Quinta-feira, 16 de Outubro de 2008

(IN)suportável

É suportável ser enganado.
Insuportável é conviver com a culpa de ter enganado muitas pessoas.

E mais insuportável ainda é ter a certeza de que enganou-se mais a si mesmo do que aos outros.

É suportável ser humilhado.
Insuportável é sentir-se aquele que nunca esperou ser humilhado primeiro para humilhar depois.

Mais insuportável ainda é saber-se humilhado por si mesmo através de seus atos mal pensados, de suas vontades repentinas.

É suportável ser julgado.
Insuportável é a agonia que sente aquele que sempre julgou os outros e nunca foi capaz de olhar com mais atenção para suas ações incoerentes.

Mais insuportável ainda é a descoberta de nunca ter sido julgado e, mesmo assim, ter julgado sempre a todos!

Comentando...

Uma citação do livro "O Colecionador" de John Fowles:
"Esquecer não é algo que podemos fazer, é algo que nos acontece ou não!"

A profundidade dessas palavras me fizeram perder o sono durante à noite. Na verdade, é isso que sempre sentimos quando desejamos não mais pensar em alguma situação ou pessoa... sempre queremos esquecer algo que demoramos algum tempo para começar a gostar... esquecer ou não, definitivamente não depende de nós! Depende, talvez, do tempo que sempre passa e com ele leva nossas angústias e pesares mais profundos. Nós somos tão frágeis, tão sensíveis que nada podemos fazer a respeito do esquecimento ou não. Por mais que se tente, por mais que se queira... parece até que quando mais se quer, menos é que se consegue esquecer!
Então, não devemos ficar dispendendo forças, perdendo tempo de vivenciar os momentos para ficarmos tentando entender o porquê de não conseguir esquecer quando mais se quer. Esquecendo ou não, os momentos devem ser vividos de forma a se tornarem nossos companheiros a serem comparados a amigos com todos os seus vícios e defeitos! Aceitando os momentos, aceitaremos melhor o fato de esquecermos ou não tal situação ou pessoa... e assim fica mais simples de se viver! Uma possibilidade: tentar!

A revolta ainda permanece

Algumas vezes, preferimos permanecer com a mão confortável e quente no bolso do casaco do que estendê-la em socorro de uma alma angustiada, em ajuda a uma face transtornada.
E, algumas vezes, até estendemos a mão, no entanto, procurando mais apoio para si próprio do que oferecendo acolhida; e com certeza um dia chegará em que cobraremos esse ato de estender a mão, mesmo que tenhamos sido mais auxiliados e confortados do que a outra pessoa que realmente necessitava.
Assim somos nós, ditos, seres humanos: caóticos, egoístas, extremistas, preconceituosos e, cada vez mais, sozinhos com nossas mediocridades latentes.
Apontar os erros é fácil. O difícil é reconhecer esses erros como nossos!

Ler para SER

A alienação torna-se nossa companheira quando não lemos. Ficamos sensíveis à parafernália de informações e tudo o que nos é proposto, automaticamente é aceito por nossos sentidos fragilizados por conta da falta de leitura.
A leitura é um privilégio (lê-se: escolha) para poucos. E digo isso porque escuto muitos proferirem: “Ler para quê? O que isso me trará de bom?”. É muito difícil convencer alguém de que a leitura é essencial para o nosso bom desenvolvimento como seres humanos. Ninguém morrerá mais cedo se em toda a vida não ler livro algum, porém terá vivido uma vida totalmente (?!) sem emoção e sem aprendizado. Já dizia um filósofo alemão: “Ler é aventurar-se, é viajar sem gastar um tostão e permanecer com os sapatos novos!”.
O mundo da leitura é mágico. Fornece mecanismos para que nossos sentidos fiquem mais aguçados, para que nossas mentes se abram feito pára-quedas – que só têm serventia quando estão abertos – em direção ao infinito, ao desconhecido, ao inusitado. Rubem Braga disse: “Ler para ser e nada mais” e faço dessas as minhas palavras. O que a borboleta é sem asas é o que somos sem leitura. Perdemos nossa liberdade ou só a adquirimos quando entramos no macrocosmo dos livros empoeirados, das páginas amareladas e dos autores memoráveis.
Só alcançamos a verdadeira libertação da mente quando nossa alma é regada pela existência da leitura.
Para sermos mais do que reles seres os quais vagueiam pela terra em busca de algo desconhecido, temos que ser orientados por uma força que nos auxilia a desencadear descobertas. Tudo isso nos leva a crer que ler é não permitir a imposição do mundo, é saber perguntar quando todos almejam freneticamente por respostas!

