois aquelas pequenas criaturas ouviam com atenção seus resmungos e pareciam realmente apoiá-lo (logo ele tão renegado): “‘Aquele velho sujo: capitalista explorador.’ Os homenzinhos aprovavam com a cabeça. ‘Se pudesse, sugava o sangue dos trabalhadores!.’ Os homenzinhos aplaudiam. ‘É preciso lutar!.’ Aplausos, aplausos. Entrava uma freguesa; os homenzinhos sumiam...”.

No sonho de Mayer e no meu livro de contos do Braga, descansa o poeta Walt Whitman que eternamente recita: “Deixem que eu trace meu próprio caminho... eu promovo conflito e agitação... eu não exalto nenhum homem eminente e ainda reprovo bem na cara dele o que foi dado por mais valioso”.

23/10/2009

Pensando em algumas citações de Charles Bukowski

Por que precisamos conhecer alguém em piores condições do que a nossa para nos sentirmos menos desgraçados, desamparados, humilhados, recusados e miseráveis? Por quê? Será que a miséria humana é algo que se possa medir? Comparar? É algo que se possa dizer que a minha é maior ou menor do que a daquela outra pessoa ali do lado? E ela pode afirmar que a dela é bem maior do que a minha? Será que a desgraça a qual considero a mais horrível de todas seria assim considerada por alguém que já passou por provações incrivelmente mais cruéis e nefastas do que as minhas? “Tudo é relativo”, uma parte de mim diz. E tem outra parte que diz ‘Por que será que nos sentimos melhor por vermos alguém em pior estado do que nós? Por que quando nos percebemos e sentimos que somos os piores e mais azarados seres da face da terra, logo mudamos de opinião ao nos depararmos com um ser bem mais desprovido de uma possibilidade de reabilitação emocional?’ Que bem estar é esse que é gerado pelo egocentrismo e pela quase alegria e contentamento por sabermos que não somos mais os primeiros condenados a serem chamados para a forca? E em termos de condições de existência, um humano merece melhores considerações do que um animal? Por quê?

Fiquei pensando nessas questões enquanto copiava do livro “Misto-Quente” do Bukowski as citações que havia marcado durante a leitura. Uma delas (a que segue), me fez divagar sobre o prazer que existe em ver outros em pior estado do que o estado próprio. Lembro de alguém, uma pessoa que nem gravei o nome e que existe num passado remoto lá de uma época de escola, que disse “Não adianta, está na essência humana sentir contentamento com a dor dos seus semelhantes”, naquela época eu pensei que a pessoa estava exagerando e limitando as ações alheias através de suas próprias, mas aí releio a citação do Bukowski e o conflito instaura-se:

“Enquanto caminhava, já não me sentia tão desamparado. Percebi que um cachorro faminto, um vira-lata, me seguia. A pobre criatura estava terrivelmente magra; podia ver suas costelas coladas à pele. Grande parte do seu pêlo havia caído. O que restava permanecia em tufos secos e revoltos. O cachorro tinha apanhado, estava acuado, abandonado, amedrontado, uma vítima do Homo Sapiens.” (Misto-Quente).

Charles Bukowski chega com um ácido pensamento e me diz: Viu? É esta a sociedade que temos. E este cachorro poderia ser eu ou você. Mas é ele. E ele sofre. Sofre quanto? Quem sabe? E o que você faz? Nada. Mas... e se fosse você? Gostaria que alguém o ajudasse? Ou que o fizesse se sentir mais acuado ainda e com medo de tentar uma convivência? E aí, pensando sobre os pensamentos de Bukowski, já encontro outra citação dele que vem a confirmar que seus questionamentos não estão muito longe disso que acabei de cogitar:

“Não valia a pena confiar em nenhum outro ser humano. O que quer que fosse preciso para estabelecer essa confiança, não estava presente na humanidade.” (Misto-Quente).

Só que tais citações estão inseridas numa realidade árdua de um jovem que se sentia à margem de tudo aquilo que ele via nos outros como normal e de tudo o que a maioria à sua volta considerava aceitável. Isso é o que muitos podem dizer, principalmente aqueles que consideram tal escritor como um “nonsense das letras”. Mas será mesmo que na parte da vida de Bukowski em que ele estava ‘por cima’, já vendendo seus livros, já estabilizado com suas garrafas, com suas idas freqüentes ao hipódromo e com sua casa cheia de gatos, não considerava ainda a situação de forma negativa no que se refere ao coabitar e a entendimentos? Tirando uma conclusão de sua vida através da obra, dá para perceber que ele continuou pensando e afirmando a mesma questão “não valia a pena confiar em nenhum outro ser humano”, pois num outro livro escrito na velhice ele diz “o melhor que as pessoas podem fazer por mim é me darem o prazer de estar sozinho”.

Um coerente consigo mesmo e, talvez exatamente por isso, não muito bem compreendido esse Bukowski...

20/10/2009

Caio, Lygia e analogias ou divagações

Ainda às voltas com um livro de contos do Caio Fernando Abreu, lembrei de uma parte do livro “Ciranda de Pedra” da Lygia Fagundes Telles, escritora que o Caio homenageou dando o nome de “Lygia” para uma rosa branca de seu jardim. E por qual motivo recordei de determinada parte do livro dela enquanto revirava os contos dele? Porque o primeiro conto do livro dele intitula-se “Nos poços” e é uma descrição metafórica de alguém que cai em poços íntimos, perde-se, encontra-se, pensa que perde-se, pensa mais que encontra-se e ainda assim nunca esquece de cada queda e de cada medo sentido. A citação do livro da Lygia refere-se a uma analogia que um personagem faz para explicar os cacos existenciais que estão dentro de algum poço interior. Comparar a citação dela com o conto dele? Não tenho tal pretensão. Apenas me veio à mente que talvez o Caio tenha lido “Ciranda de Pedra” e antes mesmo de homenagear a Lygia dando o nome dela para uma rosa, ele a homenageou escrevendo um conto que pode muito bem ter sido inspirado pela leitura do livro de Lygia. Ou talvez o conto não tenha nenhuma ligação proposital com o livro dela, mas penso que vale a pena citar tanto o conto na íntegra quanto a citação dela presente no livro já citado.

“Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê.” (Nos Poços - Caio Fernando Abreu).

“Uma vez, quando eu era menor ainda do que você, brincava com um espelhinho à beira de um poço da minha casa, eu morava numa fazendo meio selvagem. O poço estava seco e era bonito o reflexo do espelhinho correndo como uma lanterna pela parede escura, sabe como é, não? Mas de repente o espelhou caiu e se espatifou lá no fundo. Fiquei desesperado. Tinha vontade de me atirar lá dentro para ir buscar os cacos de meu espelho. Então alguém levou-me pela mão e me consolou dizendo que não adiantava mais nada porque mesmo que eu juntasse, um por um, os cacos todos, nunca mais o espelho seria como antes. Eu vejo algumas pessoas como aquele espelho despedaçado: a gente pode ir lá no fundo e colar os cacos, mas tudo então que ele vier a refletir, o céu, as árvores, as pessoas, tudo, tudo estará como ele próprio, partido em mil pedaços. Triste não é o que possa vir a acontecer... a morte, por exemplo. Triste é o que está acontecendo neste instante. Alguém com a cabeça doente, o coração doente... e não há remédio. Só o sopro lá dentro é que continua perfeito como o espelho antes de cair no chão.” (Ciranda de Pedra – Lygia Fagundes Telles).

A constante do conto do Caio é a queda em poços. A constante da citação da Lygia é o espelho que, ao cair num poço, transforma-se em cacos. Ambos usam de linguagem figurada para falar de quedas e o que ocorre depois delas. Se no conto a problemática central é a morte que advém da queda, no livro é a mudança o que a queda proporciona, embora esteja implícito que toda mudança pode ser sim encarada como uma morte, a morte do que se foi e o nascimento do que se passa a ser no exato instante em que a quebra do todo ocorre.

Pode não passar de mais uma divagação, mas talvez na parte em que Lygia escreveu “tinha vontade de me atirar lá dentro para ir buscar os cacos de meu espelho”, o Caio tenha respondido naquela outra parte de seu conto “mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim?”. E quem sabe, ainda no conto do Caio exista mais uma referência “e depois no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê” e a resposta ou comentário dela seria “só o sopro lá dentro é que continua perfeito como o espelho antes de cair no chão”. É bem mais provável que todas essas referências óbvias não passem de divagações que vou acumulando conforme minhas leituras vão sendo feitas e depois de um tempo amontoadas em algum recanto íntimo do meu ser, porém, não tenho mais como pensar no conto do Caio sem pensar também nesta parte específica do livro da Lygia.
Até porque, como escreveu ele “Primeiro você cai num poço” e como escreveu ela “... e se espatifa lá no fundo”, os dois não apenas se assemelham, mas são um só ou talvez sejam três: cada um deles e mais um outro que é o que se tornaram depois da queda.

18/10/2009

É mister a consciência da espada suspensa

Procurando por entrevistas de escritores, encontrei um vídeo-entrevista com o Caio Fernando Abreu. Não sei se pelo fato de ter lido muitos contos dele ultimamente ou porque ele realmente possuía uma sensibilidade enorme e conseguia expor os sentimentos de maneira antagônica, mas uma frase proferida por ele na entrevista ficou insistentemente reverberando em meus sentidos:

“Com a consciência dessa espada (uma doença grave) suspensa, a vida fica muito mais rica.” Caio Fernando Abreu.

Entre tantos assuntos ‘de essência’ que ele comenta, um deles é sobre sua doença que ele via como mais uma forma de ser criticado e rotulado. Pensava ele que a parte boa de estar com alguma doença grave (aquele tipo de doença a qual sabe-se que por mais que existam medicações e paliativos poderosíssimos, ela não será contida por muito tempo e longitude existencial é nula) é que aproveita-se melhor cada instante, não como se cada instante e momento fosse o último, mas como se o mais importante e relevante fosse mesmo aquele segundo que se está vivendo, como se o depois daquele instante fosse parte de um futuro totalmente improvável quanto desconhecido e bem inesperado. Deve ser por ter cultivado um pensar assim que ele conseguiu produzir uma quantidade incrível de contos muito bem estruturados, com personagens altamente viscerais, pois o momento no qual cada conto foi engendrado ele sentia como se fosse o último que estaria escrevendo e por isso se esmerava e assim produzia uma boa quantidade de textos que não perdem em qualidade.
Quiçá, a humanidade esteja precisando sentir a consciência de uma espada suspensa. assim, quem sabe, tudo o que passará a existir se mostre menos passageiro, apressado, mal feito e principalmente que a quantidade de má qualidade não devore as réstias do que ainda é bem feito. Acredito que este ainda persiste em algum recanto de uma esquina pouco movimentada, pouco conhecida e deliberadamente abandonada: está exatamente ali o que o Caio chamou de ‘a vida muito mais rica’.

15/10/2009

Explicação heteronímica pessoana

XXIX
Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.
Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,
Reparem bem para mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assante sobre os meus pés –
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha alma

(...)

Alberto Caeiro

Sempre que leio algum poema heteronímico pessoano, fico elucubrando sobre a possibilidade de alguma explicação do poeta a cerca das tantas facetas poéticas (“...quem olha vê que são as mesmas flores...”, é ele por ele mesmo em todos) e também humanas que foi capaz de construir ou de simplesmente externalizar, já que, segundo ele, todos sempre estiveram dentro dele e com ele. Lendo a biografia pessoana comentada por Antonio Quadros, deparei-me com o que eu considero uma incrível explanação do Fernando Pessoa por ele mesmo a respeito do todo de sua obra e aí percebo o seguinte: o que eu pensava sobre as facetas do poeta foram concatenadas por ele mesmo de uma maneira a me deixar satisfeita e menos inquieta sobre os nascimentos do eu-lírico:

“Não sei quem sou, que alma tenho. Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe. Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.”

Esta explicação poética escrita pelo próprio Pessoa, me fez lembrar de uma outra inquietação minha: reli “O ovo apunhalado” – Caio Fernando Abreu, um livro de contos que eu li pela vez primeira há tempos atrás. A cada conto que ia relendo, procurei encontrar uma parte específica que eu lembrava de ter lido na primeira leitura. Começava assim “Sou como água parada” ou talvez apenas “Sou água parada”. Procurei em cada linha, em cada lauda passada, em cada expressão e verbete a tal parte que eu tanto recordo de ter lido e me encantado no livro. Minha surpresa (regada um pouco com frustração) foi perceber que na presente edição que reli não existe tal parte. Então, fiquei pensando se eu pensei que tivesse lido, se eu sonhei que existia tal parte a qual se mostrou bem inexistente na releitura ou se aquela edição da primeira leitura possuía mesmo aquela parte da água parada e nesta que reli não. Talvez ainda, o que ocorre é o que o pessoa designou de “inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas”, pois eu posso muito bem ter imaginado que li alguma parte a qual realmente nunca existiu e se existiu foi apenas em minha falta de lucidez. Quem sabe ainda eu tenha lido a famigerada expressão em algum outro conto e tenha achado tão parecido com o modo como o Caio escrevia que acabei confundindo tudo e unindo um conto com outro. As possibilidades são diversas, mas mesmo assim, eu tinha (antes de começar a releitura) aquela certeza boba que a gente nutre às vezes quando praticamente tem toda a certeza que leu alguma parte em determinado e específico livro. Não ter encontrado essa parte na releitura me deixou inquieta, tamanha era a tal certeza que carregava comigo. Um alento é ter encontrado a explicação pessoana a respeito dos heterônimos e também sobre a grande máquina pensante humana: a mente. Quiçá, a tal parte do livro que eu pensei ter lido, exista numa “realidade que não está em nenhuma parte e está em todas”.

13/10/2009

Antípodas e (In)compreensões

Despair/1893-1894/Edward Munch
Em muitos momentos o que existe de mais reconfortante para uma existência sorumbática e divagante é um livro. Sempre lembro da expressão “o inferno são os outros” quando me deparo com a dificuldade de ler em alguns locais públicos. “Só queria que fizessem silêncio para que eu pudesse ler um pouco” (pensaria uma pessoa invadida pelo sentimento da leitura e com pouco poder de concentração), “não entendo o que existe de interessante em ler se existe televisão” (poderia dizer alguém com menos vontade de leitura e mais vontade de notoriedades). Mas como está escrito no conto ‘O Afogado’ do Caio Fernando Abreu,

“O que há em ti que não compreendo?”
“O que há em mim e não compreendes é o mesmo que há em ti, e tampouco compreendes.”

Então, as tentativas de compreender ainda permanecem nas vontades humanas. Existe a ilusão de que se compreendendo, de que se fazendo compreender, tudo transcorreria de uma maneira menos caótica. Será? Em algum outro livro, recordo de ter lido que quando somos compreendidos somos também invadidos. Deve dar aquele sentimento de “alguém me entendeu e agora existe um pedaço de mim por aí dentro de alguém”. É um paradoxo existencial: num instante queremos o entendimento próprio, o entendimento que provém dos outros, o entendimento que muitas vezes é considerado improvável de tão distante que se mostra, num outro instante o que queremos é o afastamento total e se por ventura chega alguém com aquela boa vontade não-contumaz e diz “posso sentar aqui?”, o que respondemos (se respondemos... às vezes deixamos que o silêncio proponha uma retirada rápida da outra pessoa de nosso alcance de visão) é um não com um ponto final, duro, seco. Sem exclamações. Menos ainda reticências.

E se ninguém se compreende quando almeja e se alguns se compreendem e depois se sentem invadidos e até corrompidos, o que fazer além de lembrar que existem aqueles bem despreocupados com questões incompreensivas ou compreensivas. Estes sim são os que eu considero os antípodas, talvez os mesmos que o Quintana considerou em seu poema em prosa “Do inédito”:

“E quando, morto de mesmice, te vier a nostalgia de climas e costumes exóticos, de jornais impressos em misteriosos caracteres, de curiosas beberagens, de roupas de estranho corte e colorido, lembra-te que para alguém nós somos os antípodas: um remoto, inacreditável povo do outro lado do mundo, quase do outro lado da vida – uma gente de se ficar olhando, olhando, pasmado... Nós, os antípodas, somos assim.”

É de pasmar saber da existência de alguém que hipoteticamente consegue ultrapassar a barreira paradoxal (in)compreensiva e ver-se tão incrivelmente vivendo alheiamente a (des)entendimentos, tratando apenas de confundir. Mais a si mesmo do que aos outros. Antípodas devem ser assim.

09/10/2009

A morte - jamais verdadeiramente sentida - de Ivan Ilitch - Leon Tolstoi


Procurando por títulos num sebo, encontro meio que perdido, fora de ordem alfabética, pequeno (em tamanho físico) e tão grande (em tamanho de importância literária) olvidado entre outros títulos com suas lombadas mais robustas e coloridamente mais chamativas, o livro “A morte de Ivan Ilitch” – Leon Tolstoi. Uma edição de bolso com a famosa imagem ‘Monet depois de seu acidente’ (1866) de Frederic Bazille como capa.
Falando em Tolstoi assim como outros russos tais como Dostoievski (um dos meus favoritos, senão o favorito de todos..risos), Gorki (inusitadamente significa em russo ‘amargo’), Gogol, Tchecov, Maikovski, Pushkin e Turgeniev, uma das características marcantes e mais dissonantes é o sentimento impulsivo por não apenas escrever, mas Escrever e fazer o leitor sentir suas vísceras sendo reviradas pelo fato de reviver na leitura o que existe de mais cruel, devastador, e estupidamente sórdido na existência: a hipocrisia vista e vivida como se fosse normal enganar, blefar e iludir.
Especificamente na presente obra de Tolstoi, a desfaçatez é encontrada em pleno sepultamento do homem que foi muito bem relacionado e reconhecido tanto no prédio do Tribunal no qual trabalhava com muitas pompas, como também na vida social a qual ele conseguiu manter muito bem sob máscaras da ilusão enquanto não era casado.
Chega a ser doloroso e extremamente revoltante ler a citação que segue, já que ela representa o pensamento de alguns dos homens que se consideravam e eram igualmente considerados os amigos chegados de Ivan Ilitch, o mesmo homem que morreu incompreendido e sozinho, ainda que muitos estivessem ao seu redor no momento da morte:

“Além das elucubrações sobre possíveis transferências e mudanças no departamento, resultantes da morte de Ivan Ilitch, a simples idéia da morte de um companheiro tão próximo fazia surgir naqueles que ouviram a notícia aquele tipo de sentimento de alívio ao pensar que ‘foi que ele quem morreu e não eu’”.

O tal alívio sentido por aqueles que ficam reflete em tudo o que disseram sentir por Ivan, mas que definitivamente jamais sentiram, jamais nutriram o sentimento de amizade verdadeira, aquela que vai além de ditos e entra no campo de pensamento, sentimento e demonstrares.

E como se não bastasse, a próxima citação, chega como um projétil, duro, enérgico, agonizante, fatal. Os tais ditos amigos preocupam-se em demonstrar cortesia, lamentos, pois sabem que todos os outros seres da alta sociedade têm o costume de fazer mesuras exageradas aos familiares daquele que morreu (insisto, morreu sozinho... ninguém, além de um empregado e do filho mais novo, conseguiu ver naqueles olhos de agonia um pouco de pedido de compreensão ou de um gesto de carinho e dedicação, por mais ínfima e rápida que fosse). E todos sabem que ninguém ali realmente sente-se mal pela morte de Ivan. Mas jamais admitiriam tal fato. Apenas, sairiam o quanto antes para mais uma partida de jogo de cartas. Afinal, como disse um dos personagens “foi ele e não eu”:

“‘Agora era ele quem tinha de morrer. Comigo vai ser diferente – eu estou vivo’, pensava cada um deles, enquanto as pessoas mais próximas, os assim chamados amigos, lembraram que agora teriam de cumprir todos aqueles cansativos rituais que exigiam as normas de bom comportamento, assistindo ao funeral e fazendo uma visita de condolências para a viúva”.

06/10/2009

O 'país' de Loyola 'apunhalado' por Caio

Peguei-me analisando e divagando como algumas leituras vão se misturando (orgia livresca!!!) de forma a me fazer considerar a possível existência de acasos, coincidências: quando finalmente consegui ter em mãos o livro “o ovo apunhalado” do Caio Fernando Abreu, leio no “ovo revisitado” (espécie de justificativa autoral regada de considerações relevantes a respeito da revisão de contos os quais já haviam sido publicados em 1975) escrito pelo próprio Caio, uma incrível referência ao escritor que me surpreendeu bastante no livro “não verás país nenhum”, Ignácio de Loyola Brandão. Caio confessa, em seu relato nostálgico, admirar Loyola, Rubem Fonseca e Ivan Angelo, escritores que fizeram parte, segundo ele, do “boom” da literatura brasileira na metade da década de 70. O livro que Caio citou em seu prefácio não é o mesmo que li, ele cita “Zero”, porém, eu notei em “não verás país nenhum” (publicado bem depois, em 1986), algumas das características que o próprio Caio apreciava capturar para criar suas personagens e seus panos de fundo fugindo um pouco da parca normalidade e entrando na normalidade subjetiva encarcerada (Caio e Loyola souberam abrir as celas) na essência de cada um.
Souza é o narrador-personagem do livro de Loyola e tal personagem traz à tona uma existência permeada de inusitalidades, um eterno pensador do que poderia ter feito, de como poderia ter lutado e se rebelado e nunca fez, nunca agiu. Através dos pensamentos de Souza, o que fica menos evidente, o que se encontra em algumas entrelinhas textuais é (mas não menos relevante) o que ele quis o tempo todo se materializando exatamente no que ele jamais alcançou. E tais características de personagens estão presentes tanto na obra já citada do Loyola como também em algumas outras criações do Caio:

“... estar pronto para partir. Não querer nunca o mesmo lugar, renovar-se incessantemente. Escapar de tudo, desprender-se, me atirar. Para longe, encontrar um lugar onde ninguém me encontrasse. Não penso mais. Não há mais o longe, o perto. Não há fuga, nem refúgios, tudo foi devassado. Sinto em mim estranha nostalgia. Antiga, muito antiga. Não dos tempos em que meus bisavós furavam o sertão do Mato Grosso, ou Paraná. Mais para trás. Muito mais. De tempos em que eu ainda não era.”
(Não verás país nenhum – Ignácio de Loyola Brandão).

“A vida era muito dura. Não chegávamos a passar fome ou frio ou nenhuma dessas coisas. Mas era dura porque era sem cor, sem ritmo e também sem forma. Os dias passavam, passavam e passavam, alcançavam as semanas, dobravam as quinzenas, atingiam os meses, acumulavam-se os anos, amontoavam-se em décadas – e nada acontecia. Eu tinha a impressão de viver dentro de uma enorme e vazia bola de gás, em constante rotação.” (Réquiem por um fugitivo – Caio Fernando Abreu).

03/10/2009

Dinísio! Bromios! Dendrites! Eleutherios! Enorches!

A cada gole de vinho hoje sorvido, pouca importância é destinada às memórias de como tudo começou na mitologia. Dionísio é um dos meus deuses preferidos e por causa disso, já tem algum tempo que memorizo livros os quais homenageiam o grande deus das videiras!

Goles mitológicos:
Semele era mais uma das tantas amantes de Zeus e esta instigada por Hera e seu eterno ciúme, fez com que Zeus jurasse pelo Estige que concederia um pedido e tal pedido foi que ele mostrasse sua verdadeira forma e com isso, Semele, sendo uma mortal, não suportou tamanha magnificência e como uma fênix, transformou-se em cinzas, porém não retornou das próprias cinzas tal qual uma fênix. Desta forma, Dionísio nasceu, depois de toda a gestação, da coxa de seu pai (Zeus). Depois do nascimento de Dionísio, Zeus o entregou secretamente para Ino que o criou juntamente com algumas ninfas. Na idade adulta, Hera com toda sua possessão fez tanto que transformou Dionísio em um tresloucado e assim ele vagava erroneamente pela terra. Numa das tantas andanças, certa vez, ele encontrou a deusa Cibele e esta conseguiu instruí-lo nos ritos. Mais tarde, ele aprende, com a ajuda dos ensinamentos de Sileno, a cultura das videiras, das podas e por fim do vinho. Assim, Dionísio foi o primeiro a plantar e a cultivar videiras e então todos passaram a cultuá-lo como o deus do vinho. Desta forma, ele conseguiu se distanciar dos perigos que Hera estava sempre tentando colocar em seu caminho e, assim, triunfando bravamente contra seus inimigos. O ódio e a raiva de alguns eram quase que totalmente suprimidos pela fascinação que boa parte das mulheres nutriam e estas ficaram conhecidas como bacantes, as quais andavam como loucas e bêbedas em busca de Dionísio. Em sua honra foram compostos muitos textos-homenagens, como os ditirambos (Nietzsche que o diga em seu texto "Ditirambos de Dionísio) e muitas festas dionísicas ocorreram ainda na Grécia Antiga e por isso também ficou conhecido como o deus das representações teatrais.
A representação, que mais me chama a atenção, de Dionísio é aquela em que ele está sentado sobre um tonel, empunhando uma taça a qual transborda de vinho e assim a embriaguez e o torpor são sorvidos resplandecendo todo o cambalear tão contumaz que o vinho carrega em si.
Entre os diversos epítetos, como já foi dito, existe a correspondência romana Baco ou então Dendrites (“o das árvores”, refere-se à fertilidade); Eleutherios (“aquele que liberta”, tal epíteto serve não somente para Dionísio como também para Eros); Bromios (“o que mais alto grita”) e Enorches (“nos testículos”, aqui refere-se ao mito de que ele nasceu da coxa de Zeus... ou seja, nasceu próximo dos testículos).


A iniciação de Dionísio foi conclamada com o entoar de todos os seus epítetos: Enorches!! Eleutherios!! Bromios!! Dendrites!! Dioniso!


A primeira obra que me vem à mente é “Noite na Taverna” – Álvares de Azevedo:

MACÁRIO
Onde me levas?
SATAN
A uma orgia. Vais ler uma página da vida, cheia de sangue e de vinho—que importa?
(...)

—O cólera! e que importa? Não há por ora vida bastante nas veias do homem? não borbulha a febre ainda as ondas do vinho? não reluz em todo o seu fogo a lâmpada da vida na lanterna do crânio?
—Vinho! vinho! Não vês que as taças estão vazias bebemos o vácuo, como um sonâmbulo?
—E o Fichtismo na embriguez! Espiritualista, bebe a imaterialidade da embriaguez!
—Oh! vazio meu copo esta vazio! Olá taverneira, não vês que as garrafas estão esgotadas? Não sabes, desgraçada, que os lábios da garrafa são como os da mulher: só valem beijos enquanto o fogo do vinho ou o fogo do amor os borrifa de lava?


(...)

Tais diálogos são carregados de torpor e a cada palavra proferida existe o almejar por mais vinho, por mais embriaguez que os carregue e os guie por caminhos em que somente a languidez pode alcançar. E ainda mais: o vinho é materializado como a única fonte de revitalização da mente humana, como se fosse uma força capaz de alcançar píncaros e topos jamais tocados por qualquer outra “divindade”, transformando o homem a cada copo que se enche novamente e a cada copo que se esgota, nasce, frenético, o desejo que logo esteja sendo sorvido mais uma vez o líquido que preenche de “fogo a lâmpada da vida na lanterna do crânio”.

