_Um fantasma!? – Henry coçou a cabeça, dubitativo.
_Um fantasma – confirmou o diretor do Museu. _É o que todos os guardas confirmaram. Surgiu de repente na seção de antiguidades gregas, onde o tesouro funerário de Agamenon estava sendo exposto e, de súbito, as jóias sumiram...
_Hummmmm... Tem dente de coelho nessa história – insistiu Henry. – Hoje vamos pernoitar no museu.
_Oh, por favor – implorou o diretor. _O senhor tem de achar o tesouro. Temos de devolvê-lo ao museu de Berlim, ao qual pertence. Ele estava aqui numa exibição provisória...
Na mesma noite, depois de se apagarem as luzes no museu, Henry, Camille, Charles e Richard, sorrateiramente, para não dar na vista dos eventuais ladrões, puseram-se a circular pelos corredores.
Tudo estava escuro e silencioso.
Na seção grega, os objetos iluminados das vitrines, espadas, vasos, terracotas, espelhos, faziam pensar em todo o tempo que se passara e nas histórias que aqueles objetos tinham presenciado. A vitrine onde fora exposto o tesouro roubado estava vazia.
_Mas quem era esse sujeito, afinal? – questionou Camille.
_Antes de tudo temos de saber se ele era realmente ele... – sorriu Charles.
_???
_Agamenon é um dos reis gregos citados por Homero no poema épico “Ilíada”.
_Sei: o poema que conta a história do rapto de Helena, esposa do rei Menelau, a mais bela entre as mulheres. O filho do rei de Tróia, Páris, raptou-a e levou-a para casa. Aí todos os reis da Grécia se uniram para vingar o “colega”. Durante dez anos sitiaram Tróia (também chamada Illion em grego) e por fim destruíram a cidade.
_Perfeito. Pois o principal rei grego a chefiar essa expedição vingativa foi Agamenon, irmão de Menelau. Mas, quando a guerra terminou e Agamenon voltou para casa, foi assassinado pelo amante de sua esposa. Clitemnestra. Ou pelo menos é isso o que conta a lenda. E seus dois filhos, Orestes e Electra, fazem tudo para vingá-lo. Esse, aliás, é o tema de várias peças do teatro trágico grego.
_Puxa! – exclamou Richard. _E esse tesouro que roubaram era mesmo o que fora colocado no túmulo de Agamenon?
_Isso nunca pôde ser provado e é mesmo improvável. O nome “tesouro de Agamenon” ficou mais por tradição. Mas, de qualquer forma, se não se trata do tesouro mortuário de Agamenon, pertenceu com certeza a outro rei micênico, como ele. Eles eram enterrados com máscaras de ouro e vários objetos sob cúpulas de pedra.
_Um rei o quê? – perguntou Camille. _Eu pensei que eles fossem gregos.
_“Grego” é uma palavra genérica. Serve para designar vários povos que, sucessivamente, até hoje, habitaram essa península montanhosa em forma de mão que estende seus dedos pelo Mediterrâneo e se prolonga numa multidão de ilhas e ilhotas. Uma das primeiras culturas dessa área é a cretense...
_Creta não é uma ilha relativamente grande, ao sul da Grécia?
_É. E foi o lugar onde se desenvolveu uma nação de navegantes e mercadores que acabou dominando boa parte desse pedaço do Mediterrâneo. Olhe para esses vasos.
_Desenhavam polvos neles...
_Polvos, conchas, peixes. Motivos de decoração de um povo marítimo. Além disso, desenhavam flores e touradas. Eles tinham um deus-touro.
_Sei. O famoso Minotauro do labirinto de Creta.
_Esse. Pois bem, ao mesmo tempo em que se desenvolvia a civilização marítima dos cretenses, aí pelas costas da Grécia desenvolvia-se a civilização micênica, da qual conhecemos bem os restos de Micena, uma de suas cidades, construída com enormes blocos de pedra. Como as duas culturas se interpenetraram, chamamo-las pelo nome único de cultura cretense-micênica. Agamenon foi um rei micênico.
_Hummmm – proferiu Henry, que vinha entrando após examinar as armadilhas antiladrão que estavam dentro de sua mochila. _Então a “Ilíada” foi escrita por poetas desse período micênio...
_Foi. Pelo menos as primeiras versões dela. Mas o extraordinário é que ela tenha sobrevivido.
_Por quê?