"O mais simples, o mais importante"

A ganância humana chegou em seu cume mais alto, somos incentivados pela mídia, a trabalhar para garantir nossos bens de consumo, é quase uma ofensa dizer, hoje em dia, que o certo é trabalhar para ter somente o essencial, ou seja, esforçar-se sim, mas nem sempre estar em busca do material. Existem coisas mais importantes na vida! “Existem?”, pergunta a voz comum.
Aquela imagem bucólica do homem no campo, cujo objetivo é viver do que planta, e nada mais, é um exemplo, hoje, de como deveríamos ser e viver. Até porque o mais simples é visto como o menos importante. Será por que nossos conceitos de progresso estão cada vez mais consumistas e menos moralistas?
Quem trabalha sempre pensa que está ganhando menos do que merece e se indigna porque mais uma vez não será possível comprar o último modelo de celular lançado na última semana. Enfim, todos querem ter mais e mais mesmo que o tempo para aproveitar seja curto, e não pensam que é melhor ter menos, mas ainda assim conseguir lembrar em ser.
Há muito ainda o que rever em nossos conceitos humanos e morais, pois quando coloca-se o financeiro antes do humano, percebe-se que o mais simples, não é visto como mais importante!

Algumas indagações existenciais e suas respostas

Respostas de uma sombra que aprendeu que o sofrimento faz crescer e evoluir para uma sombra que sofre por ainda não ter aprendido tal lição
(as respostas foram retiradas de um texto-crítica de Rafael Luerce e as perguntas pertencem a esta sombra que ainda permanece por estes recantos blogueanos):

_Que pingos estranhos são estes tão sangrentos que escorrem de tua face congestionada de tão sombrios sentimentos?
"Escorrem os rios forjados a lágrimas, rodeado pela floresta arborizada pela dor.”


_Em que dolorosa agonia encontra-se? A diferença entre perda e ganho pode ser mesmo apenas uma tentativa a mais?
“Aqui me encontro... aonde aquele que perdeu foi o único que ganhou.”

_O que diria se eu dissesse que a vida já me causa somente vontade de partir?
“Tristeza mesclada as águas, vertendo o vazio. Abandonados por si mesmos, negados o olhar.”

_Bem sei que jamais serei visto. Sou invisível. Não sofro. Aceito e já estou resignado. Me dê um pouco de acalento. Somente por esta noite fria e tão diferente das tantas que já vivi e das tantas outras que virão.
“Vagam, desbravam, mas nunca são vistos.
Sonhos destruídos apenas por infortúnio daqueles que a sorte abandonou”

_E pensar que eu já tive esperança… sabe me dizer o que fiz dela ou ela fez de mim, oh sombra me banhe com teu aprendizado!
"Os mesmos que sentam à margem e brincam com barcos de papel são aqueles que ignoram a existência das águas. Onde aquele que nada ganhou, perdeu a única coisa que tinha, sua esperança."

A raven or my soul?

A dor não está sendo dividida
Está sendo aumentada.
A tua, a minha: mesma vida fadada
Ao epílogo da angústia dolorida!


Estava eu em meus aposentos. O vento lá de fora pedia abrigo por entre meus umbrais internos de gárgulas. A noite fria renovava as dores mais dilacerantes em meu espírito em eterno regresso.

Zumbidos insólitos!
Será mesmo que existe outro ser

Tão ou mais maldito
Do que esse miserável espírito
Que sinto em mim “feneflorecer”?

Seria a lua padecendo pela mutação de mais uma fase? Seriam as plantas a se debater por necessitarem de acolhida no manto negro da noite? Seria a morte abrindo sua garganta voraz até o caminho dos algozes? Quem aí zumbe? Seja quem for, deixe-me ler as agonias de Werther por sua tão simplória Lotte, assim pode ser que meu inquieto coração desista de sofrer e rasgar-se a cada novo amanhecer, pois quem passa a conhecer a dor alheia e se esta for maior e mais opressa do que a própria, sentimos que ainda é possível continuar, já que existiu alguém o qual mais sofre ou sofreu. “Que venha então toda a dor que ainda não me tocou... chega de goles quero afogar-me em rios de peitos rasgados e ensangüentados pela minha besta solta. Mas... e esses zumbidos que não cessam? Quem ou o que aí se encontra? Abra meu peito, pegue minha adaga sobre o livro de Goethe e arranque o meu último suspiro para desatar-me desse laço de vida maldita!

Um último zumbido ecoou no recinto, último porque a que ouvia e assistia não esperou que mais alguém a carneasse com a adaga. Fez por si só, mas antes ainda ouviu em seus sentidos desconexos a realidade massacrante:


A dor não está sendo dividida
Está sendo aumentada.
A tua, a minha: mesma vida fadada
Ao epílogo da angústia dolorida!