Logo, me vem aos sentidos um poema do Neruda: Ode ao vinho. Nele, Neruda, faz nascer um vinho eternamente presente, seja à luz do dia, seja às trevas da madrugada, seja em suas tão diversificadas colorações e tipos de uva. E por fim, ele promulga que é mister que o vinho seja sempre “cantado” e propagado, pois é através dele que é possível ao homem “recordar a terra e seus deveres”:

ODE AO VINHO - Pablo Neruda

Vinho cor do dia
vinho cor da noite
vinho com pés púrpura
o sangue de topázio
vinho,

(...)

Que o bebam,
que recordem em cada
gota de ouro
ou copo de topázio
ou colher de púrpura
que trabalhou no outono
até encher de vinho as vasilhas
e aprenda o homem obscuro,
no ceremonial de seu negócio,
a recordar a terra e seus deveres,
a propagar o cântico do fruto.



Ainda, numa das minhas últimas aquisições de sebo, encontrei a obra “O amante” de Marguerite Duras. Um texto inebriante que faz cambaleia o leitor a cada lauda folheada. Duras, em meio sua narrativa, acrescenta altas doses alcoólicas de simbologia idiossincrática e esta é incrivelmente transbordante de torpor. Fazendo do ébrio-leitor um eterno amante das vinhas literárias:

“Vejo agora que muito jovem ainda, com dezoito anos, com quinze anos, eu tinha este rosto, premonitório daquele que adquiri em seguida com o álcool na meia-idade da minha vida. O álcool desempenhou a função (...) de me matar, de matar. Este rosto de álcool, eu o adquiri antes do álcool. O álcool apenas o confirmou. Tinha em mim esse lugar reservado, eu o percebi como todos os outros, mas, curiosamente, antes da hora (...). Tudo começou assim em minha vida, como esse rosto visionário, extenuado, as olheiras antecipando-se ao tempo, à experiência”. (O Amante, 1984 – Marguerite Duras)

Ah, só eu sei o quanto me é impossível terminar tal postagem sem acrescentar a colaboração de Lord Byron para o endeusamento do vinho! Castro Alves fez a embriagante tradução do poeta inglês que tão bem soube homenagear o homem que mesmo post mortem almeja que seu crânio possa servir ainda para algo grandioso: taça que abrigará o vinho e assim “servir na morte enfim para alguma coisa”.

A uma taça feita de um crânio humano (1808)
Lord Byron
Tradução de Castro Alves

Não recues! De mim não foi-se o espírito...
Em mim verás - pobre caveira fria -
Único crânio que, ao invés dos vivos,
Só derrama alegria.

Vivi! amei! bebi qual tu: Na morte
Arrancaram da terra os ossos meus.
Não me insultes! empina-me!... que a larva
Tem beijos mais sombrios do que os teus.

Mais val guardar o sumo da parreira
Do que ao verme do chão ser pasto vil;
-Taça - levar dos Deuses a bebida,
Que o pasto do reptil.

Que este vaso, onde o espírito brilhava,
Vá nos outros o espírito acender.
Ai! Quando um crânio já não tem mais cérebro
... Podeis de vinho o encher!

Bebe, enquanto inda é tempo! Uma outra raça,
Quando tu e os teus fordes nos fossos,
Pode do abraço te livrar da terra,
E ébria folgando profanar teus ossos.

E por que não? Se no correr da vida
Tanto mal, tanta dor ai repousa?
É bom fugindo à podridão do lado
Servir na morte enfim p'ra alguma coisa!...

Álvares de Azevedo tão bem encerrou um dos diálogos transbordantes de torpor e é com tais palavras que encerro a postagem mais embriagante das aqui até então existentes:
“Bravo! bravo!
Um urrah tríplice respondeu ao moço meio ébrio”.


Bacchus as The God of Wine, Unknown, 1771

30/09/2009

A ironia do intercâmbio

Mais uma situação do atroz cotidiano se fez presente:


Enquanto caminhava aproveitando a raridade de um dia frio primaveril, duas pessoas conversavam logo atrás de mim. Não me prendi no que disseram nas primeiras palavras. Meus passos logo aproximaram-se de uma esquina e me deparei com uma cena que parece já estar sendo considerada comum, embora nunca deixe de chocar meus sentidos: um homem remexia dentro de uma lixeira e, o que encontrava, logo metia na boca e mastigava como se fosse um petisco capturado de cima de uma mesa cheia de manjares. De repente, escuto uma das frases trocadas por aquelas duas pessoas atrás de mim:

_Vou fazer um intercâmbio.

A frase ia ecoando enquanto eu passava pela cena do homem cavoucando no lixo. Aí, reverberou a sentença entre o que ouvi e o que vi:

Enquanto um paga para fazer intercâmbio, o outro passa dias e mais dias fazendo intercâmbios por todas as lixeiras da cidade com o intuito de não morrer de fome. Estamos vivendo épocas de intercâmbios. Intercâmbios 'lixeirais' principalmente.

O intercâmbio daquele, despertou minha alergia mais latente, o do outro, minha agonia e, promovendo esta, apenas minha passividade e deixando declarada minha impotência.

Não adianta nem citar a questão da desigualdade social, pois sabe-se uma das maiores problemáticas fingidamente enfrentadas desde muito tempo atrás, porém o que mais assola é o querer fazer algo de prático e simplesmente encontrar melhoras paliativas, ou seja, que não são extensivas a longo prazo e que geralmente têm a durabilidade de um café e um pedaço de pão comprado no bar da esquina pelo senhor que se apieda de uma mãe sentada à sarjeta com seus quatro filhos à volta, mendigando todos por um dia a mais em péssimas condições de existência ou por um dia a menos morrendo de fome.

27/09/2009

Leitura: "antídoto contra o tédio e um alívio para os males..." - Maistre

“Como é glorioso inaugurar uma nova carreira e surgir, de repente, aos olhos do mundo culto, com um livro de descobertas na mão, à semelhança de um cometa imprevisto que cintila no espaço!” (Primeiro capítulo da obra “Viagem ao redor do meu quarto” do grande influenciador francês do “bruxo do cosme velho”, Xavier de Maistre).

Reading in the bus, 2001 - A.Ursillo

Acredito que quem escreve carrega, mesmo que negue veementemente, uma vontade de saber o que os outros que o lêem possam vir a sentir. A mente de escribas fica vagando entre diversas possibilidades imaginativas. Aquele pode ler e desmerecer o que leu exatamente por saber-se incapaz de escrever da maneira lida. Aquela, quando ler, poderá pensar que certamente faria melhor se tivesse a verve pela escrita. Outro diz que não existe ninguém melhor do que aquele último autor o qual acabara de ler. Mais um poderia dizer que não lerá mais nada para não ser influenciado em sua própria escrita. Mas o que escritor algum terá a mais leve noção é o abalo que sua obra causou. Há os que lêem e nada repartem, já que a leitura é um ato solitário, há quem pense que o conhecimento e os sentires adquiridos através de determinado livro também devem ficar apenas com aqueles que leram; há os que lêem e não conseguem explicitar todo o impacto que o texto teve; há os que lêem e ficam calados por meses, depois abrem o livro novamente e começam a dialogar com a obra e logo após reclamam amizade do escritor e o fazem mil e uma confissões, tudo isso imaginativamente, é claro. E há tantos outros que nunca saberemos, que nunca nossa mente poderá engendrar que são o que são, que lêem o que lêem, que pensam o que pensam. Então, definitivamente, não tem como abarcar os reflexos de uma obra na humanidade. Pode-se sim nivelar no senso comum a respeito dos cânones de Shakespeare, por exemplo. Mas... de todos os que leram quantos foram além, quantos descobriram detalhes nunca nem imaginados quanto mais pensados ou concatenados pelo autor? Quantos seguem lendo e quando indagados sobre algum detalhe da obra, dizem “não me recordo, faz tempo que li”? Clarice Lispector afirmava “eu ganho na releitura”. Há quem confesse que tem problemas com releituras. Tão logo se começa a adivinhar qual será a próxima frase, chega a visita inesperada do Senhor Enfado e aí o que o leitor ávido faz é partir para um outro livro que não tenha sido lido ainda. Deve ser falta de persistência ou apenas vontade de conhcer algo totalmente novo. Porém, alguns livros jamais cansam como é o caso de Werther. É um daqueles livros que sempre trazem (mesmo depois de muitas releituras) algo surpreendente. Será mesmo? Ou será que nenhuma das leituras foi realmente bem feita a ponto de ter deixado passar muitos detalhes da obra? Prefiro pensar que alguns livros trazem esse misticismo de esconder algumas partes na primeiras leituras para que as próximas sejam carregadas de surpresa.
Então como diversas indagações ficarão ad eternum permeando existências de leitores ao redor do macrocosmo, o que resta é continuar vislumbrando novas e velhas leituras e, Maistre acertou em sua descarada falta de modéstia ao escrever: “Meu coração sente uma satisfação indescritível, quando penso no número infinito de infelizes a quem ofereço um antídoto certo contra o tédio e um alívio para os males que sofrem...”. Ele se referia à sua teoria a cerca da viagem no próprio quarto que pode ser encarada como uma metáfora referindo-se à leitura na qual partimos em tão intensas e memoráveis viagens com a satisfação de gastar tão apenas quanto o livro custar.

26/09/2009

Incoerências vegetarianas?

Não que eu seja a favor ou contra a pichações. Porém, existem algumas que extrapolam em criatividade. É o caso desta:


Desde que me tornei uma consumidora exacerbada de soja, jamais condenei quem não tem ou teve a mesma opção que a minha. Aliás, isso iria contra minha ideologia, contra as minhas réstias de princípios. Não é através da condenação, de peleias, de combates contra carnívoros que as “vegetarianiedades” serão mais concebidas em pensamento ou até levadas para o plano prático do cotidiano. Até porque é muito defendida a idéia de que o homem só passou a evoluir mentalmente quando passou a comer carne. Então, através de argumentos assim, dá para perceber o quanto o hábito da carne está arraigado no cerne da humanidade.
Logo, a premissa não é convencer e sim mostrar quais as outras opções quando a carne é uma delas, mas não a preferência nem a escolha de alguns. Só o fato de a sociedade saber da existência e da persistência ideológica dos nem sempre bem vistos “vegans” já é uma maneira de lutar pela causa sem ferir nem denegrir quem quer que seja. Há quem possa dizer que estou muito resignada e que não estou com verve alguma para defender o vegetarianismo o qual vem a ser minha escolha, mas eu prefiro ser ‘desconsiderada’ de tal forma a me tornar uma maniqueísta totalmente contra qualquer um que aprecie as boas churrascadas tão habituais e freqüentes principalmente aqui no sul do país.
Bom, discorrendo um pouco sobre o que me prendeu a atenção na tal pichação ("Comer carne é assassinato e usar couro também. Ass.: A Vaca"), a ponto de me dar ao trabalho de tirar uma foto: acredito ser uma crítica bem apurada e também uma observação pertinente inclusive àqueles que não são carnívoros, mas que continuam na esfera de consumo animal via peças de roupa, sapatos e acessórios diversos.
Certa vez, um cara macrobiótico me disse “bah, eu queria comprar um coturno, mas não posso”. Não é que ele não possa ou não deva, simplesmente fica um pouco (lê-se: bastante) incoerente. Muito embora, quem somente se desfaz das toxinas carnívoras (sim, falo dos ovolactovegetarianos) e use ainda um tênis de couro ou um cinto trabalhado em couro macio, não deve sentir-se o grande ser contraditório do universo, ainda assim, algumas idéias além do consumo alimentício são sempre interessantes de serem analisadas, pensadas e debatidas mas nunca esquecendo o bom senso, o respeito e a incrível faceta do argumento-tenho-o-meu-e-sei-escutar-o-dos-outros.

Parafraseando um assassino odorífero - Patrick Süskind

Paráfrase inspirada também por “Canon de Pachelbel” – Johann Sebastian Bach

O coração era um purpúreo castelo.
Localizava-se num deserto rochoso,
camuflado atrás de dunas,
circundado por uma depressão pantanosa e
por trás de sete muralhas de pedra.
Só voando podia ser alcançado.
Possuía mil câmaras e mil adegas e
mil finos salões, entre eles um que
tinha um simples canapé púrpura,
sobre o qual Grenouille –
agora já não era mais o Grande Grenouille,
mas o simples Grenouille ou
simplesmente o querido Jean-Baptiste –
costumava descansar dos esforços do dia.
Mas nas câmaras do castelo havia
estantes do chão até o teto, e
nelas se encontravam todos
os aromas que Grenouille,
ao longo da vida,
havia recolhido em si, milhões deles.
E nas adegas do castelo descansavam
em barris os melhores aromas de sua vida.
Ao chegarem à maturação, eram engarrafados
e ficavam, então, em quilométricos corredores,
frescos e úmidos, ordenados segundo ano e origem,
e havia tantos que uma vida
não bastaria para prová-los todos.
E deixado sozinho,
finalmente (mais uma vez!) só,
Jean-Baptiste apanha os odores desejados,
abre a primeira garrafa,
enche uma taça até a borda,
leva-a aos lábios e bebe.
Bebe a taça toda, de uma vez,
até o fim o fresco aroma, e é delicioso!
É tão bom que, de tanto prazer,
os olhos do querido Jean-Baptiste ficam
marejados d’água, e logo ele enche
uma segunda taça desse aroma:
um aroma de 1752, colhido na primavera,
antes do sol nascer, sobre o Pont Royal,
com o nariz apontado para oeste,
de onde vinha uma brisa suave,
em que se misturavam cheiro de mar,
cheiro de mato e um pouco de cheiro
do breu das barcaças ancoradas.
Era o aroma do final da primeira noite
em que ele, sem a permissão de Grimal,
havia passado caminhando ao léu por Paris.
Era o fresco aroma do dia que se aproximava,
do primeiro alvorecer que ele vivia em liberdade.
Esse cheiro, então, significara liberdade.
Significara para ele uma outra vida.
O cheiro daquela manhã
era para Grenouille um cheiro de esperança.
Guardou-o com todo o cuidado.
E a cada dia dele bebia um pouco.
Depois de ter esvaziado a segunda taça,
dele desapareciam todo nervosismo,
dúvidas e inseguranças.
Invadia-o uma maravilhosa calma.
Recostava-se nos macios travesseiros do canapé,
abria um livro e começava a ler suas memórias.
Lia os cheiros da sua infância,
da escola, das ruas e das esquinas da cidade.
Os cheiros das pessoas.
E um agradável tremor percorria-o todo,
eram justamente os cheiros odiados,
os que exterminavam, que aí eram invocados.
Com enojado interesse lia Grenouille
no livro dos maus cheiros,
e quando a repugnância superava o interesse,
ele simplesmente o fechava,
punha-o de lado e pegava outro.
Agora estava bêbado de aromas.
Os membros jaziam
cada vez mais pesados nos travesseiros.
O espírito ficava maravilhosamente enevoado.
E mesmo assim ainda não estava no fim a orgia.
É verdade que os seus olhos não podia mais ler,
o livro há muito já lhe resvalara da mão –
mas eles não queria encerrar a noite
sem ter esvaziado a última garrafa,
a mais maravilhosa:
o cheiro da jovem da Rue des Marais...
Bebe devotadamente e, para tanto,
sentara-se ereto sobre o canapé,
embora isso lhe fosse difícil,
pois o salão púrpura oscilava
ao seu redor a cada movimento.
Numa postura de escolar,
os joelhos bem juntos,
os pés postos um ao lado do outro,
a mão esquerda colocada sobre a coxa esquerda –
assim o pequeno Grenouille bebia
o mais precioso perfume da adega do seu coração,
taça após taça,
ficando cada vez mais triste com isso.
Sabia que estava bebendo demais.
Sabia que não suportava tanta coisa boa.
Ainda assim bebia até esvaziar a garrafa:
caminhava pela escura passagem da rua
até o pátio interno.
Ia na direção do foco de luz.
A garota estava sentada abrindo nectarinas.
Ao longe estouravam os foguetes
e petardos dos fogos de artifício...
Depôs o corpo e,
como que petrificado pelo sentimentalismo
e pela bebedeira,
ficou ainda sentado por alguns minutos,
até o último resto do gosto desaparecer da língua.
Ficava olhando de olhos arregalados à sua frente.
Seu crânio estava, de repente,
tão vazio quanto as garrafas.
Então ele caía de lado sobre o canapé púrpura e,
de um momento para o outro,
afundava num sono como que narcotizado.
No mesmo momento
o próprio Grenouille externo
adormecia sobre a manta.
E o seu sono era tão profundo
quanto o do Grenouille interior,
pois os efeitos hercúleos
e os excessos de um esgotavam igualmente ao outro –
pois eram ambos, afinal, a mesma e única pessoa.
No entanto, quando acordava,
não acordava no salão púrpura do seu castelo,
atrás de sete muralhas,
e também não na primaveril paisagem
perfumada da sua alma
mas tão-somente no abrigo de pedra
ao final da galeria,
sobre o solo duro, na escuridão.
Sentia-se mal, com fome e sede,
calafrios e mal-estar,
como um bêbado inveterado
após passar a noite toda bebendo.
Saía se arrastando de quatro pela galeria.
Lá fora era uma hora qualquer do dia,
em geral a noite começando ou acabando,
mas mesmo à meia-noite
e a claridade da luz das estrelas lhe doía
como agulhas cravadas nos olhos.
O ar lhe parecia poeirento,
a queimar os pulmões, a paisagem dura,
ele se machucava nas pedras.
E mesmo os cheiros mais suaves
atingiam com força o seu nariz corrosivamente,
desacostumado que estava ao mundo.
Grenouille, o carrapato,
ficara sensível como um caranguejo
que tivesse abandonado a sua casca
e andasse exposto e desnudo pelo mar.
Ia até o local da água,
lambia a umidade da parede,
durante uma, duas horas.
Isso era uma tortura,
o tempo não tinha mais fim,
o tempo em que o mundo real lhe queimava a pele.
Arrancava alguns pedaços de musgo
e líquen das pedras, engolia-os, agachava-se,
defecava enquanto comia –
rápido, rápido, tudo tinha de ser rápido – e,
como se fosse caçado,
como se fosse um animalzinho de carne macia
e lá no céu já andassem os urubus em círculos,
ele corria de volta à sua caverna,
até o fim da galeria,
onde estava estendida a manta.
Aí finalmente estava seguro.
Deitava-se contra o pedregulho caído,
espichava as pernas e ficava esperando.
Tinha agora de manter o corpo bem quieto,
bem quieto, como um tonel que,
por excesso de movimento,
ameaça transbordar.
Pouco a pouco conseguia conter a respiração.
Seu excitado coração batia mais devagar,
o batimento das ondas interiores cessava lentamente.
E de súbito a solidão caía sobre o seu ânimo
qual negra superfície de espelho.
Ele cerrava os olhos.
Abriam-se os escuros portões de seu interior,
e ele entrava.
Iniciava-se o espetáculo seguinte
do teatro grenouilliano da alma.

24/09/2009

Concordo com Voltaire: "A leitura engrandece a alma"


Doei, certa feita, para uma biblioteca comunitária um livro com as máximas e mínimas do Barão de Itararé (pseudônimo de Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, escritor gaúcho nascido em Rio Grande em 1895) em troca da ficha para retirada de livros. Uma das máximas dele hoje se fez presente no meu saco memorático: “A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana”.
Quanto mais tento assistir televisão menos vontade sinto de continuar assistindo e quanto mais leio mais me desperta a vontade de seguir ad eternum devorando escritos. Claro que existirá quem revide dizendo que muitos canais (principalmente os de TV fechada que por sinal precisam ser pagos... é mister desembolsar exorbitâncias para ter acesso a um conteúdo melhor na “caixa de imbecilidades variadas”) interessantes, culturalmente relevantes... certo que existem, porém, ainda assim a televisão já traz tudo pronto, tudo já feito e as possibilidades de intervenção e reflexão são ínfimas (para não dizer nulas), a tal “cultura de massa” arrasa com qualquer possibilidade de criação idiossincrática. Enquanto que um livro demanda não apenas conhecer signos lingüísticos como também o alcance das “entrelinhas”, do que existe por trás do explícito. E deve ser exatamente por isso que a maioria prefere gastar o tempo diante do “verme que manipula” a gastar um pouco da massa cinzenta concentrando-se em leituras. Vivemos na era do “pensar cansa”, logo, o melhor meio é como escreveu Eduardo Galeano: “assistimos televisão tal qual um camelo que enfia a cabeça na areia”. Sem falar que um televisor quebra a possibilidade de qualquer diálogo. Situação básica para exemplificar:

_Meu dia hoje foi interessante, sabia?

_Hum.. (a pessoa está “cega” diante da tela, provavelmente presa por algum programa mediano que nada virá a acrescentar de positivo)

_Pois é, foi um bom dia mesmo. Daqueles que sempre ficamos pensando que valeu a pena estar vivo para vivê-lo. Quer saber os detalhes?

(Aqui a pessoa fica furiosa e enquanto não tira os olhos da tela, vocifera raivosamente contra a criatura que tenta ainda dialogar)

_Cala a boca! Não vê que estou ocupada assistindo televisão?

(Aqui o diálogo se extermina. A parte que almejava simplesmente contar sobre seu dia e saber sobre o da outra pessoa desiste e vai manter um monólogo num recanto distante da casa).

Todavia, assim como quem não vive mais sem novelas, sem telejornais, sem programas apelativos (lê-se: instrumentos de manipulação) não entende quem consegue viver sem eles, aqueles que preferem um livro ao mutismo de uma TV também não entendem muito toda essa tara por preferências de não pensar e simplesmente engolir o que é arremessado de dentro da caixa sem muitas surpresas relevantes diretamente para o cérebro nada abalizado de espectadores. E assim sem muito entender os motivos um do outro, tais grupos se dividem peremptoriamente.
Eu já vejo tal problemática como mais uma forma de interação (e eu, mais uma vez, falando em interação quando os amantes televisivos almejam somente o não exercício cerebral), de fazer, quem sabe, alguns desses adoradores da caixinha informativa a deixarem algumas noites reservadas para uma leitura. Obviamente isso não tem muito a ver com a realidade. Já que os dois grupos são ferrenhos em suas escolhas. E eu não vou criar mais um diálogo para provar o que todos conhecem como notório.

Então, termino tal postagem provocativa com uma frase do Quintana a qual me serve de alento quando sou expulsa (por tentar dialogar) de locais em que a televisão está escandalosamente ligada:
“Dupla delícia: o livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado”.

23/09/2009

O que se perde transforma-se no que se almeja com mais intensidade

Certa vez, um senhor lá dos baixos (como eles chamam as vizinhanças menos favorecidas da região) de Rivera disse-me: “Está vendo este copo de cerveja? Enquanto ele estiver aqui, o valor dado a ele é ínfimo, porém quando o mesmo for levado por alguém mais esperto ou se de repente nos cansarmos dele e o arremessarmos a lejos, exatamente quando ele deixar de estar aqui é que fará uma falta inenarrável, falta infeliz e descomunal a qual jamais será sanada, já que existem muitos outros copos de cerveja pelo mundo, mas nenhum é como este aqui. Creia-me, nenhum!”. Lembrei dos signos lingüísticos do ancião, mas o que mais recordo é da expressão carregada e soturna de seu rosto e dos olhos tão cheios de algo que naquele tempo eu senti como sabedoria elevada adquirida através da dureza dos anos.
A metáfora criada por ele, me fez ficar escarafunchando na mente à procura de coisas, de pessoas, de situações que se mostraram como um copo de cerveja tão descuidadamente arremessado numa parede num instante de raiva ou num momento em que a razão nos faltou. Lembrei-me de minha avó, uma senhora que nunca fez muita questão de proximidade com os netos. Ela esforçava-se por parecer carinhosa, mas não funcionava. Algo a impulsionava para não estar onde estávamos, para não participar do que fazíamos. Mesmo assim, a convivência era suportável, já que tudo era bem relevado quando ela tinha certos ataques de superioridade e dizia termos transformado sua vida na pior angústia pela qual já havia passado. Muito me indignava com ela, a criticava pelas costas e dirigi a ela muitas expressões de desprezo em momentos que ela se mostrava tragicamente como vítima.
Acontece que hoje eu recolho os cacos de momentos menos atrozes que troquei com ela. Os melhores eram quando ela me contava sobre seu passado. Era uma boa contadora dos tempos de outrora a minha avó. Parecia que ela estava vivendo tudo como se fosse pela primeira vez. Enumerava os detalhes que geralmente as pessoas deixam passar em branco; percorria situações do passado longínquo com uma nitidez, com uma intensidade e com uma verve que jamais conseguiu fazer com o passado recente.
Certa feita, ainda na infância, fiquei sabendo sobre a enchente que houve em nossa cidade na década de 40. Queria saber mais. Fui até à “aburrida” matriarca e pedi-lhe que me contasse um pouco sobre o que lembrava da enchente que arrasou a cidade na sua infância. A primeira frase que saiu daqueles lábios finos e meio quebradiços foi: “A água roubou o tempo até mesmo daqueles que se consideravam sem tempo disponível”. Em meio às minhas indagações, ela ia narrando conforme seus gestos iam tentando me repassar um pouco da imensidão da inundação torrencial. Ela não respondia minhas perguntas, talvez nem as ouvisse, acredito até que ela nem estivesse me vendo, nem estivesse se vendo naquele hoje e sim vendo-se naquele tempo o qual estava contando. Na verdade, estava vivendo-o. Passando por relatos de famílias conhecidas que ficaram desalojadas até chegar no tempo em que o muro da Mauá foi levantado com o objetivo de a água do afamado Guaíba não invadir mais a cidade em tempos de elevada tormenta, ela contou-me tudo de uma forma muito curiosa: sem intenção alguma de me fazer acreditar no que estava dizendo e por isso mesmo que parecia a mais verossímil de todas as narrativas que eu havia escutado. Lógico que algumas horas depois de tê-la escutado, eu já estava reclamando de alguma coisa que ela havia feito ou de algo que ela insistentemente teimou em não fazer só de pirraça. Anos depois, Thanatos resolve carregá-la em seu barco e aí eu lembrei e entendi a intenção das palavras daquele senhor dos baixos de Rivera. E se hoje eu pudesse revê-lo, talvez dissesse a ele que minha avó foi um copo de cerveja que ficou durante algum tempo na mesa da minha existência.
Alguns copos até são bem aproveitados, outros, nem chegam a ser levemente sorvidos. No fim, o que importa não é o tempo dedicado ao copo e sim a intensidade de um segundo dividido. De repente, isso é o que não fenece. Quantos copos precisamos ainda perder para que tal fato seja absorvido e entendido?

22/09/2009

"Como tudo cansa se é uma coisa definida"

Algumas conversas alheias acabam trazendo muitas reflexões para mim. Passava eu num recanto que transbordava humanos e eis que no meio de tanta falação, me centrei num diálogo:

_Por que você está com essa cara?
_Eu tô cansado.
_Mas cansado do que? Ainda nem caminhou.