_Porque a civilização cretense-micênica foi completamente destruída por uma invasão de pastores bárbaros vindos das montanhas do norte. Esses nômades, os helenos, atingiram as cidades micênicas lá por 1100 antes de Cristo e, pouco depois, atingiram Creta e suas colônias. Se comparados aos civilizados micênios e cretenses, os helenos eram uns selvagens grossíssimos. As artes quase que desapareceram no começo de seu domínio. Por isso eu disse que é de se espantar que a “Ilíada” tivesse sobrevivido para ser lembrada. Mas, por fim, as duas culturas, a antiga e a nova, acabaram se unindo e produzindo um dos mais prodigiosos florescimentos culturais de que temos notícia: a civilização grega, ou melhor, a helênica.
_Olhem aqui!!! – disse Henry.
Pé ante pé todos seguiram-no pelos corredores até atingirem a seção medieval. Um armário estava aberto.
_Hummmm... – comentou Charles, examinando-o. _Alguém estava folheando os velhos alfarrábios de alquimia e necromancia.
_Do que?
_Necromancia era o nome da arte de evocar o espírito dos mortos. Reparem: abriram também a vitrine onde estavam guardadas as varas mágicas. Alguém estava interessado nas artes ocultas: cabala e astrologia.
_Que tal? – disse Henry atrás deles.
_Perfeito – riu Camille ao voltar-se, vendo-o coberto por manto e capuz estrelados de mago. _Você parece um feiticeiro.
_Pareço só, não – brincou ele. E com voz cavernosa, agitando a vara mágica, acrescentou: _Hocus Pocus!
Instantaneamente foram envolvidos por um tremendo fragor. Berros, uivos agoniados, entrechocar-se de armas, o estrepitoso rolar dos carros de guerra!
_Henry! – berrava Camille. _Onde você está!? Pare! Pare, Henry!
Henry agarrou-a e puxou-a para longe da confusão, desviando-se das espadas e setas que passavam sibilando.
_Pare! Pare! – continuava chorando Camille, que tapava os olhos. _Chega dessa brincadeira! Pare!!!!
_Não posso – retrucou ele, escondendo-se com ela atrás das pedras.
_Por que não!?
_Porque não tenho a menor idéia do que aconteceu!
_Mas onde estamos? Aqui é dia claro e estávamos na noite escura lá no museu. Quem são todos esses homens encouraçados brigando?
_Não sei, estou dizendo. Para mim parecem soldados gregos de 2000 anos atrás...
_Gregos?
_Gregos e persas.
_Persas?
_É. Estou reconhecendo porque eles se vestem como aquelas estátuas e afrescos que vi no museu.
_Mas...
Não completou a frase: sentira o aço frio da ponta de uma espada encostar-se em suas costas. Voltou-se lentamente para ver um grego de olhos mortiços junto à pedra. Com uma das mãos ele segurava uma grande ferida na coxa e com outra brandia a espada.
No mesmo momento Charles, coberto de poeira, emergiu de trás da pedra, disse delicadamente “Desculpe” e tirou a espada da mão do ferido. Por um instante o outro olhou-os surpreso. Mas não tinha forças para opor nenhuma resistência. Deixou-se escorregar até sentar no chão e gemeu:
_Por Zeus misericordioso, eu vos imploro, não me entreguem a seus amos. Tenho filhos e esposa em Atenas.
_Hummm?
_Vejo pela roupa que vocês não são gregos. Devem ser, pois, escravos do exército do grande rei, não?
Henry começou a examinar-lhe a ferida, assegurando ao rapaz que não iam entregá-lo ao grande rei de quem, fatalmente, um prisioneiro de guerra se tornaria escravo.
_Mas que grande rei é esse de que ele está falando? – indagou Camille.
_Se é o que estou pensando – retrucou Charles espiando perplexo para a luta -, é Dario I, rei da Pérsia. Diga, amigo, que lugar é este? – perguntou ao ferido.
_Estamos em Plantea – retrucou o rapaz num gemido.
_Então – prosseguiu Charles – o que assistimos é o encontro final que encerrou as guerras entre persas e gregos: a batalha de Plantea em 479 a.C. Repare como os gregos se vestem de maneira mais ou menos uniforme, enquanto seus adversários usam todo tipo de roupas e armamentos. Isso é porque o exército de Dario, o rei dos reis, é recrutado nos quatro cantos do império persa, formado por povos diversos. E estou vendo, aliás, que Heródoto era um sujeito um tanto exagerado. Aqui tem muito menos gente do que ele disse...
_Quem? – indagou Camille, que rasgara a blusa com os dentes e cortava uma atadura para o ferido.