E mais uma frase foi capturada por meus sentidos no meio do caos cotidiano:

_Cansado de mim.

E aí, depois fiquei o tempo todo lembrando de uma das partes do desassossegado livro em prosa do Pessoa. Tal parte se refere à questão do quanto definições podem ser cansativas, taxativas, limitadas:

“Quem sou eu para mim? Só uma sensação minha. O meu coração esvazia-se sem querer, como um balde roto. Pensar? Sentir? Como tudo cansa se é uma coisa definida!” (Livro do Desassossego – parte 154).

E aí fiquei remoendo mais: bem provável que aquela pessoa que disse a tal frase (“cansado de mim”) nunca lera a prosa do Pessoa, no entanto, conseguiu sintetizar numa sentença o que o poeta escreveu em algumas linhas. A náusea de si mesmo é notória, mas quase nunca é “vomitada” assim em público, já que a maioria engole o vômito se for preciso, para não deixar que sua verdade crassa venha à tona e a torne vulneravelmente um alvo de críticas alheias.
Por outro lado, o questionamento “quem sou?” é uma sumidade (eu e meus arcaismos..rsrs) no pensamento geral. Quando definimos algo ou alguém, logo limitamos e colocamos dentro de uma caixa e ali fenecerá naquele cubículo ideiático e subjetivo. Muito soturno isso de encarcerar uma existência numa redoma. E isso pode até ser considerado paradoxal, já que a existência humana é mutante. O que não muda é a essência, mas mudam alguns sentires, algumas perguntas, algumas respostas intrínsecas e isso se dá quando a luz do conhecimento nasce à mente humana. Mudança, em alguns sentidos, é evolução. E se passamos mudando, como podemos aceitar o isolamento de um conceito? Por isso, bem disse Pessoa (em seu semi-heterônimo Bernardo Soares) ao afirmar que ele é uma sensação de si mesmo; portanto, o que ele sente a todo momento é a própria existência. O resto é puro conceito enquadrando uma imagem viva.
Então, a pessoa que se disse cansada de si, de repente, está é cansada do que os outros dizem que ela é e não do que ela sente que deveria ser, mas não consegue. E por que não consegue? Porque já está dentro daquela caixa apertada de dogmatismos.

Bom, foi mais uma frase ouvida por aí, pelas ruas... e eu ainda penso que tal pessoa deveria ler Pessoa!

O Perfume: História de um assassino - Patrick Süskind

Minha mais nova aquisição de sebo é uma obra que tive conhecimento através de uma película a qual é baseada no livro. Lendo, percebo que realmente o filme é muito bom, mas, como toda adaptação, existem muitas distorções (algumas positivas outras negativas, como não poderia deixar de ser): a mãe, no filme, chuta o filho assim que ele se desapega de suas entranhas (um exagero, penso eu, da parte de Tom Tykwe que fez a adaptação para o cinema em 2006); já no livro, ela simplesmente o abandona debaixo da mesa; tanto no filme quanto no livro ela é condenada à morte por infanticídio, já que com todos os outros quatro filhos que teve ocorreu o mesmo, porém Jean-Baptiste Grenouille sobrevive por conta de sabe-se lá qual motivo (se alguém quiser tentar alguma interpretação que leia a obra).
“O Perfume – História de um assassino” foi primeiramente publicado em forma de folhetim e como teve uma enorme repercussão, foi no final do mesmo ano (1985) que saiu a publicação do livro. A capa da edição da Record é detalhe de Ninfa e Sátiro, de Antoine Watteau (cortesia do Louvre).
Patrick Süskind é alemão, mas estudou algum tempo na França, deste tempo de estudo é que devem ter surgido suas inspirações para a obra célebre.

Entre Paris e a Provença, na primeira metade do século XVIII, em tom de fábula, começa a narrativa de “O Perfume”, e, nele, Patrick Sünkind nos leva a percorrer a cidade de Paris e seu lugar mais fedorento, o Cimetière des Innocents, onde, a 17 de julho de 1738, nasce Jean-Baptiste Grenouille. Rejeitado por todos, até pela mãe, desde a hora do nascimento, Grenouille vive encapsulado em si mesmo “como um carrapato”, e não é capaz de dar nada ao mundo: nem um sorriso, nem um grito, nem o seu próprio cheiro.
Dono de um dom extraordinário, uma prodigiosa capacidade de perceber e distinguir aromas, ele decide tornar-se o maior perfumista do mundo. Sua ambição, no entanto, não é enriquecer, nem pretende a fama; persegue um sonho louco: dominar os corações dos homens criando um perfume capaz de suscitar o mais profundo amor em quem o cheirar. Assim, ele obteria o poder maior sobre as pessoas, conseguiria apoderar-se do mundo sem se ver obrigado a conquistá-lo com amor.
Comparado a Ítalo Calvino, Proust, García Márquez, Alejo Carpentier, Voltaire, Daniel Defoe, Marquês de Sade, Edgar Allan Poe e também a Umberto Eco, Patrick Süskind construiu um romance policial com páginas inusitadamente antológicas. Além disso, O Perfume é uma profunda reflexão sobre a estupidez humana, o absurdo de suas instituições e valores, tudo isso num estilo cético, debochado e refinado.

20/09/2009

Rotterdam elogiando More

Terminei já faz algum tempo a leitura de Elogio da Loucura do Rotterdam. Este humanista me surpreendeu bastante pela forma (des)ordenada a qual conseguiu abarcar muitas das questões humanas inseridas e promovidas pela loucura.
Na primeira parte, quase como um prefácio, existe uma carta de Rotterdam para Thomas More. Nela, ele entrega o escrito nas mãos de seu amigo e entre outros detalhes, confessa que escreveu o elogio inspirado pelo próprio Thomas. Já que Morus o fez lembrar da palavra ‘moria’ que, em grego, significa loucura. E ainda se justifica dizendo que não considera seu amigo um louco, mas que o conhece suficientemente bem para saber que, como Demócrito, ele sabia apreciar e rir da vida humana quando ela é provida de sal e graça. Rotterdam confessa sua forma satírica ao retratar a Loucura como deusa principal de seu texto. Acaba a missiva - endereçada ao More – dizendo-lhe que ninguém mais sapiente zelaria tão bem pela loucura.
Sou fascinada pelo livro “Utopia” do Thomas More e lendo a missiva de Erasmo para o Thomas fez nascer em mim uma idéia: será a missiva ou a própria obra de Rotterdam uma verdadeira homenagem à utopia de More? Já que aquele escreveu seu elogio na viagem que estava fazendo até à casa de More e já que Erasmo mesmo confessou ter escrito o texto pensando a respeito de seu amigo e, quem sabe, também de sua obra utopiana.

“Digam de mim o que quiserem (pois não ignoro como a Loucura é difamada todos os dias, mesmo pelos que são os mais loucos), sou eu, no entanto, somente eu, por minhas influências divinas, que espalho a alegria sobre os deuses e sobre os homens.” (Elogio da Loucura - Erasmo de Rotterdam)

Um Diógenes literato

Fez alto, ontem, em algum largo deste vasto mundo, um discípulo de Diógenes, isto é, um homem que vive em um tonel, e que o vem arrastando fleugmaticamente pelo mundo. O jornalista que o entrevistou, considera-o mais interessante do que o filósofo de Sinopa. “O tonel do grego, - informa - era uma coisa comum. Servia de habitação e nada mais”. E há, nessa informação, um pequeno engano, pois, segundo os melhores historiadores, consultados e interpretados, o tonel de Diógenes era, também, a sua tribuna, que ele rolava e erguia pelas praças e ruas de Atenas. Se o auditório lhe fugia, o orador ia atrás dele. E levava nisso enorme vantagem sobre os demais doutrinadores, cuja tribuna de pedra quedava, imóvel, na ágora.
Deixemos, porém, o filósofo antigo para tratar do seu imitador bizarro e tardio, o qual se chama Leopoldo, viaja acompanhado pela mulher e por uma filha de três anos, e auxiliado por um burro, que arrasta o tonel. Tendo partido há sete anos, já percorreu, a pé, carregando ou seguindo a sua casca de marujo, vinte e dois países. E conta percorrer o mundo inteiro dentro de mais de uma década, quando, então, deixará em repouso a carcaça, a filha, a mulher, o tonel e o burro.
Que leva, porém, esse Diógenes sem lanterna e sem espírito filosófico a empreender tão longa e tormentosa jornada? A paixão da glória, a ânsia de renome, a fome de popularidade! Candidato à notoriedade literária, compreendeu a impossibilidade de tornar-se conhecido escrevendo obras de imaginação. Queria fazer um livro que levasse o seu nome aos quatro cantos da terra. Mas verificou, parece, que lhe faltavam asas ao pensamento, e que melhor seria, talvez, ir levar esse nome, ele próprio, às cinco partes do mundo, com a ajuda do calcanhar.
_Quero fazer um livro que interesse o mundo, - explicou ele ao redator que o entrevistou: _Um livro comum, bem ou mal, todos escrevem; meu plano, porém, é mais vasto. Certa vez, pus-me a pensar seriamente na maneira mais eficiente de realizar uma obra que interessasse a todos os povos. Para ser assim, tinha eu que fazer coisa melhor que tudo aquilo existente desde séculos, nas bibliotecas do mundo inteiro. Não era fácil a tarefa. Todos os povos têm os seus grandes nomes, os seus gênios, os seus expoentes. A França viu e admirou Victor Hugo; Shakespeare empolgou a Inglaterra; Cervantes conquistou a Espanha; Dante maravilhou a Itália, e Goethe sublimou a Alemanha... o que me restava, portanto, era fazer coisa nova, sensacional, que fosse inédita, completamente inédita. E imaginei escrever um livro com a própria vida, colhida ela, em todos os seus aspectos mais importantes, por esse mundo a fora.
Leopoldo, aparentemente pretensioso, é assim, um homem profundamente modesto. Queria escrever um livro maravilhoso, original, imprevisto. Queria ter a celebridade de Shakespeare, de Hugo, de Goethe ou de Dante. Reconheceu que não conseguiria realizar este sonho. E em lugar de meter mãos à obra, meteu pé no mundo. Faria com as botas o que os outros haviam feito com a pena. Seria, desse modo, o Cervantes do seu século, em repartir, todavia, à semelhança de D. Quixote com o Rossinante, a sua glória com o burro, que afinal de contas, também vem fazendo a viagem sem o menor intuito de notoriedade literária.
A aventura do viajante apresenta, ainda, um aspecto mais delicado.
_Este povo – disse ao jornalista, indicando os curiosos que o cercavam – sente e vê os sacrifícios a que nos expomos. Vê uma mulher andar léguas e léguas, por países estranhos, enfrentando vicissitudes e perigos, por amor de mim e de uma idéia. Vê minha filhinha, na inocência de seus três anos, caminhando sempre, sem conforto, sem agasalhos, exposta ao tempo e, às vezes, até curtindo fome na solidão das florestas. Diante de tudo isso, qual é o cérebro que não se agita? Qual o coração que não se comove? Se eles se agitam e se comovem é porque sentem, e se sentem é porque se impressionam com o meu livro vivo que a vida escreve. Tudo isto estou realizando porque era mister realizar uma coisa nova.
Examinadas essas palavras sob o seu aspecto singelamente humano, que conclusão delas se tira? Esta, simplesmente: que se trata de um cavalheiro que colocou todas as suas coisas sagradas da vida ao serviço de uma excessiva e inócua vaidade literária. Para que o seu livro seja lido, e o seu nome conhecido no mundo, sacrifica esposa e filha, arrastando-as pelo mundo dentro de um tonel, como os ciganos que andam de aldeia em aldeia exibindo um urso ou um macaco. Por mais dedicada que lhe seja a companheira, ela não deixará de sentir, no fundo da sua alma, profunda revolta pelo destino que lhe foi reservado. Por que anda ela a rolar com a filha, pelos barrancos do mundo, dentro de uma pipa, sem conforto e sem pão, puxada por um burro ou por um marido? Unicamente para que o nome deste amanhã seja citado, comentado, discutido, coberto de admiração e de glória! Se é para isso, ele que vá sozinho, ou com o burro. Se é que o burro também já não filosofou sobre a matéria, e não resolveu, por sua vez, protestar a coice contra uma aventura que não tem interesse nenhum.
Mas a vingança da senhora, da menina e do burro estão já asseguradas. O esforço de Leopoldo será inútil. Terminada a sua volta em torno da terra, puxando o tonel, terá ele que andar muito mais ainda, atrás de editor para o livro. E se o encontrar, pode estar certo que a sua nomeada não será mais vasta que a do poeta que tiver escrito o pior livro de versos do ano. Se o seu nome, após quase dois lustros de marcha, continua desconhecido à sua passagem, que repercussão pode ter quando o livro for editado, daqui a dez ou quinze anos?
A fama, quando a serviço das letras, é altiva demais, para que consinta que a conquistemos com os pés.


Diogenes, Jean-Léon Gérôme, 1860, Walters Art Museum, USA

19/09/2009

Obscuridades literárias entre Byron e Castro Alves: D. Juan e Haidéia

Incrível como algumas leituras de outrora vão se enterrando tão profundamente que quase caem no olvido total. Ontem, me pediram emprestados livros que estão sendo exigidos para o vestibular. Entre tais livros, um deles é "Espumas Flutuantes" de Castro Alves. Não tenho muitos apegos materiais, mas um dos que tenho (bem ferrenho) é com meus livros. Fiquei remoendo se os emprestava (mesmo correndo o risco de jamais vê-los novamente, já que quem lê por obrigação não tem o cuidado de preservar os livros ou de saber onde os coloca), depois decidi que emprestaria, mas fiquei às voltas, revirando as páginas, relendo partes... aí me deparei com um poema: "A volta da primavera" e anteposto ao poema, Castro Alves anexou uma citação de A. de Musset que fala a respeito de sofrimentos e da sempre existente possibilidade de não desistir. O poema me fez ficar refletindo sobre a expressão "Haidéia". Não existe se quer uma nota se referindo ao poema "D. Juan" de Byron, mas acredito que Castro Alves, como um eterno byroniano, inseriu em seu poema uma criação de Byron, pois é este que fala a respeito da virgem Haidéia como uma metáfora para a morte de D. Juan. Não encontrei referência alguma na mitologia grega ou romana a respeito de Haidéia. Cheguei a pensar em Hades, mas é sabido que a companheira deste é Cora. Enfim, não sei ao certo se Haidéia é uma criação poética de Byron (e resgatada por Castro Alves), não sei se Haidéia foi alguma personagem obscura e pouco conhecida da antiguidade, mas mesmo assim essa abordagem de que ela está ligada a um sentido de morte, me rendeu alguns versos. Espero que o espectro dela não se sinta maculado por minhas rimas errantes e por minhas linhas tortuosas aos sentidos, mas foi quase impossível não ficar divagando a respeito:


Haidéia
“Serei... que importa? o D. Juan da morte
Dá-me o teu seio – e tu serás Haidéia!”
(A volta da primavera/1869 – Castro Alves)

Tal qual a ventania
Mostrou-se como desgraça
Jogou-me por cima a agonia.
Em pleno agonizante deserto
Ela é uma sombra que passa...
Quedou-se tão por perto
Quando a senti incrivelmente fugaz
Previ seu passo incerto
Bafejando, disse-me “é aí que estás?”
Queria eu Morpheus no eterno sono
Ainda que sentindo roto o peito
Quedei-me à espera assaz
Apresentei-a ao fiel abandono
E ela lá sufocando-me ao leito
Sugando-me a réstia de vida
Haidéia tão querida
A de todas mais descrida
Perto de mim ela jaz
Entregue, fiquei à minha sorte
E então, alegrando-se com minha morte,
Haidéia repete: “é aí que estás?”

E tudo isso me faz pensar ainda em passagens específicas de livros. Aqueles detalhes que vão sendo marcados para que, num porvir, busquemos mais esclarecimentos, mais referências a respeito. Quiçá, Haidéia tenha sido representada não como morte em tantos outros escritos; mas tal fato, acredito, somente Byron ou uma boa biblioteca poderiam me esclarecer. E já que Byron não pretende retornar para me cantar aos sentidos de onde ele tirou a desconhecida Haidéia e como não existem mais nem a biblioteca de Alexandria nem a biblioteca oculta que nos brindou Umberto Eco em seu livro ‘o nome da rosa’, fico com a minha interpretação funesta de Haidéia.

18/09/2009

Quando a morte se eterniza em vida...

Leio alguns poemas marginais do Bukowski e alguns outros melancólicos do Kerouac. Eles me fizeram lembrar (ando pra lá de nostálgica nas últimas postagens) de um trabalho na faculdade em que precisávamos escrever a respeito de uma obra qualquer. Eu quis me mostrar diferenciada (ou será que apenas quis tentar chegar no meu ápice atual momentâneo?) e peguei diversos livros, capturando deles as partes mais obscuras e funestas. Discorri sobre a temática da morte na literatura. Usei como exemplos citações de “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, “O Mercador de Veneza”, “Crime e castigo” e alguns contos do Machado de Assis. Acredito que tenha feito algo como um ensaio evidenciando fatos ‘tanatológicos’ literários. Quando recebi o trabalho, corrigido, vi a nota 9,8. A professora de teoria literária quase me fez entrar em colapso, indagando: “Copiaste da Internet? Tentei encontrar a prova do teu plágio, mas ainda não consegui...”. Plágio??!!?? Só porque eu escolhi mais de uma obra para centrar minhas idéias? Claro que para ela, sendo professora de tantos que padeceram para escrever a respeito de uma obra, eu só poderia ter copiado, plagiado descaradamente aquele texto. Depois que meu estado atônito passou, informei a ela que durante algum tempo eu buscava em minhas leituras citações a respeito da finitude. Ela mirou-me com ar de estupefação e proferiu: “Ah, entendo...” e logo modificou minha nota de 9,8 para 10. Aí fiquei me indagando: um plágio mereceria dois décimos a menos do que um texto original? E sendo meu texto original não merecia mais que 10? Será que bons textos universitários estão fadados a serem tomados por plágios só porque a média universitária é muito abaixo? Enfim, obviamente ela jamais encontrou a “origem” do meu plágio porque ela simplesmente não existe. Mas... se eu realmente tivesse plagiado um texto alheio, eu receberia 9,8? Nossa... definitivamente eu não sei como existem professores com tal falta de nível (nem falo de nível intelectual) mental. Na verdade, eu sei. Existem porque o ensino, atualmente, anda muito corrompido. Vai saber o que aquela tal andou fazendo para receber o título de doutora em Letras. Acredito que ela não tenha sido forçada a ler nem metade de alguns poucos principais cânones universais. Definitivamente esta não foi uma de suas tarefas.
Bom, deixando um pouco a revolta ideológica de lado, um dos poemas do Bukowski intitulado “poema nos meus 43 anos” demonstra que quando chega o momento, fatídico ou não, da morte, a pessoa pode muito bem já estar soterrada em seu próprio quarto numa forma tumular:

“Terminar sozinho
no túmulo de um quarto
sem cigarros
nem bebida -
careca como uma lâmpada,
barrigudo,
grisalho,
e feliz por ter
um quarto”

Já num poema do Jack Kerouac, ele deixa de lado o que os poetas ‘aclamadores’ de vida costumam ‘tematizar’; profetiza e clama mais do que a simples morte. Ele lança uma exigência: que a raça humana não se multiplique mais. Por quê? Não é tão complicado assim de entender quando se olha e se vê o que o humano causa à própria existência:

“Exijo que la raza humana
deje de multiplicar su especie
y se humille
lo advierto
Y como castigo & recompensa
por hacer este alegato sé
que renaceré
el último ser humano
Todos los demás muertos y yo
una anciana errando por la tierra
gimiendo en cuevas
durmiendo sobre harapos”

Talvez o que nos reste seja o mesmo martírio que o eu-lírico do Bukowski sentiu num outro poema chamado “Confissão”:

“não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma”

Essa tal “coisa nenhuma” é aquela professora que acredita um não-plágio valer 10 e um plágio valer 9,8. Essa tal “coisa nenhuma” é tudo aquilo que a gente aceita porque já está estipulado como magnífico. A tal “coisa nenhuma” é a vergonha, mas mesmo assim estagnar-se. Coisas como a que o Buk se preocupava em deixar para a mulher depois que morresse. E é por sabermos dessas “coisas nenhumas” (ocorrendo já há tanto tempo) que o Kerouac almejou a não multiplicação da espécie humana. Não o condeno.
Mas... 'linkando' tudo isso: quando se fala tão bem sobre a morte não a estamos eternizando na própria vida?

O que se faz com leituras?


Recordo de uma aula específica de Literatura, ainda nos tempos de colégio. A professora era uma dessas de estilo nervoso, desconfiado, fugidio. Porém, suas aulas eram excelentes. Na tal aula, ela discorreu a respeito do que se faz com o que se lê. Ora, era uma turminha de sétima ou oitava série, na qual, a maioria ali queria tão apenas ser aprovado e possuía tamanha ojeriza de ler, mas adorava os exercícios e os jogos da tão famigerada educação física. Fiquei analisando meus colegas naquela aula. Alguns cochichavam assuntos totalmente alheios à literatura, outros se mostravam extremamente enfadados com tal assunto e quase dormiam, outros ainda copiavam freneticamente o que a professora ia falando sem nem ao menos prestarem atenção no significado de cada expressão e verbete utilizados. Dizia a professora “... porque devemos ler e colocar em prática determinados conhecimentos que considerarmos relevantes para a vida diária...”. A coitada falava em fazer algo com o que se lê, mas ali poucos liam e menos ainda eram aqueles que pensavam em fazer algo com as leituras. Anos mais tarde, encontrei a mesma professora e conversamos sobre aqueles tempos. Ela me questionou “o que tens feito de tuas leituras?”, pareceu-me que ela sempre carregou o sentimento de modificar o mundo através da literatura, ou seja, uma típica utópica das letras. Minha resposta não foi muito animadora porque eu geralmente não faço muito com o que leio. Talvez eu me empolgue, me identifique, exulte... mas fazer algo de prático? O máximo, quem sabe, seria pensar em estereótipos semelhantes a personagens, lembrar de suas dores, agonias, grandes espaços de sofrimentos e pequenos de satisfação, como foi o caso do personagem histórico de Claudius:

“_Dizem que sou um perfeito imbecil e, quanto mais leio, mais o pensam.”

Certamente ler algo assim e pensar em todos que lêem e por este motivo, considerados “perfeitos imbecis” não é o que a tal professora chamaria de “fazer algo com o que se lê”. Quiçá, eu não faça nada de prático com o que leio e tão somente consiga divagar durante um determinado tempo. Deveria me perturbar com isso. Um alento paira quase entusiasmado sobre um ‘quem sabe’ chamativo e evidenciado por mais uma citação de Ignácio de Loyola Brandão em seu livro “Não verás país nenhum”:

“Sem esperanças. As luzes estão acesas, fracamente. Amarelas, doentias. ‘A dolorosa luz das grandes lâmpadas elétricas da fábrica, tenho febre e escrevo’. Era a minha frase predileta, anotei-a, decorei. Como sei de cor a maioria dos versos do poeta. Fernando Pessoa. Tenho febre e penso, num girar infinito.”

17/09/2009

Sobre sonhos

(Title: Gustave Doré illustration to the 1884 edition of Edgar Allan Poe's The Raven: Doubting, dreaming dreams no mortal ever dared to dream before)

Estava eu dando uma olhada nas partes marcadas do livro “Eu, Claudius, Imperador” do Robert Graves, quando recebi um comentário do Manuel Estivalet. O que essas duas situações têm em comum? Bom, ambas discorrem a respeito de sonhos. O comentário do Manu é em forma de indagação-resposta a uma postagem sobre as tantas metáforas que o “corvo” de E. Allan Poe carrega:
“Seríamos nós seres oníricos no sonho do corvo?”

Apreciei a frase-comentário porque ela ultrapassa o valor dado ao personagem de Poe, e nós, seres tidos como incrivelmente reais, seres detentores do que pode ocorrer e do que definitivamente não, aparecemos apenas como uma sensação ocorrida no sonho do corvo, como se a “besta” tivesse delírios oníricos e tais cenas fossem representadas por humanos degradados e que jamais aprendem a respeito do “nervermore”, por isso, talvez, o corvo repita tanto a mesma sentença, para tentar fazer que a 'intensa’ capacidade humana a capture na alma, nos sentidos e na mente, de uma vez por todas.

A parte do livro do Graves (olha que coisa... a primeira pessoa que me falou de Robert Graves foi o Manuel! Ainda que tenha me indicado outra leitura do mesmo autor: A deusa branca, lembro do comentário dele: “tem outros livros do Graves muito interessantes igualmente”) a respeito de sonhos, percebemos o onirismo não levado tão em conta. Mesmo que no final, Claudius descubra que o sonho de Briseis, uma criada de sua mãe, se tornava realidade, num determinado momento, ele duvida que os sonhos sejam uma amostra do que pode vir a ocorrer em algum tempo não estipulado e inclusive faz uma pilhéria a respeito de algumas pessoas e seus sonhos sem nenhuma representação suficientemente boa e esperada na realidade:

“Tudo isso é muito curioso quando se pensa no que aconteceu mais tarde. Eu não creio muito nos sonhos. Athenodorus sonhou uma noite que havia um tesouro no mato próximo, ao fundo de uma cova de marmota. Procurou o lugar exato e, sob um tronco, descobriu a entrada do buraco. Então arranjou dois camponeses e fê-los cavar até o fundo – e ali encontraram seis velhas moedas de cobre e uma de prata, mas falsa, o que não dava nem para pagar aos homens pelo seu trabalho. Um de meus locatários, um vendeiro, sonhou também, uma noite, que um bando de águias o cercava e uma delas lhe pousava no ombro. Ele concluiu que se tornaria imperador. Mas tudo o que aconteceu foi a visita de um pelotão da Guarda (os guardas trazem uma água no escudo): o cabo vinha prendê-lo por algum delito que dependia da justiça militar.” (Eu, Claudius, Imperador – Robert Graves).

Há quem chame o onirismo de “obtusão intelectual” ou de “estado anormal da consiciência”. Mas isso não responde se somos os oníricos no sonho do corvo ou se o corvo é o nosso “desviador” da realidade. Afinal, sublimar o que nos causa pânico às vezes (a realidade e suas atrocidades), não é somente sinal de fuga, mas, quem, sabe, sinal de que realmente precisamos de algumas sublimações para suportar a eterna palavra que recusamos crer, o eterno sonho que nunca será considerado verossímil, mas que pode muito bem tornar-se. Do que isso depende? Como saber a esse respeito se ainda divagamos se somos o sonho da besta ou se somos nós quem a sonhamos?

16/09/2009

Letras derradeiras



“(...) Ah, mas como eu desejaria lançar ao menos numa alma alguma coisa de veneno, de desassossego e de inquietação. Isso consolar-me-ia um pouco da nulidade de acção em que vivo (...) Mas vibra alguma alma com as minhas palavras? Ouve-as alguém que não só eu?”
(Livro do Desassossego – Fernando Pessoa)


M. A primeira letra batida à máquina pelo escritor sustentado apenas pelo fracasso. Estava num daqueles momentos em que nunca lhe passava nada pela mente, nada, ao menos, que ele considerasse proveitoso para o ato da escrita. Lembrou de alguns exercícios para fazer a escrita fluir. Asneiras. Até que funcionam às vezes, mas estava sem paciência, totalmente desabado em sua miséria existencial. Ficou analisando aquele M por alguns instantes. Ele lhe remetia a algumas memórias que poderiam ter sido apagadas se isso fosse possível. Lembrou da Margarida. Um caso passado. Interessante que nunca conseguiu encontrar um algo que fosse de bom naquilo tudo. Margarida era comum. Ele, um incapacitado socialmente. Desde o início sabia que nada fluiria daquilo que tentavam. Ficou Margarida enterrada em suas memórias ridículas e enfadonhas. “Bem fez ela em partir, melhor fiz eu em não impedi-la”, pensou com um quase sorriso. Há tempos que não sorria, tampouco chorava. Apenas lamentava. Da vida que teve, daquela outra que não foi capaz de lutar e ter.
O. Finalmente fez nascer mais uma letra no papel amarelado. Dentre tantas letras naquela máquina ele escolheu esta. Por que será? O que o impelia? Vontade é que não era. Idéias não vinham. Apenas ficava mordendo a corda gasta do passado para sentir o gosto acre e depois não se sentir sem motivo para reclamar. Tal letra lhe lembrava o que mesmo? Talvez ódio. Dele mesmo. De tudo que era filho da insatisfação. Ódio dos anos que se prolongam tanto e ódio do fato de ter esgotado suas cotas para mantê-lo ferrenhamente. No fim, o que fica é a inércia. Rememorou os tempos da Organização Escritural. Eram até suportáveis. Muita gente metida a saber de tudo a respeito da arte de escrever. Muitos sabiam mesmo. Outros, nem tanto. Ele estava entre os que “realmente nada sabiam”. Não se importava. Ao menos, era o que se esforçava para aparentar. Tempos de desespero. Agonia extremada. Cansaço emocional. Perda de alguns movimentos físicos. Estafa absurda que ia tomando conta de pequenos detalhes. “Atormentar-se com um passado ruim é pior do que estar vivendo num presente atroz”, pensou ele sentindo novamente todo aquele peso que fora sentido outrora, simplesmente porque o fez renascer em sua mente. Culpa do O.
R. Uma letra boa. Todas as vezes que se via desesperado, lembrava “rápido, agora ou nunca, aja!”. Rápido. Tudo foi passando, nem sempre rapidamente, embora fosse o que mais almejasse. Talvez, exatamente porque almejasse que não passava. Talvez porque queria de uma forma que as coisas ocorriam exatamente de outra. Olhava de soslaio o papel. Este era mais firme. Encarava-o impávido. Seco. Altivo. E ele ali, impotente. Fiel ao que mais sabia fazer: remoer. Mordia-se, desviava o olhar, pensava em levantar, abandonar aquela situação tão premeditada e nunca feita. Os dedos ficavam retendo a próxima letra. Aquele R era um passo a mais. Apenas o espaço entre as próximas duas letras. Postergava. Coisa que muito sabia fazer.
T. Letra que lembrava a mais uma de suas decepções. Foi chamado de tolo ao entregar uma carta à Teresa. Ela sabia escolher bem os adjetivos. Talvez os escolhesse todos com T para parecer esperta, já que todos a conheciam bem o suficiente para saber que era apenas fingimento. Mas talvez ela fosse esperta mesmo, já que fingia tão bem. A carta renegada. Guardou-a por anos. Trancafiada numa das tantas gavetas. E ela tinha razão. “Eu era e ainda sou um homem cheio das tolices intoleráveis a qualquer pessoa”. Bem fez ela em casar-se com um homem menos tolo, mas nem por isso menos idiota. “Melhor fiz eu aceitando o meu próprio fardo e não vivendo de cobranças”. Mas e aquela carta por onde estará? Provavelmente as traças já tomaram conta. Essas criaturas fazem o trabalho de exterminar com aquilo que relutamos em nos desfazer. A carta de um tolo deve tê-las causado um enorme mal estar.
O. Mais um O. Já não pensava mais no ódio que o primeiro O lhe fez rememorar. Agora era outra palavra que aparecia em seus sentidos: ontem. Ontem ele fez tanta coisa, mas fez tudo sem dar a menor importância que não sabia descrever exatamente o que fizera. Era como se não tivesse feito coisa alguma. Sabia tê-las feito, mas nada ficou apreendido. Quase inacreditável que não tenha prestado a mínima intensidade em nenhuma das atividades que desempenhou. Todas elas apareciam como aquele papel cheio de si. Existiam, estavam lá, mas nada mostravam. A razão da existência do hoje deveria ser o ontem. Mas nada deste ficou. Nem o hoje ficava. O amanhã era uma eterna opressão. Tentou visualizar as letras já datilografadas no papel, mas a visão estava embaçada. Não lembrava-se das letras anteriores. Estavam todas elas soterradas num antes que ele não fazia questão de conhecer. Tateou a máquina. Estava ali em sua posição habitual, com a poeira tomando conta das partes menos usadas. Sentiu uma vontade enorme de escrever tudo o que nunca escrevera. Mas as idéias estavam mais do que apenas enferrujadas: estavam para sempre perdidas. Quando a bruma apossou-se do quarto, uma dor forte, proveniente de algum recanto interno de sua existência, foi sentida. Não via mais nada. Nem papel, nem máquina, nem suas mãos imperfeitas procurando por algo em que se firmar. O ar esvaiu-se pela vez derradeira. A cabeça caiu para frente e bateu exatamente onde deveria. O ponto final.

13/09/2009

"Não verás país nenhum" e minhas inconformidades

“Dar as mãos simbolicamente. Penso muito nisso. Já se passaram tantos anos e ainda me imagino. Nós, juntos. Ou aniquilavam todos, ou voltavam atrás. Permitimos. Não me conformo. Culpa que carrego. Ela me corrói. Nada pior que a memória do gesto não realizado”. (Não verás país nenhum – Ignácio de Loyola Brandão)

Não era de se esperar menos de um autor que, quando criança, trocava bolas de gude por palavras com seus colegas.

Ainda lendo “Não verás país nenhum”, comecei a marcar partes que me fazem lembrar de pensamentos e idéias minhas semelhantes. Muitos deles foram ficando naquele baú das coisas não-palpáveis olvidadas. Mas aí, quando temos a oportunidade de encontrar um livro assim cheio de confissões e pesares de um homem que pode não ter agido respeitando suas voláteis verves, mas que sempre privou pelo pensar, dá para perceber alguma réstia de bom senso e, principalmente, algumas identificações utópicas.

E aí, fico divagando.. quiçá, o que me restará, daqui algum tempo, será apenas algumas memórias semelhantes de gestos não realizados. Frustração? Agonia para voltar no tempo e fazer diferente? Não! Ainda não vejo a resignação como forma de adquirir menos máculas e incômodos. Se bem que esse papo de não contentar-se pode soar como pensares de uma eterna divagante imersa nos braços de Morpheus. Confesso que a citação do livro me fez imaginar o exato instante em que meus arrependimentos pelo não-feito saltarão das páginas da minha existência.

Comentando O Corvo de Poe


E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
“Tens o aspecto tosquiado”, disse eu, “mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.”
Disse o corvo, “Nunca mais”.

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome “Nunca mais”.

Partes do poema "The Raven" de Edgar Allan Poe - Tradução: Fernando Pessoa.


O atroz sentimento de que provavelmente - por mais que já se tenha sofrido e penado - é apenas o início do grande sofrimento. Sente-se algo praticamente insuportável, pois a dor do momento é sempre enorme e é quase impossível pensarmos nela com uma gota a mais acrescentada de desespero. Soa como insuportável, como algo que não se poderá agüentar nem em vida nem em morte, pois parece que nem mesmo no portal de divisa o tormento dilacerante tem parada. O nunca mais é a nossa condenação, é àquilo que estamos fatidicamente fadados e não há meios de burlar, não há como não passar por todos esses medos, angústias e dias tão taciturnos quanto noites que se seguem. E assim permaneceremos entendendo cada vez menos essa dor que possuímos que é como um demônio que sonha! Somos todos corvos e carregamos sempre a mesma fala: NEVER MORE!

12/09/2009

Bom e barato: "Não verás país nenhum" - Ignácio de Loyola Brandão



Definitivamente existem aquisições de livros que me fazem exultar: os incrivelmente bons e baratos! Comprei num sebo, “Não verás país nenhum” do Ignácio de Loyola Brandão por reles três reais. Estava, como sempre que entro num sebo, procurando por outros títulos, mas aí, este apareceu-me apagado e meio detonado na estante. Fiquei às voltas com “Feliz ano velho” e “O Jogador”. Decidi dar uma chance ao Loyola; apanhei o livro da estante, abri numa página qualquer (ok, não foi qualquer página, foi a primeira) e li:

“Mefítico. O fedor vem dos cadáveres, do lixo e excrementos que se amontoam além dos Círculos Oficiais Permitidos, para lá dos Acampamentos. Paupérrimos. Que não me ouçam designar tais regiões pelos apelidos populares. Mal sei o que me pode acontecer. Isolamento, acho.
“Tentaram tudo para eliminar esse cheiro de morte e decomposição que nos agonia continuamente. Será que tentaram? Nada conseguiram. Os caminhões, alegremente pintados em amarelo e verde, despejavam mortos, noite e dia. Sabemos, porque tais coisas sempre se sabem. É assim.
“Não há tempo para cremar todos os corpos. Empilham e esperam. Os esgotos se abrem ao ar livre, descarregam em vagonetes, na vala seca do rio. O lixo forma setenta e sete colinas que ondulam, habitadas, todas. E o sol, violento demais, corrói e apodrece a carne, em poucas horas.
“O cheiro infeto dos mortos se mistura ao dos inseticidas impotentes e aos formóis. Acre, faz o nariz sangrar, em tardes de inversão atmosférica. Atravessa as máscaras obrigatórias, resseca a boca, os olhos lacrimejam, racha a pele. Ao nível do chão, os animais morrem.
“Forma-se uma atmosfera pestilencial que uma bateria de ventiladores possantes procura inutilmente expulsar. Para longe dos limites do oikoumenê, palavra que os sociólogos, ociosos, recuperaram da antiguidade, a fim de designar o espaço exíguo em que vivemos. Vivemos?”

Após a primeira página já estava me vendo devorando todo o livro ali mesmo, em pé, naquele sebo relativamente bem movimentado. Larguei o livro do Rubens Paiva e o do Dostoievski para ficar somente com o do Loyola. Até agora (ainda estou lendo), não me arrependi, até porque os outros dois livros eu já li, embora almejasse tê-los em casa.
Depois de ter ouvido um comentário enervante da nada sapiente vendedora: “Livro de yoga?”. Putz! “É LOYOLA!” – disse eu quase tendo um colapso, saí do sebo com aquele sentir que ocorre quando se sabe que uma leitura pode acrescentar muito na existência, isso se não vier a influenciar tanto a ponto de modificá-la em muitos sentidos, como eu creio ser o caso de tal livro.

Na orelha do livro, algum crítico de meia-boca, escreveu que trata-se de uma história de amor. Como ainda não terminei a leitura, não irei me pronunciar quanto a isso que eu antecipadamente considero um comentário equivocado. Até o momento, o que deu para entender é que o livro é narrado em primeira pessoa pelo personagem principal: Souza. Um homem de seus cinqüenta anos, que jamais se resignou com o sistema castrante e que se vê perdido no meio de tantas amarras sociais as quais tão logo
impostas, são imediatamente aceitas pela massa com mentes atrofiadas. O surreal é confundido com o real. Loyola tenta prever como será a cidade de São Paulo num futuro próximo, mas a narrativa é engendrada no presente interno do próprio texto, ou seja, muitas situações inexistentes ainda hoje são enfocadas como parte do que já está ocorrendo há tempos.

Leitura envolvente, cheia de diálogos extasiantes entre Souza e todos os outros que não sabem mais pensar; um livro peculiar, um daqueles livros que não devem ser indicados para todos.

Alguns poucos, poderão entender e, mais do que isso, se ver no próprio Souza que é um extremado inconformado não só com sua vida pessoal e profissional como também com o mundo patético que, segundo ele, foram as pessoas (e ele, realista, não se exclui de tal grupo) que assim o deixaram desde o momento que o pensar foi abandonado numa sarjeta imunda.

11/09/2009

Twice: O Grupo Baader Meinhof

Assisti duas vezes ao filme “O Grupo Baader Meinhof” (Der Baader Meinhof Komplex). Por que o assisti mais de uma vez sendo eu uma pessoa não muito fã das telas? Bom, primeiro porque mesmo o filme sendo bastante longo (para alguém que não consegue se aquietar em frente a uma TV, mesmo que a tela do cinema seja bem maior, sempre fico inquieta e pensando que naquele exato momento eu poderia estar lendo), mais ou menos uns 150 minutos, como eu estava dizendo antes do meu enorme e talvez irrelevante parênteses, um dos motivos de ter ido assistir novamente ao filme foi o fato de ter encontrado nele muitos aspectos incomuns, como por exemplo: ser baseado num fato real de um grupo político extremista (embora tenha se tornado ou tenha sido considerado um grupo terrorista). E o que torna o filme ainda mais incomum é ver que alguém teve a empáfia de realmente fazê-lo, já que, embora seja uma adaptação, possui muito do que de fato deu-se historicamente.
Deu para perceber bem claramente que muito se confundia, assim como ainda se confunde hoje, liberdade com libertinagem. Uma cena é bem marcante: quando o grupo aparece realmente formado, com os principais membros, Andreas (um dos encabeçadores das idéias explosivas, o mesmo cujo sobrenome “Baader” constitui parte do nome dos revolucionários) decide roubar carros para todo o seu bando sair. Então, aparecem eles em mais de dois carros, correndo pelas largas avenidas, colocando seus revólveres pela janela do carro, atirando vez ou outra e proferindo “Isso dá uma sensação de liberdade”. Penso que se enganaram em muitos pontos. Penso que de fato erraram em muito, principalmente nesse quesito entre liberdade e libertinagem. Porém, o grupo acertou em outros pontos: lutavam inicialmente pela igualdade, pela supressão de um possível fascismo, o grupo nasceu com uma dose elevada ideológica e terminou com muita morte (execuções e suicídios) através de um radicalismo desenfreado.
Uma das idéias, digamos assim, saudáveis do grupo era a seguinte: “Protesto é quando se pensa em mudar; resistência - revolução - é quando se faz algo de concreto para mudar o que pensa não estar correto”. O que deu errado? O fanatismo? O sentimento excessivo e desenfreado de sexo, drogas e rock´n roll? Egocentrismos paradoxalmente alimentados por uma tentativa de bem comum? Bom, erraram feio promovendo uma revolução cheia de máculas e sangue, todavia, ao menos, foi uma tentativa de mudança em prol de vários. Pena que acabaram se perdendo no meio de tantos ideais e utopias comunistas.

Não os defendo e também não os condeno. O que faria se eu estivesse inserida naquele momento? Talvez participasse, talvez fosse uma revoltada colocando para fora minhas angústias sociais, talvez deixasse, como eles, depois de assaltar um banco o seguinte bilhete: “Desapropriem os inimigos do povo”. Ah, sim, talvezes aos montes. Talvez ainda, eu fosse apenas como a maioria: cheia de vontade de quebrar as barreiras do senso comum, mas nada de real fizesse, viria a ser uma resignada com muita verve de mudança e provavelmente morreria com ela sem ao menos ter feito uma tentativa prática.

E.. como eu permaneci assistindo até chegarem os créditos, fiquei aproveitando a música “Blowin´ In The Wind” do Bob Dylan e enquanto pensava sobre tantas problemáticas de ontem e hoje tocavam os primeiros versos da canção: “How many roads a man must walk down before you call a man” (Quantos caminhos precisa um homem percorrer antes de você chamá-lo de homem).

De resto, saí da sessão de cinema lembrando do que escrevera Ulrike Meinhof (uma jornalista que era simpatizante e, de certa forma, colaboradora do movimento RAF – Facção do Exército Vermelho): “Se alguém rouba um carro, comete um crime, mas se vários carros são roubados ao mesmo tempo, isso se transforma em ato político”.
Respostas para tudo isso? Bom, deixarei que o Dylan termine o post: "The answer, my friend, is blowin´ in the wind... the answer is blowin´ in the wind..." (A resposta, meu amigo, está soprando no vento... a resposta está soprando no vento).

Bukowski ilustrado por Robert Crumb

Dos três livros que li do Charles Bukowski (1920 – 1994), “O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio”, é a obra que mais me causou espanto. Não apenas por ter caráter biográfico (partes selecionadas pelo próprio Buk do diário dele para serem publicadas), mas também porque existem muitas doses de ácido existencialismo. Em meio à vida entre hipódromo e seu computador (aposentou a máquina de escrever, muito embora recorresse a ela quando o computador ia para o conserto), ele faz uma exposição de muitas das misérias humanas existenciais, das quais ele não se exclui. Renega poetas e outros escritores e afirma que este renegar é algo adorado e cultivado por quase todos os escritores. Cita Dostoievski, Fante, Saroyan como jogadores e apostadores como ele.

O velho Buk apresenta-se em tal livro não apenas maldito e sarcástico, mas também como um ser inusitadamente humano.


Algumas citações não poderiam faltar:

“Outro dia, fiquei pensando no mundo sem mim. Há o mundo continuando a fazer o que faz. E eu não estou lá. Muito estranho. Penso no caminhão do lixo passando e levando o lixo e eu não estou lá. Ou o jornal jogado no jardim e eu não estou lá para pegá-lo. Impossível. E, pior, algum tempo depois de estar morto, vou ser verdadeiramente descoberto. E todos aqueles que tinham medo de mim ou que me odiavam quando eu estava vivo vão subitamente me aceitar. Minhas palavras vão estar em todos os lugares. Vão se formar clubes e sociedades. Será nojento. Será feito um filme sobre minha vida. Me farão muito mais corajoso e talentoso do que sou. Muito mais. Será suficiente para fazer os deuses vomitarem. A raça humana exagera tudo: seus heróis, seus inimigos, sua importância”.


“Existem milhares de armadilhas na vida e a maioria de nós cai em muitas. A idéia, no entanto, é ficar fora de quantas for possível. Fazer isso te ajuda a ficar tão vivo quanto possível até você morrer...”.

“Na estrada, liguei o rádio e, por sorte, tocava Mozart. A vida pode ser boa em certos momentos, mas, às vezes, isso depende de nós”.


É do Robert Crumb as ilustrações. Fantásticas!!! E expressam bem as situações de Buk em toda a narrativa e principalmente nos momentos mais descritivos de críticas abrasivas.

10/09/2009

A hora do Pontal - comentário sobre a crônica do Juremir Machado da Silva

Como eu só leio jornal se for de algum tempo atrás, no feriado, encontrei um Correio do Povo com mais uma incrível crítica em forma de crônica do antagonista Juremir Machado. Tal crônica refere-se ao Pontal. Juremir, como eu, foi a favor do Não. E defendeu tal idéia de uma forma bem eloqüente e com ótimos argumentos. Ao terminar de ler a crônica me senti menos sozinha em minhas utopias no que se refere ao bem comum e ao fim de egocentrismos sociais exacerbados. Como escreveu o Juremir: “Eu sou atrasado. Quero um grande jardim na orla. Com um único dono. Nós”. E tão logo, me vieram à mente os versos da letra Imagine dos Beatles:

“You may say that I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday you'll join us
And the world will live as one”

E como eu fiquei postergando de colocar algo, aqui, logo depois que o Não! venceu (que vergonha, apenas vinte mil pessoas foram exercer a cidadania), deixo aqui exposta minha satisfação através da própria crônica do Juremir (clicando sobre ela é possível ler melhor):

07/09/2009

Greak Miracle

_Um fantasma!? – Henry coçou a cabeça, dubitativo.

_Um fantasma – confirmou o diretor do Museu. _É o que todos os guardas confirmaram. Surgiu de repente na seção de antiguidades gregas, onde o tesouro funerário de Agamenon estava sendo exposto e, de súbito, as jóias sumiram...

_Hummmmm... Tem dente de coelho nessa história – insistiu Henry. – Hoje vamos pernoitar no museu.

_Oh, por favor – implorou o diretor. _O senhor tem de achar o tesouro. Temos de devolvê-lo ao museu de Berlim, ao qual pertence. Ele estava aqui numa exibição provisória...

Na mesma noite, depois de se apagarem as luzes no museu, Henry, Camille, Charles e Richard, sorrateiramente, para não dar na vista dos eventuais ladrões, puseram-se a circular pelos corredores.
Tudo estava escuro e silencioso.
Na seção grega, os objetos iluminados das vitrines, espadas, vasos, terracotas, espelhos, faziam pensar em todo o tempo que se passara e nas histórias que aqueles objetos tinham presenciado. A vitrine onde fora exposto o tesouro roubado estava vazia.

_Mas quem era esse sujeito, afinal? – questionou Camille.

_Antes de tudo temos de saber se ele era realmente ele... – sorriu Charles.

_???

_Agamenon é um dos reis gregos citados por Homero no poema épico “Ilíada”.

_Sei: o poema que conta a história do rapto de Helena, esposa do rei Menelau, a mais bela entre as mulheres. O filho do rei de Tróia, Páris, raptou-a e levou-a para casa. Aí todos os reis da Grécia se uniram para vingar o “colega”. Durante dez anos sitiaram Tróia (também chamada Illion em grego) e por fim destruíram a cidade.

_Perfeito. Pois o principal rei grego a chefiar essa expedição vingativa foi Agamenon, irmão de Menelau. Mas, quando a guerra terminou e Agamenon voltou para casa, foi assassinado pelo amante de sua esposa. Clitemnestra. Ou pelo menos é isso o que conta a lenda. E seus dois filhos, Orestes e Electra, fazem tudo para vingá-lo. Esse, aliás, é o tema de várias peças do teatro trágico grego.

_Puxa! – exclamou Richard. _E esse tesouro que roubaram era mesmo o que fora colocado no túmulo de Agamenon?

_Isso nunca pôde ser provado e é mesmo improvável. O nome “tesouro de Agamenon” ficou mais por tradição. Mas, de qualquer forma, se não se trata do tesouro mortuário de Agamenon, pertenceu com certeza a outro rei micênico, como ele. Eles eram enterrados com máscaras de ouro e vários objetos sob cúpulas de pedra.

_Um rei o quê? – perguntou Camille. _Eu pensei que eles fossem gregos.

_“Grego” é uma palavra genérica. Serve para designar vários povos que, sucessivamente, até hoje, habitaram essa península montanhosa em forma de mão que estende seus dedos pelo Mediterrâneo e se prolonga numa multidão de ilhas e ilhotas. Uma das primeiras culturas dessa área é a cretense...

_Creta não é uma ilha relativamente grande, ao sul da Grécia?

_É. E foi o lugar onde se desenvolveu uma nação de navegantes e mercadores que acabou dominando boa parte desse pedaço do Mediterrâneo. Olhe para esses vasos.

_Desenhavam polvos neles...

_Polvos, conchas, peixes. Motivos de decoração de um povo marítimo. Além disso, desenhavam flores e touradas. Eles tinham um deus-touro.

_Sei. O famoso Minotauro do labirinto de Creta.

_Esse. Pois bem, ao mesmo tempo em que se desenvolvia a civilização marítima dos cretenses, aí pelas costas da Grécia desenvolvia-se a civilização micênica, da qual conhecemos bem os restos de Micena, uma de suas cidades, construída com enormes blocos de pedra. Como as duas culturas se interpenetraram, chamamo-las pelo nome único de cultura cretense-micênica. Agamenon foi um rei micênico.

_Hummmm – proferiu Henry, que vinha entrando após examinar as armadilhas antiladrão que estavam dentro de sua mochila. _Então a “Ilíada” foi escrita por poetas desse período micênio...

_Foi. Pelo menos as primeiras versões dela. Mas o extraordinário é que ela tenha sobrevivido.

_Por quê?

_Porque a civilização cretense-micênica foi completamente destruída por uma invasão de pastores bárbaros vindos das montanhas do norte. Esses nômades, os helenos, atingiram as cidades micênicas lá por 1100 antes de Cristo e, pouco depois, atingiram Creta e suas colônias. Se comparados aos civilizados micênios e cretenses, os helenos eram uns selvagens grossíssimos. As artes quase que desapareceram no começo de seu domínio. Por isso eu disse que é de se espantar que a “Ilíada” tivesse sobrevivido para ser lembrada. Mas, por fim, as duas culturas, a antiga e a nova, acabaram se unindo e produzindo um dos mais prodigiosos florescimentos culturais de que temos notícia: a civilização grega, ou melhor, a helênica.

_Olhem aqui!!! – disse Henry.

Pé ante pé todos seguiram-no pelos corredores até atingirem a seção medieval. Um armário estava aberto.

_Hummmm... – comentou Charles, examinando-o. _Alguém estava folheando os velhos alfarrábios de alquimia e necromancia.

_Do que?

_Necromancia era o nome da arte de evocar o espírito dos mortos. Reparem: abriram também a vitrine onde estavam guardadas as varas mágicas. Alguém estava interessado nas artes ocultas: cabala e astrologia.

_Que tal? – disse Henry atrás deles.

_Perfeito – riu Camille ao voltar-se, vendo-o coberto por manto e capuz estrelados de mago. _Você parece um feiticeiro.

_Pareço só, não – brincou ele. E com voz cavernosa, agitando a vara mágica, acrescentou: _Hocus Pocus!

Instantaneamente foram envolvidos por um tremendo fragor. Berros, uivos agoniados, entrechocar-se de armas, o estrepitoso rolar dos carros de guerra!

_Henry! – berrava Camille. _Onde você está!? Pare! Pare, Henry!

Henry agarrou-a e puxou-a para longe da confusão, desviando-se das espadas e setas que passavam sibilando.

_Pare! Pare! – continuava chorando Camille, que tapava os olhos. _Chega dessa brincadeira! Pare!!!!

_Não posso – retrucou ele, escondendo-se com ela atrás das pedras.

_Por que não!?

_Porque não tenho a menor idéia do que aconteceu!

_Mas onde estamos? Aqui é dia claro e estávamos na noite escura lá no museu. Quem são todos esses homens encouraçados brigando?

_Não sei, estou dizendo. Para mim parecem soldados gregos de 2000 anos atrás...

_Gregos?

_Gregos e persas.

_Persas?

_É. Estou reconhecendo porque eles se vestem como aquelas estátuas e afrescos que vi no museu.

_Mas...