_Heródoto de Megara é o historiador grego que nos deixou o relato destes fatos, descrevendo-os com muito brilho e competência. Aliás, a posteridade chamou-o “pai da história”, porque será reconhecido como o primeiro verdadeiro historiador e não um simples cronista.
_Não entendo a diferença – replicou Henry.
_Antes de certos literatos gregos, como Heródoto, Tucídides, Xenofonte e outros criarem uma nova disciplina – o estudo da história humana – o que havia era gente que sentava e escrevia: “Hoje dia tal, o rei fulano fez tal coisa, ou a rainha fulana deu um espirro”. Com esses gregos surgiu a preocupação de escrever os fatos do passado com rigor, detalhando-os, concatenando-os entre si e tentando explicá-los. Isto é, nasceu a idéia da narração histórica como nós a conhecemos.
O rapaz olhou-o fixamente:
_O senhor é um vidente? Se for, gostaria de saber o que se passou com minha família...
Charles indagou:
_Ela estava em Atenas?
_Sim.
_Então, não tenha receio. Desta vez o exército persa não chegou a devastar sua cidade.
_Zeus seja louvado! – exclamou o rapaz feliz. _E você também, mensageiro de boas notícias!
_Acho que os gregos, apesar de estarem em inferioridade numérica, estão ganhando... – comentou Henry, olhando para a batalha. _Estão lutando muito bem.
_Que remédio – suspirou o ferido. _Se perdêssemos, nunca mais seríamos livres e todos os anos as cidades gregas teriam de pagar pesados tributos ao rei dos reis, como têm de fazer os infelizes gregos das cidades jônicas. E o traidor Hípias, que se passou para o serviço do grande rei (Zeus o fulmine com seus raios!), triunfaria em Atenas.
Camille olhou aflita para Charles. Não estava entendendo coisa alguma de toda aquela história.
_A Pérsia é um grande império – explicou ele – que se estende por todo o planalto do Irã, desde as fronteiras da Índia até as praias do Mediterrâneo. Nessa região costeira chamada Jônia, há uma multidão de ilhas, com muitas cidades gregas submetidas ao império persa.
_Mas o império grego...
_Não existe tal coisa – interrompeu-a Charles, esticando a perna do rapaz para que Henry pudesse apertar bem a atadura sobre a ferida. _Os gregos não são reunidos num Estado único. O que há é uma multidão de cidades gregas, todas independentes uma da outra: Atenas, Esparta, Mileto, Corinto, Tebas, etc. São as polis, ou cidades-Estados. Em casos graves como esse – a invasão persa –, premidas pelas circunstâncias, elas se esquecem de suas rivalidades e se reúnem numa aliança passageira. Entretanto, normalmente, apesar de falarem a mesma língua e possuírem culturas semelhantes, os gregos não param de lutar entre si, polis contra polis.
_Mas por que não se unem? – estranhou Camille.
_Ora, minha senhora... – riu o soldado ferido, que achara tanta graça na observação a ponto de se esquecer da dor. _Mas, como é que eu, um ateniense democrata, poderia viver numa só polis com um lacedemônio bronco?
_Lacedemônios são os espartanos – explicou Charles. _Os atenienses não gostam muito deles. E de fato ia ser difícil essa convivência. Esparta é uma coisa esquisita: uma sociedade de comunismo aristocrático.
_!!!!!!!!?????
_Simples: os aristocratas de Esparta possuem a terra coletivamente e vivem numa vida comunitária e rigorosa; passam a adolescência numa espécie de quartel onde tanto os homens quanto as mulheres aprendem a lutar, comendo as refeições na mesa comunitária, etc. Mas a terra é cultivada por escravos: os ilotas, que são os descendentes da antiga população local dominada pelos novos invasores, a aristocracia espartana. Os espartanos só se preocupam com guerra e treino de guerra. Essa cidade nunca esculpiu uma estátua importante, nunca escreveu um poema que mereça ser lembrado. Só sabem lutar, o que aliás fazem muito bem. Mas aos atenienses isso parece muito bárbaro.
_E não é? – estranhou o ferido. _Isso lá é maneira de se viver? Quem passar alguns dias em Atenas, a mais bela cidade do mundo, nunca mais se acostumará a viver entre aqueles selvagens. Quem passeia pela ágora de nossa cidade (ágora é a praça central onde todo mundo passa) ouvirá os filósofos discutindo com seus discípulos, os políticos democratas mostrando as iniqüidades da aristocracia, arranjará entradas para o teatro, ouvirá os poetas e apreciará a graça ática de nossas jovens...