Não completou a frase: sentira o aço frio da ponta de uma espada encostar-se em suas costas. Voltou-se lentamente para ver um grego de olhos mortiços junto à pedra. Com uma das mãos ele segurava uma grande ferida na coxa e com outra brandia a espada.
No mesmo momento Charles, coberto de poeira, emergiu de trás da pedra, disse delicadamente “Desculpe” e tirou a espada da mão do ferido. Por um instante o outro olhou-os surpreso. Mas não tinha forças para opor nenhuma resistência. Deixou-se escorregar até sentar no chão e gemeu:

_Por Zeus misericordioso, eu vos imploro, não me entreguem a seus amos. Tenho filhos e esposa em Atenas.

_Hummm?

_Vejo pela roupa que vocês não são gregos. Devem ser, pois, escravos do exército do grande rei, não?

Henry começou a examinar-lhe a ferida, assegurando ao rapaz que não iam entregá-lo ao grande rei de quem, fatalmente, um prisioneiro de guerra se tornaria escravo.

_Mas que grande rei é esse de que ele está falando? – indagou Camille.

_Se é o que estou pensando – retrucou Charles espiando perplexo para a luta -, é Dario I, rei da Pérsia. Diga, amigo, que lugar é este? – perguntou ao ferido.

_Estamos em Plantea – retrucou o rapaz num gemido.

_Então – prosseguiu Charles – o que assistimos é o encontro final que encerrou as guerras entre persas e gregos: a batalha de Plantea em 479 a.C. Repare como os gregos se vestem de maneira mais ou menos uniforme, enquanto seus adversários usam todo tipo de roupas e armamentos. Isso é porque o exército de Dario, o rei dos reis, é recrutado nos quatro cantos do império persa, formado por povos diversos. E estou vendo, aliás, que Heródoto era um sujeito um tanto exagerado. Aqui tem muito menos gente do que ele disse...

_Quem? – indagou Camille, que rasgara a blusa com os dentes e cortava uma atadura para o ferido.

_Heródoto de Megara é o historiador grego que nos deixou o relato destes fatos, descrevendo-os com muito brilho e competência. Aliás, a posteridade chamou-o “pai da história”, porque será reconhecido como o primeiro verdadeiro historiador e não um simples cronista.

_Não entendo a diferença – replicou Henry.

_Antes de certos literatos gregos, como Heródoto, Tucídides, Xenofonte e outros criarem uma nova disciplina – o estudo da história humana – o que havia era gente que sentava e escrevia: “Hoje dia tal, o rei fulano fez tal coisa, ou a rainha fulana deu um espirro”. Com esses gregos surgiu a preocupação de escrever os fatos do passado com rigor, detalhando-os, concatenando-os entre si e tentando explicá-los. Isto é, nasceu a idéia da narração histórica como nós a conhecemos.
O rapaz olhou-o fixamente:

_O senhor é um vidente? Se for, gostaria de saber o que se passou com minha família...

Charles indagou:

_Ela estava em Atenas?

_Sim.

_Então, não tenha receio. Desta vez o exército persa não chegou a devastar sua cidade.

_Zeus seja louvado! – exclamou o rapaz feliz. _E você também, mensageiro de boas notícias!

_Acho que os gregos, apesar de estarem em inferioridade numérica, estão ganhando... – comentou Henry, olhando para a batalha. _Estão lutando muito bem.

_Que remédio – suspirou o ferido. _Se perdêssemos, nunca mais seríamos livres e todos os anos as cidades gregas teriam de pagar pesados tributos ao rei dos reis, como têm de fazer os infelizes gregos das cidades jônicas. E o traidor Hípias, que se passou para o serviço do grande rei (Zeus o fulmine com seus raios!), triunfaria em Atenas.

Camille olhou aflita para Charles. Não estava entendendo coisa alguma de toda aquela história.

_A Pérsia é um grande império – explicou ele – que se estende por todo o planalto do Irã, desde as fronteiras da Índia até as praias do Mediterrâneo. Nessa região costeira chamada Jônia, há uma multidão de ilhas, com muitas cidades gregas submetidas ao império persa.

_Mas o império grego...

_Não existe tal coisa – interrompeu-a Charles, esticando a perna do rapaz para que Henry pudesse apertar bem a atadura sobre a ferida. _Os gregos não são reunidos num Estado único. O que há é uma multidão de cidades gregas, todas independentes uma da outra: Atenas, Esparta, Mileto, Corinto, Tebas, etc. São as polis, ou cidades-Estados. Em casos graves como esse – a invasão persa –, premidas pelas circunstâncias, elas se esquecem de suas rivalidades e se reúnem numa aliança passageira. Entretanto, normalmente, apesar de falarem a mesma língua e possuírem culturas semelhantes, os gregos não param de lutar entre si, polis contra polis.

_Mas por que não se unem? – estranhou Camille.

_Ora, minha senhora... – riu o soldado ferido, que achara tanta graça na observação a ponto de se esquecer da dor. _Mas, como é que eu, um ateniense democrata, poderia viver numa só polis com um lacedemônio bronco?

_Lacedemônios são os espartanos – explicou Charles. _Os atenienses não gostam muito deles. E de fato ia ser difícil essa convivência. Esparta é uma coisa esquisita: uma sociedade de comunismo aristocrático.

_!!!!!!!!?????

_Simples: os aristocratas de Esparta possuem a terra coletivamente e vivem numa vida comunitária e rigorosa; passam a adolescência numa espécie de quartel onde tanto os homens quanto as mulheres aprendem a lutar, comendo as refeições na mesa comunitária, etc. Mas a terra é cultivada por escravos: os ilotas, que são os descendentes da antiga população local dominada pelos novos invasores, a aristocracia espartana. Os espartanos só se preocupam com guerra e treino de guerra. Essa cidade nunca esculpiu uma estátua importante, nunca escreveu um poema que mereça ser lembrado. Só sabem lutar, o que aliás fazem muito bem. Mas aos atenienses isso parece muito bárbaro.

_E não é? – estranhou o ferido. _Isso lá é maneira de se viver? Quem passar alguns dias em Atenas, a mais bela cidade do mundo, nunca mais se acostumará a viver entre aqueles selvagens. Quem passeia pela ágora de nossa cidade (ágora é a praça central onde todo mundo passa) ouvirá os filósofos discutindo com seus discípulos, os políticos democratas mostrando as iniqüidades da aristocracia, arranjará entradas para o teatro, ouvirá os poetas e apreciará a graça ática de nossas jovens...

_Ática – concluiu Charles, que acabara de fechar a ferida do rapaz – é o nome da região de Atenas. E o nosso amigo aqui acha, como todo mundo, que as mulheres de sua terra são as mais graciosas do universo. Talvez ele tenha certa razão. Para nós, Atenas, cidade culta, deveria ser mais agradável do que Esparta, cidade sombria e feroz.

_Então, vossa cidade é democrática e não tem escravos? – disse Camille. _Gostei. Esse negócio de escravidão nunca me agradou...

Henry riu vendo a cara do rapaz que, finalmente, conseguia sentar-se.

_Mas, se não tivéssemos escravos – espantou-se ele –, quem faria os trabalhos pesados e degradantes, minha senhora? Ou a senhora imagina que eu, cidadão livre e estudioso de filosofia, vou carregar água, limpar ruas e cuidar dos porcos?

_Mas você acaba de dizer que é um democrata – estrilou Camille.

_Calma, calma – interveio Charles. _Com o tempo, as palavras mudam de sentido. Ele deve ser um membro sincero do partido democrata que, em Atenas e em todas as cidades gregas, luta contra os aristocratas. Estes, em geral, são grandes senhores da terra, enquanto os democratas são mercadores, empregados, artesãos, gente que em nosso tempo diríamos das classes médias. Eles realmente queriam tirar o poder tradicional da nobreza da terra e passá-lo para as mãos do povo da cidade. Só que “povo”, para eles, não inclui os escravos. Assim como Esparta é um comunismo aristocrático, Atenas é uma democracia escravagista. Ambos os conceitos parecem um tanto absurdos para nós do século XX. Mas não podemos entender uma época se a observarmos pelos padrões, conceitos e maneiras de julgar de outra. Só que, agora, temos de cair fora daqui, porque essa ala do exército grego parece que está cedendo e a batalha vai se aproximar de nosso esconderijo...
Amparando o rapaz, que capengava, mas como bom soldado, não se lamentava, dirigiram-se à beira de um rio, onde um grupo de soldados gregos feridos fora carregado para a retaguarda. Juntamente com eles, um cavaleiro passou gritando:

_Vocês têm de se afastar! Salvem-se! Os persas furaram nossas linhas! A batalha está indecisa!

Vendo a cara consternada dos feridos, Charles disse:

_Calma, minha gente. Não há o menor perigo. Essa é a última investida deles. Dentro de... – olhou para o relógio de pulso – meia hora, estarão em completa debandada. Vamos sentar e descansar.

_Podem acreditar nele – confirmou o rapaz – é um vidente.

_Que deus te inspira? – perguntou um deles.

_Hummm... Clio! – retrucou Charles.

_Quem? – quis saber Camille.

_É uma das musas, a patrocinadora dos historiadores – explicou Charles.

_Proponho então um brinde à musa quem tão bondosamente protege os gregos –disse outro soldado. E passou um odre, uma pele de porco costurada, cheio de vinho.

Todos tomaram um gole, enquanto alguém repartia um queijo de cabra e outro oferecia azeitonas.

_Isso que você olhou é um amuleto da deusa? – indagou por fim o rapaz apontando o relógio.

_Ahnn, não. É uma máquina de marcar o tempo. Algo como uma clepsidra mecânica. A de vocês é movida a água, não?

O rapaz olhou o relógio de Charles, contemplou os ponteiros que se moviam e sussurrou:

_Fantástico! Qual o artesão tão habilidoso que construiu esse incrível aparelho?

Vendo que ia ser difícil explicar, Charles tapeou:

_Recebi-o diretamente da deusa para não me enganar quando tiver que escrever a data dos acontecimentos.

_Então, vidente, conta-nos qual será o destino de nossa terra.

Charles sentou-se, aceitou o queijo e começou:

_Esta batalha de Platea será aquela que resolverá definitivamente as guerras com os persas. A Grécia emergirá fortificada destas amarguras. Muitas das cidades gregas, entretanto, continuarão temendo a invasão persa. Por isso se reunirão na Liga de Delos. Mas o tesouro da liga sairá de Delos para financiar a reconstrução de Atenas, destruída pelos persas. E esse será o início da supremacia de Atenas sobre as cidades gregas.
Os feridos atenienses prestavam atenção intensa, mas um dos espartanos, indignado, mandou Charles calar a boca.

_De que adianta que ele se cale? – argumentaram os atenienses. _Ele está apenas dizendo como as coisas serão...

_Elas nunca serão assim – enfurecia-se o outro. _Atenas nunca dominará Esparta! Nunca!

_É verdade – concordou Charles. _Atenas nunca estenderá sua supremacia a Esparta. Seu império, se podemos classificar assim, o predomínio comercial e militar de Atenas sobre as outras cidades gregas, nunca será reconhecido por Esparta, o que acabará levando a uma guerra entre as duas. Uma guerra longa e amarga, que passará à história como a guerra do Peloponeso, porque se travará principalmente naquela região. Esta guerra marcará também o início da decadência grega...
Pela cara dos ouvintes, Charles percebeu que, agora, não estava agradando a ninguém e apressou-se em dizer:

_Essa decadência será compensada pela importância que a cultura grega adquirirá no mundo, depois que a Grécia foi conquistada pelos macedônios.

_Por QUEM? – estranhou um dos feridos.

_Já ouvi falar deste povo – riu outro. _Uns selvagens que vivem lá para o norte, entre as montanhas. Eles nunca conquistarão a Grécia. Esse vidente se engana ou um mau deus lhe inspira loucuras.

_Hoje eles são um povinho bárbaro – insistiu Charles – e a vocês parece impossível que um dia possam vir a dominar as civilizadas cidades gregas. Entretanto, por mais que isso pareça incrível, um rei da Macedônia, aliás grande admirador da cultura grega, chamado Filipe (ele ainda não nasceu) se tornará senhor de toda a Grécia e todas as polis lhe prestarão tributo. Ele sonhará conquistar a Ásia e dominar a Pérsia com os exércitos gregos. Mas não o conseguirá: morrerá antes disto. Quem completará sua obra será seu filho, Alexandre. Com apenas 22 anos, este rapaz, à frente dos exércitos reunidos em todas as cidades gregas, conquistará toda a Ásia e atingirá a Índia, país tão distante que vocês mal têm notícia dele.

_Mais longe que o Egito? – perguntou um dos feridos, para quem, evidentemente, o Egito parece ser perto do fim do mundo.

_Muito para lá – e Charles fez um gesto vago. _Graças a esse rei de um povinho que vocês consideram bárbaro, mas que será educado por um grande filósofo grego, Aristóteles (ele também ainda não nasceu), a cultura grega será conhecida por todo o mundo. Dentro de 2000 anos haverá na Índia templos dedicados à memória de Skander, isto é, Alexandre, o Grande.

_E depois?

_O império de Alexandre durará o breve tempo de sua breve vida. Mas, quando ele morrer, o mundo já conhecerá a cultura grega. Um dos generais de Alexandre se tornará faraó do Egito, fundando a dinastia dos Ptolomeus. E no Egito, na cidade fundada por Alexandre, Alexandria, florescerão a filosofia grega, a cultura grega, a matemática grega. Os futuros dominadores do Mediterrâneo, os romanos, aprenderão civilização com a Grécia. Quando todo o poder político e militar das pequenas e turbulentas cidades desta península tiver desaparecido, o mundo aprenderá com a tradição cultural que elas criaram. Esse período, no qual a Grécia será dominada pelos estrangeiros mas sua cultura se espalhará pela Europa, Ásia e África, será conhecido como o período helenístico. E dentro de 2500 anos, em países que ainda nem existem, peças gregas ainda estarão sendo representadas nos teatros, filósofos estarão sendo lidos nas escolas, escultores e arquitetos gregos serão citados e lembrados.

_Teatro? – sorriu um deles. _Até isso? Uma arte tão inferior? E a pintura? E a música?

_Infelizmente, nada destas artes gregas será preservada ou quase nada. Mas por que você acha o teatro uma arte inferior?

Os outros riram divertidos:

_O Ésquilo está troçando, vidente. Ele escreve peças de teatro...

_ESQU???? – Charles perdera a fala. _ESTOU FALANDO COM ÉSQUILO??????

_Ésquilo, para servi-lo, amigo vidente – confirmou o homem.

_Mas você não imagina!!!!! – explodiu Charles recobrando a fala. _Você será conhecido como um dos maiores autores literários de todos os tempos! Gerações e gerações de escritores o reconhecerão como mestre! Sua trilogia de peças, a “Orestéia”, onde você conta a tragédia dos filhos de Agamenon...

O outro interrompeu-o:

_Calma, amigo, calma. Logo vi que você estava me confundindo com outro. Nunca escrevi esta peça.

Charles fez as contas de cabeça.

_De fato, você não a escreveu ainda. Vai escrevê-la dentro de 21 anos. Mas dentro de sete vai escrever “Os Persas” e...

_Mas o que ele fará de tão importante? – estranhou um dos homens, passando um pedaço de queijo a Ésquilo.

_Seu amigo mudará a história do teatro – explicou Charles. _Vocês, gregos, são os criadores do teatro futuro. Até agora, o espetáculo teatral tinha um só ator e um coro que comentava suas façanhas ou falas. Ésquilo introduziu um segundo ator, inventando o diálogo. E o teatro moderno do futuro será feito principalmente de diálogo.

_Serei lembrado por 2000 anos por uma invençãozinha tão banal? – estranhou o escritor. _Qualquer idiota poderia ter feito isso...

_Não precisa ser modesto. E, além disso, você será lembrado pela extraordinária qualidade literária de seus textos. Você será reconhecido como pai da tragédia.

Camille rasgara mais um pedaço de sua blusa e pediu ao escritor:

_Não quer me dar o autógrafo?

Como não havia tinta, o escritor atrapalhou-se. Por fim resolveu o problema mergulhando um pauzinho no sangue da ferida e fazendo uns garranchos sobre o pano:

_Aqui está, gentil dama.

Do campo de batalha soaram trombetas e rufaram tambores. Outro cavaleiro que passava por eles gritou:

_Vitória! Vitória! O sátrapa do rei dos reis está-se retirando! Toda a ala central de seu exército debanda!

_Você viu certo, vidente – notou Ésquilo. _Meia hora cravada e eles foram derrotados. Acho que vou colocá-lo como personagem de uma de minhas peças. Como se chamam vocês?

_Charles Fitzgerald – disse o sábio com a voz embargada, pensando que ia entrar para a história da literatura pela mão de um dos grandes. _Ele é Henry e ela Camille.

_Então, meus caros, gostaria que vocês fossem meus hóspedes em Atenas.

A volta para Atenas depois da batalha foi coisa meio complicada. Ésquilo era de família nobre e tinha vários escravos e carros puxados a cavalo à disposição. Mas eles iam atulhados de feridos pertencentes a várias classes. Havia nobres de partido aristocrático e artesãos do partido democrata. Mas havia também muitos escravos, porque, no desespero, Atenas tinha mobilizado todas as forças. Outros eram metecos.

_E o que é isso? – indagou Henry.

_Significa estrangeiros residentes em Atenas – explicou Charles. _Podem habitar a cidade, comerciar, etc., mas não têm os direitos de cidadão.

No caminho, quase entrando na cidade, encontraram um grupo de marinheiros que voltava da batalha naval do cabo Micale, onde a frota grega desbaratara a persa. Entre os jovens saídos da cidade, que procuravam notícias com os marinheiros, encontrava-se um rapaz de uns treze anos com uma nuca proeminente. Dois velhos o acompanhavam.

_O almirante está bem, senhor Péricles – disse um dos marinheiros, que reconhecera o menino.

Henry cutucou Charles com o cotovelo:

_Você ouviu? Péricles! O futuro manda-chuva de Atenas.

_Ouvi. Seu pai é Xantipo, um dos estrategistas atenienses. Ele acaba de derrotar os persas no mar. Apesar de ser uma família das mais nobres, Xantipo é um dos chefes do partido democrata. Mas estou curioso para saber quem são esses dois velhos. Desconfio que...

_Zeus seja louvado, Anaxágoras! – exclamava o jovem Péricles, sorrindo para um dos velhos.

_Anaxágoras! – berrou Charles dançando num só pé. _Vou conhecer Anaxágoras!

_Mas quem é esse velho pra provocar tanto entusiasmo? – indagou Camille.

_Um dos pais da filosofia, Camille! E o outro deve ser Zenon de Eléia. Os dois foram os professores de Péricles, quando criança! Foram eles que fizeram de Péricles o maior estadista da Grécia, um racionalista convicto.
Ésquilo, que se aproximava, apresentou-os aos filósofos e ao jovem aristocrata, e convidou todos para jantar à noite, onde relataria as peripécias da batalha de Platea, que durara vários dias (eles tinham chegado já no fim).
A casa de Ésquilo, fora da polis, não sofrera grandes estragos com o saque dos persas, no ano anterior. Os escravos domésticos tinham-na adornado para receber o dono que voltava com seus agregados e familiares. E à noite começaram a chegar os convidados.
Os três receberam roupas gregas limpas. Camille gostou muito do quíton, a túnica que era vestida sobre o corpo, e do peplo, um manto que se deixava cair pregueado sobre o quíton. Em caso de frio, a pessoa se envolvia completamente nele. Havia alguns de lã, bordados em fio de ouro. No calor, deixavam-no cair livremente pelos ombros.
Uma escrava entrou para arrumar ao cabelo de Camille, enquanto outras perguntavam a Charles e Henry se não queriam tomar um banho quente. No banho encontraram Ésquilo e Anaxágoras mergulhados na água fumegante.

_Nosso amigo Ésquilo – disse o filósofo – me contou que você profetizou o destino da Grécia. Acho extraordinário que alguém se lembre de nós daqui a 2500 anos, já que nós, por exemplo, não temos memória alguma de povo que tenha vivido há 2500 anos. Só os egípcios e caldeus têm essa pretensão. Falam em livros com 10 000 anos de idade que seus deuses lhe teriam deixado...

Charles sorriu;

_Percebo que você desconfia, e com razão, da antiguidade destes livros. De fato não são tão antigos assim. E um dia, no futuro, a memória de todos estes textos sagrados e apócrifos não passará de mera curiosidade. Mas as idéias, suas, de seu amigo Zenon e de vários outros “amigos da sabedoria” (“filósofos” quer dizer isto – acrescentou para Henry), que hoje pensam e ensinam nas cidades gregas da costa jônica, serão lembradas entre as coisas mais importantes do “milagre grego”.

_Milagre?

_É o nome que o futuro dará ao extraordinário florescimento da cultura grega. Mais que como criadores do teatro, da poesia épica e lírica, e de tantas outras coisas, os gregos serão lembrados como o povo que criou a filosofia e lançou as bases da ciência.

_Por Hércules! – riu o filósofo. _Muito lisonjeador isso. Mas um tanto injusto. Sempre houve amigos da sabedoria entre os egípcios, caldeus e mesmo persas.

_Mas há uma diferença fundamental, Anaxágoras. Eu li suas explicações sobre a origem dos eclipses solares. Elas são completamente diversas das que fornecem os astrólogos egípcios ou caldeus. Eles atribuíam a causa dos eclipses a seres ou forças sobrenaturais. Você atribui a origem dos eclipses a causas naturais, ao movimento dos astros. E a idéia da procura das causas naturais será a idéia-mestra da ciência do futuro. Até ontem, os astrólogos e pensadores de outros povos não separavam causas naturais e idéias religiosas ou mágicas. A primeira escola de pensadores que fez isso foi a grega.

_Então nossas explicações sobre o universo serão reconhecidas amanhã como verdadeiras? – interessou-se o filósofo, já meio invisível entre o vapor.

_Eu não disse isso. No futuro não se acreditará que o universo é composto apenas por quatro elementos, água, fogo, terra, ar, nem que os astros estão presos a esferas invisíveis girando umas sobre as outras, nem em tantas explicações que os filósofos da Jônia fornecem. Mas a atitude que os levou a encontrar essas explicações, a atitude de raciocinar sobre os fenômenos, descartando causas sobrenaturais e procurando leis e princípios naturais, essa atitude será a grande contribuição dos filósofos da Jônia à história do pensamento humano.

_Vejo que você fala só dos “amigos da sabedoria” nascidos nas ilhas Jônias – disse a voz de Ésquilo, atravessando um vapor cada vez mais espesso. _E os outros?

_Por enquanto – retrucou Charles agitando as mãos para afastar os torvelinhos brancos –, os pensadores gregos importantes vieram de lá. Mas a chegada de Anaxágoras em Atenas vai mudar isso. Entre seus alunos, contam-se, além de Péricles, que terá grande importância no florescimento cultural desta cidade, um rapaz chamado Sócrates...

A voz do invisível Anaxágoras atravessou o calor branco e sufocante:

_Sócrates? Ah, sim, um garoto de nove anos, feioso e inteligente, que o pai mandou estudar em minha escola...

Charles pensou que tinham de sair daquele banho. Iam sufocar! Mas ainda acrescentou:

_Pois é, depois dele a história da filosofia será outra. Sócrates deixará de se preocupar com as causas dos fenômenos naturais, cuja explicação será cada vez mais delegada às ciências, e encaminhará a filosofia para o estudo do ser humano. Com ele se iniciará a grande escola da filosofia ateniense, com objetivos algo diversos da jônica. Tanto que vocês, seus predecessores, serão chamados os pensadores pré-socráticos... Mas, amigos, temos de sair daqui. Não consigo mais respirar! Henry? Henry!?

Em vez de Henry, a voz de Ésquilo, deformada pela distância imensa ao atravessar a parede branca, perguntou:

_E o tesouro de Agamenon?

_Ah, o tesouro... – murmurou Charles, que desmaiava. _Que sabe você dele? Eu... eu... socor...

_CHARLES!!!! CHARLES!!!! – gritava Anaxágoras de sobre uma montanha longínqua. _Charles, você será meu continuador! Acorde!

Nos lábios de Charles aparecia um sorriso cadenciado pelo seu ego.

Quando abriu os olhos, Camille o abanava:

_Acorde, Charles! Acorde!

Charles sentou-se entre as vitrines:

_Hummmm? Cadê o Anaxágoras?

_Você quer dizer o ladrão do museu? – riu Henry. _Ele ia escapando, mas você o agarrou. Só que a armadilha com gás soporífero atingiu os dois. Vocês dormiram alguns minutos, só.

_Só? – riu o sábio coçando a cabeça, ainda meio atordoado. _Para mim pareceram 2500 anos...

06/09/2009

Homenagem a Giuseppe Archimboldo

Giuseppe Archimboldo merece minhas honrarias exacerbadas não apenas por sua arte ser muito referente ao meu manifesto ligado ao vegetarianismo, mas também por toda a sua inovação artística:

Gardener Invertido (?) - Giuseppe Archimboldo


The Fire 1556 - Giuseppe Archimboldo

Librarian 1556 - Giuseppe Archimboldo


Flora 1591 - Giuseppe Archimboldo


Winter 1573 - Giuseppe Archimboldo


Um homem de talento ou de boa vontade tem o direito de movimentar a maquinaria da sua imaginação. Os indivíduos que dispõem deste aparelho, são, mais ou menos, como aquele célebre cavaleiro de Rochas, que pôs em alvoroço, há bastante tempo, a imprensa parisiense. A quem o visitava no seu vasto apartamento, mostrava esse famoso prestidigitador os seus gabinetes de estudo, onde os tapetes e bambinelas se estendiam, preguiçosos, pelo assoalho, pelas janelas, pelas paredes. Em cada um deles se estampava, como nas tapeçarias comuns, uma cena, um objeto, uma paisagem: moinhos, pastores, rebanhos, castelos, florestas, lagos em que flutuavam cisnes indolentes, árvores em que se agasalhavam pássaros satisfeitos, vegetais e frutas com suas polpas tão ou mais interessantes e vivas do que as reais.
De repente, o prestidigitador vibrava a sua vara mágica, e tudo aquilo se punha em movimento: cisnes, pastores, moinhos, rebanhos, árvores, frutos, flores animavam o panorama em que se manifestavam todas as características da natureza e da vida...
As pessoas que dispõem de imaginação fazem, repito, como o cavaleiro de Rochas: tiram um mundo do nada!

Contrária languidez


Antagonizando a languidez poética de Florbela Espanca, fiz renascer (Ela está em alguma postagem de outrora) certa Florfeia Não Espanca através de uns versos contrários.

Que a Bela não repare na insânia da Feia ou que repare e a condene ao pior dos fados:


As pálpebras não são mais roxas, muito menos quase pretas
Não almejam mais pousar em violetas
Asas não estão cansadas, apenas desaprenderam a voar

Sem beijos mudos
Sem mãos comparadas a pálidos veludos
Será que existiram gestos de sonho pelo ar?

02/09/2009

Thus quoth the Ravenno, nevermore

Era sexta-feira. Pleno dia veranil, muito embora ainda fosse inverno. “Inverno!!!!”, berrou Ravenno no meu ouvido esquerdo ao ler por cima do meu ombro o que eu escrevia . Ele não é adepto de bazófias, mas é hiperbólico em algumas questões; quando gosta de algo não esconde, seria capaz até de pintar na parede do quarto alguma ode indecente sobre seu amor pelo inverno. Desde o dia em que descobri Ravenno sentado na ponta da minha cama pensando como tinha ido parar ali, não pude mais não pensar em escrever sobre ele. Ravenno era um desses ícones disformes, antagônicos, taciturnos e estranhos que fazem parte de uma cidade, mas que jamais são realmente notados a ponto de receberem comentários como “olha vejam, é o Ravenno indo para o museu”. Ah, não!! Ravenno não recebia comentários assim.

Meio sorumbático, saiu de casa e a vespa da praga ficou lhe picando a orelha esquerda. Talvez ela quisesse alertá-lo que sair num dia como aquele, para um ser como ele, seria quase pior do que ser imolado. Afastou a vespa com alguns tapas no ar e disse a si mesmo: “é o último dia para ver o Gogh”.

Ravenno adora o advérbio condicional “se”. Quando leu num livro que um personagem desejou ter como epitáfio somente a partícula “se”, ele viu-se chateado por perceber que um autor plagiou sua idéia. Foi conferir a data de publicação do livro: ele não era nem nascido. “Mas como pode alguém com a mesma idéia que eu? Era minha tal idéia... antes de ser minha já era dele e ele mesmo estando morto agora deixou imortalizado que ela sempre será dele, porém, vou me consolar dizendo-me que ninguém mais leu tal livro, logo, não descobrirão que ela não me pertence se eu sair por aí dizendo que quero meu epitáfio com tal palavra. Até porque se descobrirem, do que podem me chamar? De 'ladrão do se alheio?'. Se me chamarem assim, direi 'eis o que sou' e poderei descansar sabendo que pelo menos alguém ficou sabendo e nada fez por não ver relevância alguma”.

Não, ele não veria Vincent Van Gogh porque o pintor morreu há pelo menos alguns séculos atrás. Poderia apreciar os quadros dele que estavam expostos no museu da cidade. Isso se ele conseguisse chegar até lá. Incrível como Ravenno era cético, e o era até mesmo nas coisas mais simplórias, como sair de casa, chegar em frente ao museu, entrar, maravilhar-se com o que tinha em mente maravilhar-se e aí sair fascinado, boquiaberto, exultante. Até o último momento (o último degrau da escada do museu) ele ficava cético. Pensava ele “E se me interromperem? E se eu encontrar alguém que conhece minha mãe e aí queira falar-me um recado para ela? E se for pior? E se eu encontrar alguém que eu não conheça e que não me conhece mas quiser saber algo como as horas e aí descambar a me falar da própria vida? E se eu como sempre ficar com cara de idiota e logo após me livrar da criatura estiver tão exaurido e ridiculamente possesso comigo mesmo que não terei a capacidade de mais nada ver no museu e o que me sobrar for somente voltar para casa com meus resmungares tartamudos? Mas e se...?”.

Pois é, e se ocorresse um vendaval de idéias na mente de Ravenno e ele decidisse escrevê-las ao invés de entrar no museu? E se ele, num último segundo, almejasse tudo menos estar lá? E se... bom, devo ter sido contagiada pela mania de Ravenno pelo verbete “se”. Mas não deixarei que isso atrapalhe o transcorrer da narrativa. Ao menos, não muito.

Centro da cidade. Um pouco de caos espalhado por todos os lados, pois sexta em fim de tarde é assim mesmo. “Mas era fim de tarde há meia hora? Eu jurava ter saído de casa antes do meio-dia...”. Aqui, chega um momento tenso em que personagem começa a encontrar algumas falhas na narrativa do autor, porém, mesmo sabendo-se que o mais forte é sim o personagem, o autor, no caso, eu, não deixará que ele interfira muito nesta parte. O certo mesmo é que era uma sexta. O horário poderia ser qualquer um entre dez da manhã e seis da tarde. “Acontece que eu preferiria que fosse pela tarde, pois geralmente não saio pela manhã”. Agora, o personagem quer tentar algum tipo de monopólio do texto. Será que deixo? Bom, seja como ele quiser. Afinal, estou escrevendo sobre ele. Mas... sair antes do meio-dia de casa significa que saiu ainda pela manhã e como pode ele dizer que não sai de casa, se disse ter saído? O problema é que estamos nos apegando em detalhes. Proponho darmos prosseguimento ao texto. Pode ser? Ele não vai responder. Nem me escuta mais. Está entrando no museu. Vejam ele... está até com uma expressão menos cética, embora ainda muito pensativo. A porta foi fechada atrás de Ravenno. Eu deveria ter ido junto, mas seria muita invasão. Melhor que fosse só. Assim, ele poderá me contar como foi e chegará empolgado, espero. Se bem que nunca vi Ravenno empolgado. Mas.. quem sabe!

Algum tempo depois, visualizo Ravenno descendo os degraus. Será que eu me aproximo para saber como foi que se sentiu ou espero que ele chegue? Melhor esperar. Por que a gente nunca faz, em casos extremos, o que pensa que é melhor? Ele estava chateado com algo. Esperei que dissesse ao menos “droga, quero ir pra casa”. Mas ele nada dizia, ficava ali parado com aqueles olhos de timidez grudados ao chão limoso. Olhei para onde ele olhava e vi seu pé esquerdo chafurdando no limo, deslocava-o um pouco e logo deu um chute fazendo o pedaço de limo saltar e cair logo sobre seu pé. Eu não poderia dizer “fala alguma coisa, Ravenno”. Eu nunca interferia assim na vida dele. Mas eu estava ficando agoniada com aquela expressão de desapontamento dele. Fui saindo e vi que ele permanecia lá olhando para o pedaço de limo sobre seu pé como se não pudesse fazer nada para mudar aquilo. Como eu queria saber se ele havia apreciado os quadros do Gogh... será que ele não me diria?

Não sei por onde Ravenno andou. Nem sei por onde eu andei. Provavelmente a sexta ainda não havia transcorrido ou se transcorreu foi com muita pressa. Ravenno também não viu o tempo passar, se viu nem me comentou. Agora ele estava lá sentado na cama olhando para a parede onde estava uma réplica do quadro “Esqueleto fumando um cigarro” - 1886 do Van Gogh. Eu continuei escrevendo, já nem queria saber nada. Todos aqueles “e se?” já estavam me atormentando além da conta. Por mim ele poderia ficar a madrugada todo se indagando qual era a perspectiva melhor de se visualizar a obra.


Depois de um tempo precisei pegar um livro no quarto. Ele ainda estava lá sentado olhando para a parede em que estava o quadro. Pensei até em mover uma ponta da moldura para ter certeza de que ele o olhava, mas não fiz nada. Ele disse com desprezo: “prefiro outra pintura, aquela ‘campo de trigo com corvos’, ele a pintou apenas alguns dias antes de morrer”. Suspirei enfadonhamente. Sempre gostei bastante daquele da caveira, gostava de outros também, mas se Ravenno gostasse mesmo de Gogh teria seus próprios quadros e não ficaria às voltas dos meus. Odeio personagens que adquirem muita relevância porque geralmente se tornam ingratos, exatamente como Ravenno. Ah, se eu pudesse me livrar dele... se bem que não é tão complicado. “Não, não é tão complicado mesmo”, voltou Ravenno de seu transe e me disse tal frase para me lembrar que ele poderia interferir quando quisesse em meus pensamentos. Ele queria saber se eu ainda desejava ouvir suas críticas sobre a ida ao museu. Eu me controlei e não respondi. Agora a xícara com o veneno da indiferença estava com ele. Eu quase podia ver seus lábios sorvendo-o. Eu tenho muitas razões para provocar a morte dele, mas não quero agora. Pretendo ainda usá-lo para terminar meu texto. “Nunca me disseram que me usariam, isso significa que nunca me usaram ou que me usaram e eu não fui informado?”. Ravenno começava com seus pensares. E eu tinha que escrever, mas a ajuda dele não era bem a que eu estava precisando no momento. Ele bateu a porta do quarto e com isso percebi que ele estava em desagrado com algo. Provavelmente era comigo. Mas já estava habituada a ser tratada de tal forma pelos meus personagens. Fosse como fosse, ele logo partiria. Mesmo assim, não deixei de pensar se ele estava muito chateado comigo.

Parei um pouco de escrever. Peguei um café, abri o livro do Papini que sempre me inspirou bastante e fiquei pensando. Devo ter adormecido logo depois, pois lembro de ter escutado um barulho estranho e uma dor um pouco forte na cabeça que me fez ver a sala em escarlate quando abri os olhos sofregamente. Ainda com o olhar embaçado, escrevi a última frase do texto e vi Ravenno se aproximar do sofá com aqueles olhos obscuros e tão fascinantes.

Antes de abrir a janela e alçar vôo, ele disse languidamente: “Nevermore!”.


01/09/2009

Sadismo de Goya



Tudo desagrada
Nessa mesma estrada
E eu tive que ter pressa

Cheguei perto do nada
Não quis desistir de perder a cabeça
Ainda não almejo luz que aqueça

Foi apenas mais uma promessa
E eu quis perder mais essa
Era só mais um bolero
Perdi a noite inteira
Mas parecia tão sincero
Era só mais uma bebedeira

Entre um cinzeiro
E um opaco espelho
Ofereceria a total liberdade
Era para ser o contrário de destruição

Pode parecer verdade
Mas veja: você está atrás da grade
E agora não sei o que será dos que virão

Muito pesado
O que eu quero da vida
Esse cruel passado
Nem é mais uma saída

Agora é só perigo
Já prevejo mais uma ferida
Escuto sempre o que digo
Cansei de ver a baça luz
Que a minha agonia produz

29/08/2009

Ida ao MARGS - sentimento de fascínio só não mais intensificado por conta do dia absurdamente quente!

Tirei força das vísceras e fiz do desânimo – por conta do verão em pleno inverno – uma mola propulsora com o intuito de não perder a exposição no MARGS. Minha premissa era me centrar nas obras de Vincent Van Gogh. Fiquei mais de meia hora na volta de “Passeio ao Crepúsculo”. A cada olhar pelos matizes eu ficava remoendo diversos pensares... e me consolava dizendo que estava valendo a pena ter me sacrificado num dia tão quente, pois ganhei a tarde na fascinante companhia de Gogh.




Quando consegui me desgrudar do quadro já citado, fui em busca de Renoir. Lá estava ele naquela meiga obra “Rosa e azul”. Pouco me fascinou. Peguei-me em alguns detalhes, como na mão esquerda da menina de azul: um pouco torta, alquebrada... lembrei de idéias antagonistas, de situações e pessoas que não seguem o senso comum. Mas não me prendi por ali por mais que uns dez minutos.
No fim, fui em busca de uma obra que está no acervo do museu e é também de Renoir e esta sim me prende bastante: “meninas adornando seus chapéus com flores”, trata-se de uma gravura em metal e é possível visualizar não apenas o tal desenho de meninas e flores...

Peguei-me rindo por dentro, pois o que fazia eu vendo uma obra do acervo enquanto deveria estar aproveitando as obras que logo não estarão mais por lá? Fazer o que se as obras de mais evidência não são as que mais me emocionam?

Aproveitei. E saí quase saltitante com mil imaginações pululando entre Gogh e Renoir.

Inspirada por mais uma foto, mais um escrito ordinário...

“Desbravar”, foi o que pensou naquela tarde. Saiu com a intenção de subir a serra e quem sabe encontrar um recanto solitário e sombrio para uma leitura. A ponte era perigosa, balançava a cada automóvel que passava em disparada com seus motoristas apressados em direção ao destino do ‘quem sabe’.
Atravessar uma vez a ponte foi uma boa aventura, mas decidiu atravessá-la mais algumas vezes; queria tirar fotos e ainda não havia conseguido tirar uma que lhe agradasse de fato. Apareceram policiais dizendo que ele estava se arriscando muito passando diversas vezes pelo local conhecido como Garganta do Diabo. O aventureiro riu à larga e disse que faria o trajeto quantas vezes fossem necessárias para tirar a melhor foto.


Numa das pontas da ponte, colocou o livro que servia como seu companheiro no momento. Olhou de relance pela câmera e capturou a imagem. Apesar do dia extremamente quente, sentiu-se satisfeito. Agora, precisava apenas brindar o momento com a leitura de algumas laudas do livro.
Depois de ter seguido durante um tempo uma das trilhas, visualizou uma clareira convidativa para parar e ler um pouco. Lamentou apenas não ser mais tarde para que pudesse contemplar o pôr-do-sol com seus matizes tão diversos e fascinantes.
No retorno, ele visualizou algumas árvores com galhos lacerados, quebrados, rotos e entendeu que aquilo significava que muitos já haviam caído na garganta por displicência.
Em casa, pensou que o seu momento de displicência não havia chegado. Ao menos, não ainda.

28/08/2009

Inspirada pela foto, deu-se um conto

Olha que coisa inusitada: o Vinícius me enviou umas fotos de uma cidade interiorana, da qual é oriundo, ele as tirou quando decidiu dar uma de aventureiro e embrenhou-se no meio de uma mata nada segura. Logo que vi as fotos, senti aquela coisa que alguns chamam de inspiração. Saiu um conto. A presente foto ainda continua querendo me inspirar...

A velha chácara tinha dono apesar de estar abandonada. O pessoal da região interiorana dizia que era produto de herança e o herdeiro, por ser jovem, não dera importância para uma terra no meio do nada. Por isso a chácara parecia imersa no desleixo e acompanhada pelo abandono.

Um dos moradores da região, certa vez, estava galopando pelas estradas quando visualizou a chácara com tantas árvores e arbustos encobrindo o que um dia era a passagem principal a qual levava para o caminho de entrada da velha casa. Desceu do cavalo e, machucando-se com os espinhos e flores silvestres, foi adentrando. Por mais que andasse não conseguia encontrar a clareira que levava até a casa e quando tentou retornar para a saída não conseguiu e percebeu que estava apenas dando voltas. O desespero começou por tomar conta de seus sentidos. A sede o deixava ainda mais agoniado por encontrar alguma parte que o levasse novamente para a estrada.

Quanto mais procurava, mais ia se embrenhando para o meio do vasto arvoredo.
O cavalo que foi deixado na estrada, assustou-se com uma cobra e saiu em disparada. Logo, se por ventura algum vizinho passasse por ali, não veria o cavalo e nem imaginaria que seu dono estava ali dentro precisando de ajuda.
O tempo começou a mudar conforme a noite foi se apresentando: ameaçava uma tempestade com trovões, raios e ventania. Ele sentia que provavelmente morreria ali dentro. Jamais o encontrariam. Ele jamais encontraria a saída. Exaurido, sentou-se num tronco partido e quase chorou de desespero e descrença. A chuva chegou torrencial. “Pelo menos mato a sede”, pensou ele enquanto procurava com os olhos algum outro local para tentar dormir um pouco. Apesar de estar muito apavorado, ele sentia todos os músculos dormentes e desejava descansar. Arrastando-se, encontrou uma árvore alta, a qual deveria ter uma copa bem grande, pois sentia que ela quase o protegia completamente da chuva; arrumou-se como deu, sentou e encostou as costas no tronco largo da árvore.

Dormiu pouco, mais ainda assim teve pesadelos terrificantes. Um deles ele viu-se no meio de uma órbita flamejante enquanto algo ou alguém lhe dirigia impropérios e o incitava a atirar-se dentro do círculo em fogo. Num outro pesadelo, duas aves encontravam seu corpo inértico e se punham a espicaçá-lo com seus bicos longos e finos. Acordou apavorado, ofegante, mais sedento do que antes e percebeu que ainda era madrugada. Sentiu algo coçar nas suas costas e por instinto foi firmar-se para levantar. Uma das mãos foi escolher como apoio algo de metal duro e pontiagudo. A lança enterrou-se em sua mão e seu grito perdurou até que a aurora chegasse. Ele não conseguia mover a mão, não conseguia nem olhar, pois a cada pequeno movimento ele sentia a dor descomunal tomando conta de toda a sua existência.

As lágrimas secaram em sua face congestionada de agonia. O sol já aquecia tudo ao redor quando ele conseguiu virar-se um pouco para a esquerda e ver no que havia enterrado a própria mão. Era uma lança gravada no solo e no meio desta havia outra, na horizontal. “Uma cruz...”, pensou ele. Virou-se mais um pouco e sentiu a mão lacerada escorregar e rasgar-se mais ainda. Na posição em que estava conseguiu visualizar uma placa também de ferro duro, tentou ler, mas seus olhos estavam embaçados. Pensou que deveria fazer um esforço e retirar a mão da cruz e depois, se sobrevivesse à dor, poderia ler o que dizia a tal placa.
Lembrou do que lhe dizia o pai em sua infância quando ele se machucava: “Chega uma hora que a dor é um anestésico”. E pensando nisso, puxou a mão para cima e logo viu o enorme buraco que nela ficara. A dor era intensa, mas não tanto quanto aquele outro primeiro momento. O pai estava certo... a dor age como anestésico em algum momento. Levantou a mão para tentar estancar um pouco do sangue que fluía para fora e olhou para a placa.

A P S
Nasceu no dia 13 de 11 de 1907
Faleceu no dia 20 de 6 de 1912


Leu e releu algumas vezes aqueles dizeres tumulares. Uma criança morreu, sabe-se lá como, naquele local há muitos anos antes. E ele foi escolher para enterrar sua mão justamente na cruz da pobre alminha. Levantou-se e mirou mais algumas vezes a cruz, a causadora de sua mão lacerada. “A cruz não foi a causadora”, disse uma voz fina e infantil vinda das profundezas da terra. Ele olhou ao redor, deu várias voltas pelo local, por fim disse “Quem está aí?”. Não houve resposta. Quando ele já estava pensando que passou por algum tipo de alucinação ou surto psicótico, ouviu novamente “A cruz não foi a causadora, tu foste idiota o bastante para cravar a mão na minha cruz!”. Desta vez a voz se apresentou mais cavernosa, embora fosse possível ainda perceber o timbre infantil. “Pois se a sua cruz não estivesse exatamente onde coloquei minha mão, eu não teria me machucado”, proferiu ele ainda pensando que estava tendo um diálogo com sua mente enlouquecida pela dor. “Já chega! Deixe minha cruz em paz, ninguém o chamou aqui”, a voz parecia, cada vez mais, muito agitada e irritada. Ele decidiu responder mais uma vez “Só o que almejo é encontrar a saída, se pudesse me ajudar...”. Depois de um curto espaço de tempo, a voz retornou cheia de escárnio “Saída? Só existe uma, mas duvido que consiga encontrá-la”. Ele percebendo que ganharia mais se conseguisse a ajuda e não o ódio daquela alminha, disse por fim “Diga o que eu faço para sair e o que deseja em troca”. A voz calou-se por um bom tempo. De repente proferiu calmamente “Arranque minha placa e quando chegar na sua casa a prenda numa árvore que dê muita sombra, eu quero conhecer outro recanto, já estou aqui faz tempo e até hoje só tu foste tolo o suficiente para chegar neste local esquecido”.


Perdeu os sentidos. Acordou na poltrona de casa e instintivamente procurou o buraco em sua mão. Havia sumido. Levantou-se, perdido e olhou pela janela. A árvore no quintal retumbava sua imponência. “Será que eu sonhei tudo aquilo?”, indagava-se ele. Saiu para o jardim. O vento da tarde era reconfortante. “Puro sonho, louco pesadelo...”, sorriu com amargura, colocou a mão no bolso da calça e sentiu algo retangular e duro. Apertou o objeto antes de ter coragem de tirá-lo. O coração disparou quando seus sentidos já adivinhavam do que se tratava.

O cavalo observava tudo enquanto ele pregava na árvore a placa da alminha que o salvou. E no momento em que colocava o último prego, dizia a si mesmo “eu não sei os limites entre sonho e realidade... aquela cruz quase me matou e, no entanto, estou sem o ferimento, esta placa era parte do sonho e está aqui... definitivamente eu não sei os limites de nada...”.


P/S: Obrigada pela foto, Vini... salvou meu dia que quase foi um desastre por conta do calor excessivo.

27/08/2009

Darl, personagem de "Enquanto agonizo", William Faulkner

Darl é o personagem louco do livro “Enquanto agonizo” de William Faulkner. Desde o fim da leitura, tenho sentido a necessidade de escrever algumas coisas tendo como base não somente a loucura de Darl, mas também toda a existência diferenciada de tal personagem que realmente foi considerado doidivanas pela família e conhecidos. Ele tem seu fim assumindo e reconhecendo sua loucura enquanto de sua boca sai a espuma branca tão reconhecida como um sinal “medonho” de falta de consciência.

Entre a loucura e a sanidade de Darl

Eram muitos filhos. Menos que dez, mas mais do que quatro. Um deles possuía o que o senso comum chama de “pouca capacidade para interagir de forma coerente”. Ele sonhava os dias por entre cavalos, cabras, galinhas, pombas e cachorros do mato. Vivia a noite com mais intensidade, mas não deixava de apreciar os dias. Preferia os sem sol. Apenas sem a luminosidade forte que o fazia ver os corpos desnudos dos irmãos brilharem como se tivessem sido encerados. O mais velho chegava todo ofegante e dizia “que um raio me parta se eu não fizer você levantar daí e me ajudar na lida do campo”. Darl gostava de ouvir as palavras, principalmente as ríspidas, pois lhe soavam mais intensas e ele as repetia “que um raio me parta também...”. Darl ia ajudar, mas logo era mandado embora, pois diziam que ele não tinha força o suficiente para ajudar no que fosse e assim só atrapalhava. Darl queria ver como era. Queria entender como os irmãos, inclusive os mais novos do que ele, conseguiam pegar em enxadas e capinar durante um dia todo e ainda tinham forças para chegar em casa e cortar lenha para o outro dia de manhã. O irmão mais velho pingava suor por onde passava. As calças sujas já pareciam fazer parte daquele corpo forte. Darl incomodava com questionamentos. “Vai embora, Darl”, dizia o mais velho. “Só estou vendo tuas calças, elas são...”, dizia Darl enquanto procurava algo no céu. “Elas são sujas, eu sei”, disse o mais velho olhando Darl com pesar. “É, elas são sujas, mas eu gosto delas como eu gosto de ver os desenhos que se formam nas nuvens”. O mais velho sacudia a cabeça e pensava que Darl jamais poderia ser como eles, ele jamais conseguiria ajudar em nada e temia que ninguém nunca pudesse amá-lo. Na verdade, nem ele o amava. “Eu odeio você, Darl”, vociferou o mais velho. Darl, sem estar surpreso, continuou olhando o céu e disse “Se você fosse Darl eu também odiaria você”. E assim Darl seguia.

No dia em que a mãe morreu e a irmã não parava de abaná-la, Darl entrou no quarto. Ele queria ver como a morte fazia para levar um corpo. “Darl, sai daqui, não tem o que ver”, falou a irmã querendo que ele saísse para não ter de ficar mirando “aquela face da insânia”, como a mãe costumava dizer quando todos pensavam que ele dormia no quarto ao lado. “Eu quero ver como é quando a vida diz adeus”, murmurou Darl enquanto era empurrado para fora do quarto. Mas Darl nunca chorava, nem ficava triste. Ele era contente com o que tinha. E tinha tudo. “Eu tenho tudo. Tudo mesmo. Está tudo aqui na minha cabeça. Eu tenho mesmo tudo”. Falava enquanto ria até sentir dor nas mandíbulas.

O caixão estava ainda sendo feito por um outro irmão. O barulho do martelo e da serra fazia Darl querer dançar. “Isso é melhor que música!!!”, dizia Darl para o irmão que trabalhava naquele caixão em forma de relógio. “E ela vai escutar a música quando entrar aí, eu sei que vai”. “Cala a boca, Darl”, grunhia o irmão que não parava de trabalhar. “Ela vai ouvir e não vai poder dançar porque vai estar presa aí dentro”, disse Darl saindo em direção aos ciprestes. Estava lá sentado se distraindo com uma folha amarelada que caíra da árvore quando o pai gritou seu nome lá dentro de casa “Darl, venha já aqui”. Darl, lá de baixo, tentou responder “Pai, o Darl está ocupado fazendo companhia para a Dona Folha que acabou de chegar aqui na sebe, Darl está ocupado, pai, pai... ele está ocupado”. O pai mandou um dos irmãos ir buscar Darl de uma vez. “Vem, Darl”, disse o irmãozinho menor, “o pai tá chamando e tem que ser agora”. “Dalr não quer, acho que ele nem está aqui”, respondeu Darl com a mente rumando em algum lugar de sua mente. O irmãozinho chegou lá em cima, deu o recado e o pai enfureceu-se; foi até a sebe empunhando o rebenque que usava na lida com os cavalos. Os olhos do velho esquelético faiscavam como brasa. “Darl, eu chamei você, que um raio me parta se eu não chamei você lá em cima”. Darl escutou, mas não ouviu. Ele estava levando a Dona Folha para conhecer seus aposentos dentro da sua cabeça. Era tudo grande e pequeno também. Era como tinha que ser. Era como Darl queria. “Darl, estou falando com você...”, berrou o pai enquanto levantava o rebenque. Alguns golpes depois, o pai já tinha sanado sua fúria e subia novamente.

Não deu tempo de ouvir o que Darl, sangrando pela boca, dizia “Que um raio me parta se Darl estiver aqui”.

A História e os Historiadores

Os grandes feitos militares registrados pela História não serão, acaso, mais uma criação dos narradores do que dos capitães a quem são atribuídos? Que seriam, o cerco de Tróia sem Homero, Salamina sem Heródoto e a Retirada dos Dez Mil sem a colaboração literária de Xenofonte? É conhecido o caso do historiador francês Antoine Varillas, autos de uma História das Heresias, publicada em 1690. Acusado de haver alterado a verdade histórica para maior interesse do assunto, desculpava-se ele:

_Que importa se tenham os fatos passado de outro modo, se assim fica melhor?

Albert Cim, que registra essa anedota, conta, igualmente, o episódio ocorrido com Vertot, que escreveu no século XVIII a História da Ordem de Malta. Havendo ele pedido a um pesquisador informações seguras sobre o modo por que se levara a efeito o cerco de Rodes, e como o informante demorasse, resolveu o historiador imaginá-lo e descreveu-o. Com o livro pronto, chegaram-lhe os esclarecimentos pedidos. Mas ele recusa.

_Chegaram tarde, – diz.
E devolvendo-os:
_Agora o cerco já está feito!

A história do cerco de Rodes escrita por Vertot seria, talvez, hoje, a verdadeira, se não se tivesse divulgado a anedota. Pausânias era considerado na antiguidade, e ainda o é em nosso tempo, uma das mais puras fontes de informação em geografia e história. A sua Periégesis é o melhor dos roteiros para conhecimento do mundo antigo. É sabido, entretanto, que, ao escrever sobre a guerra da Messênia, ele preferia orientar-se pelo poeta Riano, que a celebrou em verso, do que pelo historiador Miron de Priena, que a relatou em prosa. O ouro da imaginação recebia dele, assim, a forma e o cunho, transformando-se em moeda da Verdade.

Essa convenção, de imaginar o Passado com os elementos fornecidos pelos historiadores, não escapou, aliás, à ironia de Swift. Em uma das viagens do capitão Gulliver, vai ele ter à ilha de Glubbdudbrid, onde vão ressurgir todos os indivíduos que passaram por este mundo. Curioso da História da Inglaterra, procura o viajante conversar com alguns varões eminentes dos acontecimentos do seu tempo. E verifica, boquiaberto, que entes se haviam desenrolado de modo tão diverso daqueles narrados nos livros, que nem pareciam os mesmos. E pior, foi, ainda, quando quis conhecer pessoalmente os fundadores das casas reinantes da Europa, isto é, as sementes mais remotas da mais pura nobreza do continente. Ao enunciar o seu desejo, surgiram-lhe os antepassados dos soberanos do século. Eram dois cardeais, um abade, um prelado italiano, dois cortesãos, um barbeiro e dois tocadores de violão!

A História é, assim, menos o reflexo dos acontecimentos do que uma obra de imaginação. Por isso mesmo, o Presente sempre sente saudades do Passado. Mas o Futuro há de sentir, por sua vez, saudades do Presente, porque os historiadores hão de inventar homens que o ilustrem e fatos que o enfeitem, de modo que tenhamos sempre a ilusão de que já ouve, na vida, alguma coisa de grande, de puro, de heróico e de bom.

"Halteralcoolismo"

“Isso é literalmente halteralcoolismo – Foi o que disse um homem na rua ao passar com uma sacola cheia de garrafas.


Considero a tal frase um trocadilho bem interessante.

Incrível como alguns diálogos alheios ficam demarcados em minha memória. Por mais que eu não os queira guardados, eles permanecem. São frasezinhas que vão sendo capturadas pelos meus sentidos em momentos rápidos na rua, enquanto passo, enquanto passam por mim. E aí, às vezes, me pego pensando que muitas das pessoas, ao final do dia, nem lembram mais o que disseram e eu não só lembro como não posso esquecer. Coisa maluca essa de me apossar dos ditos alheios. Mas.. eles são jogados ao vento e geralmente olvidados por seus donos. Capturo-os. O que faço depois? Ah, eles ficam anotados em pedaços de guardanapo, em papéis soltos, em portfólios... e um dia, quem sabe, eu consiga juntar tudo e fazer das frases alheias algo único e jamais dito.

20/08/2009

Confissões de um comedor de ópio - Thomas De Quincey

“Desde meu nascimento fui feito uma criatura intelectual, e intelectual no mais alto sentido que meus objetivos e prazeres me levaram, desde os meus dias de escola. Se comer ópio foi um prazer sensual, e se sou obrigado a confessar que o levei a um excesso ainda não relatado por ninguém, não é menos verdade que lutei contra esse fascinante feitiço com um zelo religioso, e consegui, ao longo do tempo, alcançar o que nunca ouvi atribuírem a qualquer outro homem: desenredei, quase até o último nó, o emaranhado de cordas que me atava. Esta conquista pessoal pode muito bem ser um contrapeso a qualquer espécie de tolerância de minha parte. No meu caso, a conquista pessoal foi inquestionável, mas a tolerância lança dúvidas de casuística: trata-se de atos que visam ao alívio da dor ou apenas ao desejo do prazer?”.


Eis uma das partes mais arrebatadoras do livro “Confissões de um Comedor de Ópio – Thomas de Quincey. Apesar de ter o conhecimento que ele não venceu, como disse ter vencido, a batalha com o ópio, o texto dele tem caráter universal, pois pode não ser o ópio o nosso “chacal”, mas temos outras sombras ilícitas rondando a realidade atual. E em todas elas o que se busca em primeira mão é o alívio de alguma chaga ou de repente a tentativa de exorcizar algum pensamento que por todas as vias desejamos transformá-lo em esquecimento eterno. Logo após é que os sentidos são atacados pela vontade de emergir em prazer. Mas.. onde se encontra a linha tênue entre o bem-estar de não sentirmos mais alguma dor e o sentir imediato de prazer? E quando as duas questões tornam-se apenas uma? Quando algo é capaz tanto de nos fazer deixar de padecer e ao mesmo tempo nos promove enorme prazer? Acredito ser essa uma das premissas do livro do Thomas De Quincey. Nada está solucionado na obra. Não existem ditos peremptórios e dogmáticos e ou maniqueístas; o que ele narra é apenas como ocorreu em sua vida o uso abusivo do ópio e através disso são lançadas algumas questões que servem como reflexão. Questioná-lo? Criticá-lo? Julgá-lo como um grande errôneo que não se importando em errar decidiu alardear tais erros pelo mundo? Não creio.

Acredito que a obra adquiriu mais identidade como um ensaio a respeito de uma “crônica paixão pela ansiedade” do que por qualquer outro mote doentio. E nada melhor para demonstrar meu pensamento do que uma citação da obra: “Minha agitação era infinita, minha mente vomitava e movia-se como o oceano”.

Requiem for a Nun - Faulkner

Requiem pour une Nonne (Oração para uma Negra, numa tradução de Guilherme Figueiredo) é a adaptação feita por Albert Camus, para o palco, do romance dialogado de William Faulkner, Requiem for a Nun, cujo argumento e personagens, por sua vez, já se encontram na obra Sanctuary.
Um escândalo rebenta numa conceituada família burguesa do sul dos Estados Unidos. Nancy Mannigoe, a ama negra, assassina o último filho dos Stevens e é condenada à morte. Depois da execução tudo voltará à ordem. Mas é justamente esta fachada que Gavin, o advogado, quer forçar para atingir o âmago das consciências, fazendo cair as máscaras farisaicas, descendo às profundezas onde se esconde o mal que envenena e apodrece aquelas vidas.

Narrativa excessiva e inverossímil? Uma leitura atenta dos jornais de hoje nos convencerá do contrário. Solução delirante, a de Nancy Mannigoe, cínica a de Temple, mãe da criança assassinada? Ou antes, penetração altamente dramática no mundo da consciência, na terrível condição humana onde tragicamente se defrontam e se mesclam o mal e o bem, chegando a situações não previstas dentro da pobreza de um moralismo convencional?

Fala-se muito de tragédia grega a propósito de Requiem pour une Nonne. E Camus confirma, falando do livro de Faulkner: “É verdade. Como em toda tragédia, há um segredo. E um conflito. Aquele que opõe os protagonistas ao seu destino e que se resolve na aceitação, por parte deles, desse destino. Faulkner serviu-se disso para abrir caminho para a tragédia moderna. Sua obra, de alta intensidade dramática, parece-me ser das que mais se aproximam de certo ideal trágico. Os personagens são de hoje, medem-se, no entanto, com o mesmo destino que esmagava Electra ou Orestes. Somente um grande artista poderia tentar assim introduzir em nossos sentidos a grande linguagem da dor e da humilhação – linguagem que ao mesmo tempo deve ser simples bastante para poder ser nossa, e bastante grande para atingir o trágico. Creio que Faulkner encontrou essa linguagem.”

O que Camus não poderia acrescentar é que ele, como dramaturgo, soube dar à obra do grande romancista americano o relevo e a intensidade que ela exigia para apoderar-se fundamente de uma platéia, afrontando-a com os grandes temas da vida, da morte, do sofrimento e da expiação.


Algumas partes que demarcam bem a tragédia de Faulkner e a intensidade de Camus:


“Se é isto, meta uma bala na cabeça! Pare de mexer sempre no que você é incapaz de esquecer. Mate-se, ao menos para não precisar lembrar-se mais, para não precisar acordar de noite, banhado em suor, contorcendo-se de angústia, porque você não quer e não pode deixar de se lembrar! Ou então olhe as coisas de frente, de uma vez por todas...”.


“Somente por este pobre motivo. Simplesmente para que a verdade seja dita, bem claramente, em voz alta, com o número de palavras necessárias? Simplesmente para ser dita, para ser escutada, para que qualquer pessoa, pouco importando quem seja, a escute, qualquer estranho a este caso, a quem ele não interesse, a quem terá o direito de ouvir essas palavras pela única razão de ser capaz de escutá-las? Vamos, recite, termine o seu belo sermão, e anuncie-me o que devo fazer para salvar minha alma!”.


“Por que alguém deseja o que é mau? Porque ama o mal, é claro, e o prefere a tudo o mais. De qualquer modo, é preciso admitir que eu amava o mal acima de qualquer outra coisa. E quis fugir sozinha com aquele rapaz que no entanto não me agradava tanto assim.”


William Faulkner nasceu em 1897, no Estado do Mississipi, de uma velha família aristocrática arruinada pela Guerra de Secessão. Homem do Sul, procurou em toda a sua obra – que muitos acusam de só explorar o horror, a sordidez e a obscenidade associados à decadência da região sulina dos Estados Unidos – definir psicologicamente a sensibilidade do seu mundo e a sua complexidade moral.


Albert Camus nasceu em Mondovi, na África do Norte, em 1913, numa família operária, de pai francês e mãe espanhola. Estudou Filosofia na Universidade de Alger. Apesar de grandes dificuldades econômicas. Escritor, romancista, teatrólogo, marcado pela angústia da condição humana e o absurdo da existência, descobrindo, além do niilismo, uma moral positiva feita de justiça e solidariedade, que é como que a afirmação da liberdade do homem. Faleceu num desastre em 1960.

16/08/2009

Opção pela Melancolia

À semelhança das abelhas que fazem o mel com as plantas amargas, é possível que ela encontrasse conforto em sua tristeza. Quem poderá dizer, mesmo, se, casando com o homem a quem amou toda a vida, não seria ela infinitamente mais desgraçada do que vivendo de longe, e em silêncio, na contemplação melancólica do seu desprezo? Quem?




“A integridade das raízes explica a resistência da árvore”


Desde a descida da árvore, isto é, desde que no símio posto em posição vertical se manifestou o primeiro raio de consciência sapiente, preocupou-se o homem com o problema da sua felicidade. À proporção que evoluía, colocava ele esse ideal em ponto mais alto, e mais inacessível. E, assim tem vindo até hoje a correr atrás dessa miragem, que se afasta à medida que ele a persegue.
Às vezes, coloca o homem essa felicidade no domínio puramente moral, acessível por meio de conquistas abstratas. Surgem os filósofos. Levantam-se os profetas. Formam-se as religiões. Mas a desilusão vem antes da posse. E o homem, que procurava a felicidade fora da vida, passa a procurá-la dentro da vida, em conquistas práticas e materiais, criando problemas políticos e econômicos para os quais busca, debalde, a solução.
É essa forma de ilusão eterna que determina a complexidade dos fenômenos sociais, à margem dos quais se bate a humanidade na sua luta pelas conquistas positivas. A posse do ouro, a posse da terra, a idéia do conforto, a arquitetura econômica do mundo, a formação política da sociedade, tudo isso não passa de fórmulas visando a paz, a tranqüilidade do espírito humano, a obtenção, em suma, da felicidade sonhada pelo homem, desde o alvorecer da sua consciência.

Humberto de Campos escreveu numa de suas crônicas: “A integridade das raízes explica a resistência da árvore.”

E é uma bela e forte ocupação para o espírito contemplar esta árvore mostrada por um lenhador vigoroso, o qual em vez de a decepar, se limita a expô-la à contemplação das novas gentes, reclamando atenção para a sua solidez e respeito para a sua ancianidade.

15/08/2009

Enquanto agonizo, leio Faulkner II

Faulkner traça personagens mais do que observadores: perceptivelmente sensíveis não aos atos, mas a quem os comete. Personagens ganham mais relevância do que suas atitudes e, isso se percebe pela maneira incomum como são detalhados e dissecados no íntimo. As metáforas são imprevisíveis e incrivelmente surpreendentes, geralmente com algum toque de sátira, o que leva o leitor atento a visualizar não apenas a problemática social, mas também todo o contexto antagônico existente em cada uma daquelas pessoas que, embora vivessem em família, possuíam, cada qual, um microcosmo à parte.

Deixo aqui as primeiras partes que assinalei na obra, são ao mesmo tempo aterradoras e sublimes. Um uníssono paradoxal:

“A colcha cobre até o queixo, apesar do calor, deixando apenas as mãos e o rosto descobertos. Ela tem a cabeça alta no travesseiro para que possa ver pela janela, e nós podemos ouvi-lo cada vez que ele maneja a enxó ou a serra. Mesmo que fôssemos surdos quase poderíamos através do rosto dela ouvi-lo, vê-lo. Seu rosto está tão consumido que os ossos se desenham sob a pele em linhas brancas. Os olhos são como duas velas que se vêem derreter e pingar no bocal de candelabros de ferro (...)”.

“Sob a colcha ela se move tanto quanto uma estátua, e a única maneira de saber se respira é pelo barulho do forro do colchão. Nem o cabelo caído sobre o rosto se mexe, mesmo com aquela menina ao lado dela, abanando-a com o leque...”.

13/08/2009

GOG - GIOVANNI PAPINI - MY BIBLE!!



GIOVANNI PAPINI, escritor italiano, nasceu em Florença a 9 de Janeiro de 1881. Autoditada, foi um espírito inquieto, rebelde, agressivo e iconoclasta, sempre em busca de novas aventuras.
Publicou, em 1931, o famoso Gog, série de breves narrativas em que satiriza a mentalidade contemporânea. De sua enorme bibliografia, cumpre salientar: em 1906 publicou os seus primeiros livros, O Trágico Cotidiano; Palavras e Sangue, volume de contos. Seguiram-se entre outros: O Crepúsculo dos Filósofos (1907), crítica; A Outra Metade (1911), ensaios; Um Homem Acabado (1912), autobiografia subjetiva, considerado como um dos melhores livros; Dante Vivo (1933); História da Literatura Italiana (1937) e O Diabo (1953). Deixou o mundo dos vivos a 8 de Julho de 1953.




Entre os grandes livros de Papini, Gog ocupa um lugar especial: é como que o fruto de toda a sua experiência. Este livro consta de uma série de contos em que são narradas as aventuras de Mr. Goggius, um milionário americano de fortuna fabulosa que, a certa altura de sua vida, quis conhecer o mundo. Mr. Goggius põe-se a viajar, ouve as maiores personalidades da política, da ciência, da literatura e da arte; conhece todos os inventos, todas as excentricidades modernas; visita as maiores cidades do globo. Por esse meio, Giovanni Papini oferece ao leitor uma visão caleidoscópica do mundo, um panorama que se desenrola como filme. Neste livro em que tudo é original, predomina um sarcasmo implacável, que faz da obra uma sátira gigantesca da civilização contemporânea, em seus aspectos científicos, políticos e artísticos. O estilo fulgurante, rico e selvagem de Papini afirma, e, demolindo, realiza uma soberba construção. Em suma, é impossível dar uma idéia deste grande livro que, pela sua própria originalidade, foge a qualquer classificação.

Sunset


Ela lamentava algumas falsas alegrias. Enquanto suas lágrimas confundiam-se com a água fresca, ficou ali, mais sentindo do que vendo, o devorar do sol.
O lago adentrava por entre as pedras pontiagudas da gruta. A água em alguma margem distante começava a alimentar-se de sol. A luz berrava de agonia em suas tão estonteantes cores, ela parecia dizer com doçura que sentia sua morte em mais um dia e não deseja retornar em mais uma aurora. O céu adquiria tons pesados, parecia padecer por sentir a luz se despregando dele e deixando rastros em camadas multicolores. Um segundo depois, o firmamento agradecia por não sentir mais o calor intenso, mas sabia que em algumas horas a luz voltaria a ser pregada nele. Mesmo sentindo o alívio da partida daquela que tantas agonias lhe trazia, ele desejava tê-la por mais um segundo que fosse. A água parecia sedenta por luz, engolia-a com uma rapidez estúpida. Num átimo, chegou aquele momento em que se consegue escutar a luz incandescente encostando-se em algo gélido e no próximo repente é possível ficar confuso com o que é água e o que é calor. Por um átimo ambos unem-se, ficam sendo apenas um. Aquele exato instante em que se pensa “onde começa um e onde termina outro?”. No derradeiro momento em que ainda se pode ver um pedaço de luz escarlate bailando frenética no céu, alguém conseguiu ver a água abrindo sua mandíbula para terminar sua alimentação do dia. A luz foi devorada. E em algum recanto permaneceria à espreita de uma aurora próxima.
O céu já obscurecido gritava escrevendo com estrelas ‘amanhã a agonia quente retorna’.
As lágrimas ainda pingavam na água que invadia a gruta e elas desenhavam mil sonhos; alguns estonteantes, outros horrendos, outros ainda ignotos. E quando as mãos procuraram as lágrimas no rosto, tocaram no lago e em círculos este ecoou ‘amanhã, retorna’.

11/08/2009

Enquanto agonizo, leio Faulkner


Estou para além da metade na leitura do livro. O que deu para perceber até agora? Algumas coisas: leitura densa, cheia de inovações para a época em que foi publicada (1930); inovações como a ausência proposital de pontuação e como uma narrativa meio desordenada para dar a impressão que os personagens estão falando realmente, contando seus "causos" de dores em família. Os capítulos recebem o nome de determinado personagem o qual narra os acontecimentos da forma que melhor lhe parece. Cada um tem uma personalidade mais ou menos bem formada. Um ou dois personagens meio secundários parecem carregar em expressões repetidas, talvez tenha sido uma falha de Faulkner, talvez tenha sido proposital para demarcar que as pessoas daquele local interiorano falavam de maneira semelhante mesmo. Dá muita vontade de sentar em algum cepo seco e ficar ouvindo-os e vivendo com eles não a narrativa, mas o momento da ação que relatam e acho até que é bem isso que ocorre com o leitor atento.
Falando em leitor, peguei-me agora pensando na atrocidade que seria se por um acaso uma pessoa que nunca tivesse lido na vida, escolhesse “Enquanto agonizo” para ser o primeiro livro a ler. Provavelmente tal pessoa pegaria asco total por leituras e assim se tornaria, como tantas outras, que não lêem porque pensam ser algo para intelectuais. Definitivamente este não é um livro para quem não teve outras leituras, digamos, menos “pesadas” anteriormente. Lembrei agora de algumas listas de indicação de leituras... tal obra do Faulkner deveria vir com uma inscrição se fosse estar em algumas dessas listas: leia bem depois de outras. Não digo isso para desmerecer as capacidades intelectuais, mas sim como forma de alerta mesmo.
A grande busca da família Bundren para enterrar a matriarca no local onde estão seus parentes é apenas um pano de fundo para expor todos os entreveros existentes em todo e qualquer círculo familiar. Pai que se sacrifica pela esposa depois da morte desta, mas em vida não fez muito; irmãos que desconfiam um do outro porque são muito diferentes; irmã masculinizada, mas que mesmo assim nunca deixou de atender a todos com o mesmo afinco e atenção; filhos que se sabem preferidos e preteridos pela mãe morta; irmão menor que acredita ser a mãe um peixe; um outro irmão é considerado estranho porque enquanto carregavam o ataúde na carroça ele ria, enfim, a obra é mesmo um microcosmo de situações que se inserem no macrocosmo de cada um dos personagens.
Postergo o fim da leitura. Apeguei-me à narrativa.

09/08/2009

Identificação com o lirismo em Bukowski

“Freqüentemente, os melhores momentos na vida são quando a gente não está fazendo nada, só meditando, ruminando. Quer dizer, a gente pensa que todo o mundo é sem sentido, aí vê que não pode ser tão são sentido assim se a gente percebe que é sem sentido, e essa consciência da falta de sentido já é quase um pouco de sentido. Sabe como é? Um otimismo pessimista” (Pulp, 1941 – Charles Bukowski).


Bom, depois de ter postado um texto sobre as escatologias de Bukowski, bateu a vontade de escrever outro que tivesse a presença marcante do lirismo. Esta citação me faz sentir aquela coisa que até já comentei por aqui algumas vezes (começo a me tornar repetitiva?): o identificar-se, ou melhor, aquele sentimento de ler algo que explica ipsis litteris o que alguém julga ser o único a sentir. E é tão arrebatador quando esse sentir ocorre... dá para sentir que o autor oferece seu regaço para que o leitor descanse o quanto precisar. O sentimento que vem após é aquele de contentamento exacerbado que chega com força e assim permanece, já que partes assim não são olvidadas. E num outro momento, lá do futuro, quando a agonia impassível de sentir que só existe incompreensão entre os seres se fizer presente, poderemos recordar de passagens de livros tais como esta e trocar a agonia pela quase alegria de ter sido compreendido por alguma passagem de um livro. Ah, se eu entrar na questão do pensar a qual o Buk cita, ficará complicado acabar tal postagem. E... o que deve ficar ressoando é a citação em si e não o que cada um pensa sobre ela! Voilà!

O escatológico em Charles Bukowski


Recordo, certa vez, ter lido um conto de uma pessoa que já se encontra soterrada no meu livro do passado. Era um conto escatológico. A pessoa comentou comigo que se sentia mal por escrever dessa forma, mas que não sabia escrever diferentemente sem se sentir hipócrita. Na época, argumentei que não havia problema de rechear o texto com expressões como “ele foi ao banheiro e logo viu seus excrementos serem tragados pela descarga”. Mas é claro que textos assim ‘não são para todos’. Naquele tempo, não me surgiu a idéia de citar autores como Bukowski para amenizar o desconforto (referente aos seus contos) da tal pessoa. E agora que consegui ler dois livros seguidos do velho Buk, sinto a necessidade de fazer algumas citações escatológicas e comentá-las um pouco.

“Fui ao banheiro e urinei. Enquanto urinava, ainda ouvia a chuva caindo. Bem, tinha sido uma conversa idiota, mas, pelo menos, tirara meus pensamentos do Pardal Vermelho e de outros assuntos. Dei descarga, lavei as mãos, olhei no espelho, pisquei para mim mesmo e voltei para tomar outro uísque” (Pulp).


“Levantei-me. Vesti minhas cuecas. Estavam manchadas: limpávamo-nos com folhas de jornal que dobrávamos e amaciávamos como nossas próprias mãos – e com freqüência não conseguia me limpar perfeitamente. Além disso, as cuecas estavam rasgadas e tinham furos de cigarro onde caíam as cinzas quentes sobre meu colo” (Factótum).


“Levou quatro dias e cinco noites para que o ônibus chegasse a Los Angeles. Como de costume, não consegui dormir ou defecar durante a viagem” (Factótum).


Confesso que não demarquei muitas partes nos livros que tenham essa característica escatológica. Talvez porque não seja o que mais me interesse comentar, talvez porque eu prefira o lirismo, as partes mais reflexivas. Mas aí estão algumas que procurei agora. Basta abrir uma parte ao acaso e lá aparece alguma fala ou diálogo com alguma expressão a respeito de excrementos, por exemplo. O que eu penso é que Charles Bukowski conseguiu fazer um paralelo entre, primeiro: o cotidiano e, segundo: as angústias de um único ser. O primeiro fica dentro de todas aquelas questões bem comuns, aquelas situações que todos os seres sempre passam, sempre vivem; o segundo fica permeado de questões idiossincráticas existenciais, a subjetividade, o sentir-se sozinho em diversas situações, sendo uma delas “o estar sozinho” em uma determinada idéia, por exemplo. E é mais ou menos assim que Bukowski conseguiu inovar e alcançar sua alcunha de “maldito”, por unir o escatológico com o lirismo de personagens anti-heróis, solitários, perdidos e, por muitas vezes, esquecidos.

A Coisa do Fim


O caminhão de mudança encostou em frente à casa simples de madeira pintada de azul claro com janelas brancas descascando. Saltou o chefe da família e o motorista ficou apenas observando os movimentos do outro. Depois de alguns minutos o motorista desceu, abriu a parte de trás do caminhão e entrou no pátio da casa indo encontrar aquele que havia contratado seu serviço de frete. Ambos queriam beber uma cerveja; os dois olhavam-se já sabendo o que cada qual pensava; o dia quente pedia algo gelado descendo pela garganta. O motorista acendeu um cigarro à espera que algo acontecesse. O homem que havia alugado aquela casa deu mais uma volta pelo pátio irregular. O dia estava abafado, ameaçava chover. O motorista queria beber. O homem parecia recear algo. E o que este receava ocorreu.
Chegaram correndo, disputando corrida, aos tapas, dois meninos. Um deles era o mais velho, mais robusto também. O outro era franzino, cara de filhote de macaco prego, dava até a impressão de ser doente, mesmo assim sabia correr e usar expressões depreciativas. O homem, o pai deles, deu uma bronca bem dada e conseguiu acalmá-los um pouco. O motorista já se via longe de beber sua cerveja naquele momento. As crianças ficaram por ali fazendo estripulias diversas enquanto o pai deles caminhava ao redor com muita parcimônia, parecia pensar, parecia se atormentar com algo.
Ou para se ver livre daquelas duas crianças ou porque estava mesmo querendo beber, mandou-os buscar quatro cervejas. O menor disse:
_Mas a mãe disse que era pra ficar aqui e ela já está chegando, pai...
O maior deu um empurrão forte no menor e reclamou:
_Que droga esse guri, pai, só quer fazer o que a mãe manda. Dá a grana que eu trago.
O homem chamou os dois e disse para irem juntos sem brigas, sem pontapés, sem reclamação. Simplesmente para obedecer e trazer as cervejas.
O menor saiu saltitando à frente do irmão maior. O motorista veio se chegando e disse:
_Tomara que eles consigam trazer as garrafas inteiras.
O outro fechou a cara, suspirou e disse:
_Vá lá abrindo a carroceria que eu preciso tirar algumas coisas.
Os dois meninos retornaram mais agitados do que antes. O mais velho passou a sacola com as garrafas e perguntou se poderia ficar com o troco. Com a resposta negativa, resignou-se a coçar a cabeça e a sair correndo atrás do irmão.
O pai chamou:
_Antônio, vem me ajudar aqui.
Era o menor que estava sendo requisitado. Foi correndo.
_Pega ali a caixa, mas toma cuidado para não deixar cair.
O menino foi se afastando devagar, não queria pegar “a caixa”. Mas não teve jeito, o pai o içou até a carroceria e lá estavam os dois caixa e menino a se encarar. Ele deu uma olhada para trás e viu que o pai estava ocupado alcançando outras caixas para o irmão. Ele tinha que pegar aquela caixa de uma vez e levar para dentro. Mas temia. Suas pernas bambas só desejavam ganhar a rua e correr até ficar muito cansado. Começou a chorar. Queria chamar a mãe. Mas ela não estava ali. Foi dando passos curtos em direção à caixa. Foi então, que aconteceu exatamente como outras vezes: a caixa foi se abrindo devagar. E ali de dentro dela apareciam aqueles olhos muito castanhos e brilhantes, logo a mão com unhas compridas iam saindo também e ele queria chamar por ajuda, mas já sabia que ninguém mais via o que ele via. Engoliu a seco. Foi se aproximando mais. E a expressão dos olhos ia mudando, ficando mais e mais apavorante. Chegou perto. Poderia tocar se quisesse, mas não queria.
_Anda logo com isso, Antônio! É só uma caixa.
“Se é só uma caixa então por que não pega você mesmo?”, pensava o menino com medo até mesmo de pensar. A coisa que tinha lá dentro se movia, queria sair, então, ele com um tapa empurrou a tampa e ficou segurando firme. Ele sentia a pressão contra a tampa em seus dedos finos. Viu suas unhas ficarem arroxeadas.
_Pai, pai, pega aqui. Toma logo essa caixa.
O pai estava no pátio bebericando um copo de cerveja com o motorista e não ouviu. Ele não sabia o que fazer, queria descer, queria largar aquela caixa e sair correndo. Ficou impaciente. Visualizou o irmão perto do caminhão e gritou:
_Roberto, vem aqui. Pega isso que eu quero descer.
O irmão mais velho vez troça e respondeu:
_Desce sozinho, bobalhão.
E a coisa dentro da caixa dizia lá de dentro meio sufocada: “Desce sozinho, bobalhão, desce que eu te pego lá embaixo”. Foi então que ele viu a mãe caminhando pela rua. Ela ficava tão linda com aquele vestidinho velho e com aqueles sapatos sem brilho... trazia pacotes leves e riu quando percebeu que ele a cuidava de dentro da carroceria. Ele pensou “agora ela me salva!”. E a coisa dizia de dentro da caixa “abre a caixa que eu te salvo, menino medroso”. Ele disse alto:
_Cala a boca!
Talvez por nervosismo, talvez por ter ficado tão aliviado por ver a mãe se aproximar, desequilibrou-se e deixou a caixa cair, abrindo-se ao chocar-se com o chão. Ficou olhando para ver o que aconteceria. A coisa não saía de lá. “Talvez esteja morta”, pensou. Desceu com um pulo do caminhão e deu um chute de leve. A coisa fumacenta saiu de lá mais rápido que um pássaro em revoada e na mesma hora a mãe chegou bem perto:
_Estava me esperando, filho? Vem aqui.
Pegou-o no colo. Foram os dois para o pátio.
A cena era apavorante: o motorista e o pai estavam degolados e o irmão mais velho enforcado num pé de laranjeira. Os copos de cerveja pela metade descansavam impassíveis sobre uma mesa de madeira. A mãe desesperada desmaiou e o filho mais novo ainda conseguiu pronunciar:
_Foi a Coisa. Agora ela está solta.
E ela ouvindo-o, completou:
_Agora é o fim.

07/08/2009

Livros chamam e gritam alto, dívidas esperam caladas.

Existem atitudes que somente quem tem apegos com leituras consegue entender: um mês atrás, mais ou menos, fiquei devendo ao meu irmão uma quantia irrelevante, porém sempre cumpro com a promessa de devolver o dinheiro em um mês. Estava eu ontem com a quantia exata para sanar minha dívida, quando, de repente, passei em frente a uma livraria e não deu para deixar de comprar “Factótum” do Bukowski e “Enquanto agonizo” do Faulkner. Estes livros simplesmente me chamavam. Estavam, inclusive, no mesmo compartimento naquelas araras de livros de bolso. Pensei um pouco na minha dívida, mas foi mais forte o desejo de ler mais um livro do Bukowski e ler pela primeira vez um livro do William Faulkner. Estes livros já me haviam sido indicados e até então não os havia lido por, pelo menos, um motivo certo: outras obras apareciam à frente, embora nem sempre se mostrassem mais relevantes, simplesmente apareciam e eu as comprava, deixando assim de comprar estes dois.
Comecei a ler “Factótum” ontem mesmo. A leitura transcorre facilmente, já percebi que será mais um daqueles livros que eu relutarei em terminar, tamanha é a apreciação pela globalidade do texto. Vontade me dá de citar aqui uma parte do livro que me fez sentir aquela identificação imediata e, por isso mesmo, sublime. Porém, eu deveria escrever algo sobre o fim de “Pulp” que me desconcertou bastante (no sentido negativo). Deveria. Citarei “Factótum”. “Pulp” fica para uma próxima (essa minha mania de postergar não tem limites.. certa vez me disseram que sou uma “procrastina”, ok.. não nego mais!).

"Eu era um homem que se fortalecia na solidão, ela era para mim a comida e a água dos outros homens. Cada dia sem solidão me enfraquecia. Não que me orgulhasse dela, mas dela eu dependia. A escuridão do quarto era como um dia ensolarado para mim. Tomei um gole de vinho". (Charles Bukowski – Factótum, cap. 17, ed. lp&m).

Tal parte me deixou extasiada, surpreendida, embasbacada mesmo. Nunca imaginei que o velho Buk seria capaz de usar tanto lirismo sem ser notório. Esta citação explica de forma sucinta o que já tentei explicar algumas vezes a respeito da forma que me sinto com relação à solidão. Geralmente as pessoas me olham com ares de “quanta maluquice para uma mente só”, mas de repente poderiam pensar também “se há quem prefira a multidão e o eterno estar acompanhado, é bem possível quem prefira estar só, já que algumas pessoas ainda conseguem manifestar o que sentem e não o que um grupo as impele dizer que sentem”. Não quero me aprofundar no caso das diferenças e das normalidades. Gostaria de me centrar mais na questão da solidão em si. Pois mesmo aqueles que não a preferem, já passaram por momentos que pensaram “por incrível que pareça, me sinto bem ao estar acompanhado pela solidão”. Ou será que não? Adquiri tal mania de pensar no que outros podem estar pensando, no que já pensaram e no virão a mastigar na mente. Há quem possa vir a indagar, o que eu “ganho” com isso? Quiçá, nada. Mas creio que distraio a mente e me iludo também com a idéia de que não estou pensando por mim e sim pelos outros. Não que seja um pensar egocêntrico do tipo “olha como penso e olha como ninguém mais o faz”. Não, nada disso. Até acredito que todo esse pensar é um causador bem tormentoso às vezes e vejo que a humanidade caminha com menos dores e receios sem tal mania.
Depois de voltas e mais voltas sobre, ONE MORE TIME, a questão do pensar, me pego na responsabilidade de terminar a postagem com algo que se refira à solidão, esta que o buk inventou para o personagem, esta mesma que sinto ou algo dentro de mim inventou que eu sentiria. Ler que “a solidão para mim é a comida e a água dos outros homens” me faz lembrar do contentamento que é sentir-se sozinho e por isso mesmo não sentir-se só. Será que deu para entender? Será que é possível alguém sentir realmente a solidão como companheira? Tal indagação é irrelevante. Já que o conceito de possível e impossível varia de pessoa para pessoa. Comigo sempre é possível. Para outros, é improvável que se sintam bem tendo a solidão como única e tácita companheira. Certamente impossível, para estes, é vê-la, ao menos, como instrumento de reflexão.

05/08/2009

As (re)voltas de Klaus: um antagonista

A tarde escorria lépida pelas avenidas movimentadas da metrópole. O céu bailava entre um azul quase claro e um cinza lúcido, lá estava ele, Klaus, morrendo sua vida como se fosse o primeiro dia de sua existência. Os sons não atrapalhavam desde o dia que ele não mais os ouvia, os dias quentes não mais o transtornavam desde o momento em que a vida ficou fria. Os pesares eram transformados em simples pensares revoando como aves silvestres em círculos acima da sapiente esplanada: o todo dele.
Klaus era daqueles que jamais dizia ‘mais um dia comum’. Por mais que os dias fossem meditabundos, cansativos, arrasadores e intempestivos, ele sorria interiormente toda a sua dor e proclamava ‘vou morrendo minha vida, vou esbarrando em títeres de cobre, vou percebendo meus cacos e ossos espalhados, vou resistindo ao que penso ser irresistível, resistir não é o que me resta, resistir é minha escolha!’. A agonia ia vibrando em seu ser enquanto a tarde transformava-se, aos poucos, em noite.
Ele agonizava por mais dias e noites, fossem como fossem. Cada agonizar era único, cada suspiro o derradeiro, cada olhar resguardado em pedaços grossos de memória infinita e cada partícula de suor que derramava pelas alamedas da existência ia se fundindo ao que em breve ele descobriria: a vida! A vida que por mais antagônica que fosse não era em vão. O vão não era o espaço sem preenchimento, era apenas uma porta entreaberta, uma janela nem aberta nem fechada, uma palavra metade dita, metade implícita.
A relva fresca no fim de tarde o acolhia. Um livro era suspenso por uma de suas mãos enquanto a outra servia de travesseiro; pernas estiradas, olhar perdido naquela imensa viagem ao redor da poética de Byron. Estava decidido: nada mais iria decidir. No momento estava ali lendo, pensando, sentindo a fortaleza dos poemas o encobrirem e o enlaçarem completamente em dúvidas líricas. ‘Que ótimo ter dúvidas, são elas que me fazem caminhar em busca de mais saber’, suspirava Klaus enquanto mais uma página era devorada por suas abstrações.
Foi então que a noite tomou conta totalmente do ambiente outonal. E aí veio mais que um lamento, veio um desejo de (re)volta. Mas já era a noite que escorria lépida. Quem sabe, numa próxima tarde, terminaria a leitura; quem sabe, não viria mais uma tarde; quem sabe, a noite seria o último vestígio de vida; quem sabe, um antagonista nunca viveu e tão apenas sonhou.
A (re)volta parecia querer escorrer por seus poros: faminto, devorou a noite; teve náuseas de manhã e vomitou a próxima tarde.

02/08/2009

Hamlet: além do que se vê

“Boa mãe, não é só meu manto como tinta,
Os trajes costumeiros de solene preto,
Rajadas de suspiros no forçado alento,
Oh não, nem o copioso rio dos meus olhos,
Nem a aparência deprimida do meu rosto,
A par dos modos, ares, vestes dolorosos
E excede o aspecto, e os trajes e hábitos de dor.
Que me revelam de verdade. Isso parece,
Pois é conduta suscetível de encenar-se,
E excede o aspecto, e os trajes e hábitos de dor.”
Ato I, Cena II.


Esta é a inquietante resposta de Hamlet à indagação de sua mãe, a rainha “prostituída” Gertrudes. Ela o questionava sobre os motivos de parecer estar sentindo a morte de seu pai como algo pessoal (“... sabes que o vivo a de morrer – é lei geral – passando, rumo ao outro, pelo mundo atual”) mesmo sabendo que a morte é uma sina que pesa sobre todos. Deixando a questão “finitude existencial” de lado, retornemos ao cerne da fala do jovem príncipe da Dinamarca: por mais que sua aparência fosse funesta, por mais que promulgasse uma elegia bem retratada pelas vestes, atos e gestos sem efusão de alegria e animação, por mais que o negro da vestimenta diagnosticasse alguém passando por um luto extremamente sentido e lamentado; a dor intensa e profunda e o abatimento não poderiam ser comparados com qualquer aparentar obscuro.

Old man reading - Vincent Van Gogh

“Um livro deve ser o machado que partirá os mares congelados dentro de nossa alma.” Franz Kafka.
Naquele espaço pequeno do sapato que não encosta no chão, poderia encontrar-me.

Este livro...

Falar em leituras com qualquer um é querer encerrar o assunto. Há aqueles que lêem, mas não sentem porque esquecem que não basta ter o conhecimento da grafia das letras e palavras. É preciso revirar as vísceras. Algumas vezes indaguei aos outros sobre o que sinto às vezes quando leio determinado livro: Já sentiu que o autor escreveu algo sobre si mesmo, mas que se estende ao leitor? No geral, as pessoas nem respondem e se respondem vem a resposta negativa. Por isso e por outras ignorâncias, Florbela foi execrada. E eu ainda fico me perguntando como pode não existir quem sinta exatamente o que se passa nos versos

Este livro é de mágoas. Desgraçados
Que no mundo passais, chorai ao lê-lo!
Somente a vossa dor de Torturados
Pode, talvez, senti-lo... e compreendê-lo.


Existo. E me vejo em cada um desses versos. Livros e mágoas são para todos. Porém, poucos os acolhem no âmago. Ao mesmo tempo em que me despedaço fazendo mil conjecturas, me sinto não a melhor ou diferentemente superior aos outros todos, apenas alguém diferente que entre tantas desgraças e torturas, consegue abrir sempre mais um livro de mágoas e reviver com ele as dores idas e aquelas que jamais partem.

Florbela Espanca: Eu (ou pedaços deste)

Concomitância com o intrínseco. Divisa entre todo o resto e o que existe de único. Eu sem controles. Quem o controla deixa de ser único para ser como o todo. Há quem não vê problema em abdicar do que se é em nome de um bem-estar no meio. Há quem prefira deixar para lá e somente respeitar o que se passa no íntimo. Mas.. me pego pensando.. será que mesmo quando pensamos que estamos respeitando o que emana do âmago, estamos, de fato, colocando para fora o que somos ou o que em algum momento decidimos que deveríamos pensar e sentir? Será que existem seres que vivem com suas idéias intocáveis? Será que tudo aquilo que ouvimos por aí e que nos atormenta tanto no hoje, não foi o que nos tocou profundamente no antes? Como saber? Como ousar saber? Todos temos esse tal de “eu”. Dói. Macula. Deixa-nos doidivanas.. pelos menos àqueles que tanto insistem em continuar pensando “nele” como algo capaz de causar mudanças estrondosas ou uma inércia inominável de tão mordaz. Sim, é ele que faz tudo isso. Sem dó. Faz e refaz. Joga-nos à parede e quando tentamos nos voltar, ele ataca, batendo em pontos frágeis. Ele? Eu? Quem? Já não sei... o que falar mais se, mesmo querendo negar, tudo isso se emaranha numa teia a ponto de não sabermos limitar onde se projeta um e onde outro. Talvez, não haja mais luz de tipo algum para que as sombras se projetem. Talvez, toda a luz que já existiu foi apenas ilusão ou uma quimera tão possível em sonhos, mas tão impossível quanto inverossímil no real. A escuridão é interessante, mas para isso precisamos saber, pelo menos, onde estamos ou o que desejamos. O eu não sabe. Não sempre.

Convencionalidade incomum

Verão. Fim de semana.
_Praia – pensava alto Hanna.
_ Praia? – gritou Gerônimo aturdido com os pensamentos dela. Ele queria ficar em casa, dormir, acordar, fumar, beber e dormir novamente; afinal, esteve na labuta a semana inteira, havia saído debaixo do sol estafante e desanimador durante cinco dias consecutivos, o mínimo que seu corpo merecia era descanso.
_ Eu também quero descansar – argumentava ela. Soltando um suspiro, Gerônimo diz:
_ O problema é que temos conceitos diferentes para a palavra descanso. Ela não se deteve, pois estava convicta de que o convenceria. _ Não seja tão rabugento e deixe de filosofar! Velhos é que precisam de sossego, você deveria querer o que homens de meia idade desejam para um fim de semana em pleno verão: praia, uma boa companhia e agito no fim da tarde. Como ela falava desenfreadamente, ele encostou-se na parede, olhou para o lado e viu um livro do Fernando Pessoa acenar-lhe sobre a mesa.
_ Sou mais velho do que sou. Disse ele recordando-se de um verso do poeta que o acompanhava nas noites nas quais o sono embrenhava-se para bem longe de seu inconsciente, fazendo-o permanecer desperto até o amanhecer. A mulher o olhava com ar de quem espera uma resposta mais convincente ou pelo menos mais notória. Ao olhar na direção dela, ele pensa ver naqueles olhos dois enormes pontos de interrogação e se esforça para que seus próprios olhos sejam vistos como dois pontos de exclamação, embora saiba que ela só vê o explícito. É totalmente incapaz de mirar um cemitério e remeter o pensamento a H.P. Lovecraft, mas até este deplorável aspecto da personalidade dela poderia ser desculpável se ela fosse um pouco menos autoritária em suas idéias influenciadas por um sistema comum-extremista.
Ela ainda o olhava com ar de tolice acentuada. Ele se perdia entre o recordar de alguns poemas do Pessoa e as tumbas obscuras de Lovecraft, quando ouviram um grito que vinha do apartamento ao lado. Saíram os dois na sacada e observaram a vizinha desesperada com suas roupas no varal as quais começavam a molhar por causa da chuva torrencial que começava a desabar enquanto ele divagava e ela esperava por explicações que se encaixassem exatamente nos moldes daquilo que ela esperava ouvir.
Ele respirou aliviado e resolveu a equação: fim de semana + chuva inesperada = três possibilidades de resposta: descanso, leitura, dois dias consecutivos sem incômodos. Ela sentiu-se infeliz. Praguejou contra a chuva e quase chorou de tanta raiva. Ela, é claro, não teve cabeça para resolver sua equação, mas ele resolveu por ela: chuva medonha, raiva e mais um pouco de raiva = sem possibilidade de praia. Ele riu sozinho. Balançou a cabeça para afastar essas idéias sem serventia e ela diz:
_ Teremos o fim de semana que você tanto quis.
_É. Mas.. pense bem.. tudo acaba, tudo fenece. Nem este dia que me deixou tão satisfeito, nem este dia que a deixou tão chateada irá durar para sempre. Tantos virão que eu me sentirei como você se sente agora e outros tantos semelhantes àqueles outros de verão que você tanto aprecia. Ela olhou para o nada e acrescentou melancolicamente:
_ Será que chove na praia também?
Ele já não a ouvia. Estava sentado na cama com as cobertas até os joelhos, lia, bebia e agradecia a Dionísio por ter enviado a chuva que o libertou da ida horrenda à praia.
Hanna entrou chorando no quarto.
_Como a chuva me deixou infeliz!
_Por que não se atira daqui do nono andar até o térreo? Talvez lá a chuva não tenha chegado ainda. Tentativas nunca são em vão.
_Você me detesta.
_Detesto essas tuas manias de ficar reclamando das minhas. Embora, o que acabei de dizer seja redundante, é o que sinto.
_Continuaria gostando de mim se estivéssemos na praia?
_Sim...
Ele deixou escapar a reticência. Enquanto ela saía do quarto para ligar a TV, ele completou:
_... até porque na praia tem areia, buracos se fazem, acidentes ocorrem e mulheres sufocam debaixo dela da areia.
Ele grita enquanto pensa maquiavelicamente: _ Se fizer sol semana que vem, vamos à praia?
E um lascivo sorriso insano já antevê o que virá.

Memórias do que não ocorreu (justificativa para ficcionalizar)


_ Engraçado.

_ É. Muito pode ser engraçado.

_ Talvez o que estou sentindo seja estranho e não engraçado.

_ Pode ser que esteja sentindo das duas formas. Existe muita coisa estranha também.

_ É, mas eu queria poder explicar. Queria encontrar a exatidão do meu ser.

_ Muita pretensão para um ser humano.

_ Por que não me chama logo de pretensioso?

_ Mas eu o chamei. De forma polida, mas chamei.

_ Você é detestável! Sabe, sei que há muitos à minha volta agora como sempre estiveram. Porém, me sinto cada vez mais sozinho.

_ Ser sozinho numa idéia é ter quase a certeza de originalidade.

_ É triste essa frase que acaba de proferir. Mas concordo.

_ Triste e alegre porque tudo tem duas partes. O que agrada e o que desagrada. Agora já comecei a ser óbvia...

_ Ah, eu não sei de mais nada! Antes eu ficava bem, sozinho. Agora nada me consola. Nem a solidão, companheira de anos. Começo a pensar que a dispensarei em breve.

_ Como pretende fazer isso?

_ Você é medíocre! Não percebeu a redundância da minha frase? Como pode a solidão ser companhia?

_ Não sei como, mas pode.

_ É. Também sei.

_ Você sabe é complicar.

_ Eu já soube e gostei mais. Agora tudo está tão... vazio.

_ Como é esse vazio?

_ O meu vazio é como uma das partes do nada. Vontade como presa da inércia.

_ Apatia existencial?

_ Menos do que isso.

_ Começo a entender que não entenderei.

_ Isso é bem óbvio. Começa só agora? Pensei que se encontrasse convicta de tal fato.

_ Você pensa, eu penso... que mal esse o de pensar! Vai nos maltratando por dentro.

_ O pensar nos leva a mais profunda melancolia. Ser triste não é o que aturde, mas sim essa monomania de querer compreender.

_ Aquele músico maluco que já morreu disse um dia que ele cansou de tentar compreender e de querer que os outros o compreendessem. Então, ele decidiu só confundir.

_ Aposto que ele chegou ao fim dos dias mais confuso do que qualquer outro.

_ Por que você sempre estraga minhas frases?

_ Desta vez estraguei também a do tal músico... e não chamo isso de estragar ou denegrir, mas sim de comentar.

_ Comente sozinho então.

_ É o que estou fazendo.

_ Está dizendo que eu sou sua imaginação?

_ Não. Você é parte da minha solidão.

_ E a outra parte?

_ Aqui. Como sempre.


(Interferências e inspirações após leitura dos contos do Caio Fernando de Abreu).

31/07/2009

Passos da noite para o dia

A deusa Nix ficaria balançando o tecido escuro por ainda mais algumas horas. Ele caminhava com o pensamento correndo em seus sentidos conturbados. A hora passava depressa quando ele precisava que ela se postergasse um pouco mais. Dia complicado. Vazio. Alegre falsamente. Triste por impossibilidade de ser diferente. Diferente do que é. Diferente do comum. Igual ao que sempre foi. Mas o que foi? Foi? Viveu? Como? Da pior maneira: procurando uma compreensão, um entendimento para toda aquela sujeira que todos se acostumaram com o mau cheiro e vendiam nas melhores perfumarias de todo o país.
Passos mais largos, respiração ofegante. Cansaço. O pior cansaço vinha do íntimo e não do físico. Cansado, quase previa que o derradeiro passo estava próximo. Procurava algo no bolso que o fizesse se distrair enquanto não chegava... chegar? Sua vida estava sempre indo e jamais chegando. Uma eterna ida tão nauseabunda que ele a preferia esquecida no exato instante que ocorresse. Ida alguma tem fim? No caso dele não. Era sempre uma ida, uma apenas. Chegada jamais. Sem tentativas. O que ocorria, era simplesmente o que vinha, se mostrava e logo já era parte da vida corrosiva de outrora. Pensamentos, reles pensamentos ficavam impregnados enquanto os outros, alguns outros melhores, iam saltitando para longe até que o olvidar tomava conta e levava para o espaço do ‘nunca mais’. Lembrou-se do corvo daquele escritor obscuro... o nome do escritor... Poe.. “Poeira”, brilhou em sua mente. “Dust in the wind”, o nome daquela música.. “all we are dust in the wind”. “Queria ser apenas, logo de uma vez, essa poeira ao vento”, bradava o seu pensar latente, tão intenso que quase parecia forma viva, palavra dita.
Passos vagarosos. Pés menos doloridos do que a alma mastigada e cuspida na pior sarjeta. Respiração sôfrega. Mente desvairada em busca, em busca de nada!!! Em brusca inércia lancinante. Passou por uma casa, luzes apagadas, samambaias bailando em plena melodia desconexa do vento, sacada vazia de gente, cheia de solidão; lá do alto, talvez do quarto do filho mais velho, vinha um som. Entoava o cantor “talvez a gente encontre explicação, um dia desses, num desses encontros casuais, talvez eu diga, minha amiga, pra ser sincero, prazer em vê-la, até mais”. Ele estacou. Ficou ali recuperando um pouco do fôlego. O fôlego de ainda querer persistir. A música continuava... e ele pensava... “é masoquia ter esperança.. a gente nunca entende nada mesmo e quando pensa que entende, logo após, percebe que enganara-se..”. O cantor continuava, “Nós dois temos os mesmos defeitos, sabemos tudo a nosso respeito, somos suspeitos de um crime perfeito, mas crimes perfeitos não deixam suspeitos”, enquanto os pensamentos daquele homem ficavam ali perdidos naquela noite, naquela noite que era apenas mais uma, mais uma antes, antes, antes.. sempre existe um antes. O depois que nunca vem. Nunca quando se quer. Nunca quando se precisa. Ele saiu fingindo esquecer a melancolia. Quando ouviu aquele cara cantando “crime perfeito”, lembrou daquele outro escritor, aquele russo, aquele do nome incrível.. “crime e castigo”, Raskonikov. “Nãaao!!!” berrou o homem para a sua mente.. “Este é o personagem, o autor é Dostoievski. “Mas quem liga? Isso tudo é apenas resto, resto de tudo o que li, do que senti, fica tudo assim jogado comigo e assim nos enterraremos.. crime e castigo, escritor russo, o Poe, a poeira, o vento, o corvo...”
“O corvo grasnador crocita por sangue” e mais uma frase de um livro vem-lhe à mente. Desta vez é uma passagem de “Hamlet”. “Quem me dera ter a companhia de corvos em meus umbrais. Nem umbrais tive...”. Faz-se a hora derradeira. Já era tempo de deixar que os outros tentassem fazer o que ele definitivamente não fez.

O céu grunhia a ira de Júpiter.
I
O desespero sempre ecoando. A voz que insiste em seguir proferindo o que o ser já sabe, mas todo o resto desconhece. Tudo em vão. Ninguém ouve. Ninguém sente. Todos têm. Ninguém quer ser. O importante é o que se tem. O não importante é o que se é. Oh, como podem ser tão medíocres? Como posso ser assim tão diferente? Seria melhor ter nascido notório? Sofreria menos? Talvez. Ainda assim seguirei minha chama, seguirei mesmo que ela venha me consumir em breve. Dores tremendas. Agonia. Solidão. Solidão que faz bem porque o ser não se abandona. Os outros sim. Ele não. Diferenciado. Grita. Ouve a si mesmo. Mais ninguém conseguiria. Desespero? Ninguém percebe. Desespero? Ninguém mais sente igual. Desespero? Assim prossegue. Desespero? Sim. Completamente desigual!


II
Depois de um tempo, tudo ainda permanecia como sempre: pensamentos rasgando o peito, palavraSentimentos que demonstravam toda a paranóia acertada de uma existência, todos os meios que não participava por pura escolha própria, todas as insólitas reações que tinham chamado a atenção de quem preferia a notoriedade.
Era a fumaça que fazia com que se lembrasse de si. Nela estavam não as respostas, mas as tantas indagações que sempre carregou. E o fato de nunca encontrar respostas é o que torna uma vida tão sedenta por algo que ainda desconhece. Depois de um tempo, tudo ainda permanecia como sempre, mas com algo incrivelmente acrescentado: o compartilhar da solidão.

Pedaço de uma ode antiga

O hoje é a tentativa;
É a busca pelo momento
Que ora se revela ora se esquiva;
É o desejo incontido pelo tormento!

O mesmo sentimento
Que nos realiza,
Machuca, deprime, causa atordoamento.
A mente desliza
Entre o lado inverso do gume de uma faca
E o fim agudo de uma estaca.

É assim que funciona
Nas entranhas da galeria da alma:
A dor com sua corrosiva calma
O ódio real que boa parte das ilusões soluciona.

Num dia deprimente
Para todo o resto da perdida humanidade,
Apreciamos a insistente calamidade,
Que vai num desvario
Ate deparar-se com um breve rio
Chamado Metade.

É bom sentir que os outros trepidam
Indecisos, sozinhos, incapazes de um incerto pulo.
Enquanto nós provamos o cálice da incrível angústia
De odiar mesmo na física ausência
E sofrer na mesma descompassada cadência.
Eis o pêndulo
Que dá boas-vindas à incoerência!