_Ática – concluiu Charles, que acabara de fechar a ferida do rapaz – é o nome da região de Atenas. E o nosso amigo aqui acha, como todo mundo, que as mulheres de sua terra são as mais graciosas do universo. Talvez ele tenha certa razão. Para nós, Atenas, cidade culta, deveria ser mais agradável do que Esparta, cidade sombria e feroz.
_Então, vossa cidade é democrática e não tem escravos? – disse Camille. _Gostei. Esse negócio de escravidão nunca me agradou...
Henry riu vendo a cara do rapaz que, finalmente, conseguia sentar-se.
_Mas, se não tivéssemos escravos – espantou-se ele –, quem faria os trabalhos pesados e degradantes, minha senhora? Ou a senhora imagina que eu, cidadão livre e estudioso de filosofia, vou carregar água, limpar ruas e cuidar dos porcos?
_Mas você acaba de dizer que é um democrata – estrilou Camille.
_Calma, calma – interveio Charles. _Com o tempo, as palavras mudam de sentido. Ele deve ser um membro sincero do partido democrata que, em Atenas e em todas as cidades gregas, luta contra os aristocratas. Estes, em geral, são grandes senhores da terra, enquanto os democratas são mercadores, empregados, artesãos, gente que em nosso tempo diríamos das classes médias. Eles realmente queriam tirar o poder tradicional da nobreza da terra e passá-lo para as mãos do povo da cidade. Só que “povo”, para eles, não inclui os escravos. Assim como Esparta é um comunismo aristocrático, Atenas é uma democracia escravagista. Ambos os conceitos parecem um tanto absurdos para nós do século XX. Mas não podemos entender uma época se a observarmos pelos padrões, conceitos e maneiras de julgar de outra. Só que, agora, temos de cair fora daqui, porque essa ala do exército grego parece que está cedendo e a batalha vai se aproximar de nosso esconderijo...
Amparando o rapaz, que capengava, mas como bom soldado, não se lamentava, dirigiram-se à beira de um rio, onde um grupo de soldados gregos feridos fora carregado para a retaguarda. Juntamente com eles, um cavaleiro passou gritando:
_Vocês têm de se afastar! Salvem-se! Os persas furaram nossas linhas! A batalha está indecisa!
Vendo a cara consternada dos feridos, Charles disse:
_Calma, minha gente. Não há o menor perigo. Essa é a última investida deles. Dentro de... – olhou para o relógio de pulso – meia hora, estarão em completa debandada. Vamos sentar e descansar.
_Podem acreditar nele – confirmou o rapaz – é um vidente.
_Que deus te inspira? – perguntou um deles.
_Hummm... Clio! – retrucou Charles.
_Quem? – quis saber Camille.
_É uma das musas, a patrocinadora dos historiadores – explicou Charles.
_Proponho então um brinde à musa quem tão bondosamente protege os gregos –disse outro soldado. E passou um odre, uma pele de porco costurada, cheio de vinho.
Todos tomaram um gole, enquanto alguém repartia um queijo de cabra e outro oferecia azeitonas.
_Isso que você olhou é um amuleto da deusa? – indagou por fim o rapaz apontando o relógio.
_Ahnn, não. É uma máquina de marcar o tempo. Algo como uma clepsidra mecânica. A de vocês é movida a água, não?
O rapaz olhou o relógio de Charles, contemplou os ponteiros que se moviam e sussurrou:
_Fantástico! Qual o artesão tão habilidoso que construiu esse incrível aparelho?
Vendo que ia ser difícil explicar, Charles tapeou:
_Recebi-o diretamente da deusa para não me enganar quando tiver que escrever a data dos acontecimentos.
_Então, vidente, conta-nos qual será o destino de nossa terra.
Charles sentou-se, aceitou o queijo e começou:
_Esta batalha de Platea será aquela que resolverá definitivamente as guerras com os persas. A Grécia emergirá fortificada destas amarguras. Muitas das cidades gregas, entretanto, continuarão temendo a invasão persa. Por isso se reunirão na Liga de Delos. Mas o tesouro da liga sairá de Delos para financiar a reconstrução de Atenas, destruída pelos persas. E esse será o início da supremacia de Atenas sobre as cidades gregas.
Os feridos atenienses prestavam atenção intensa, mas um dos espartanos, indignado, mandou Charles calar a boca.
_De que adianta que ele se cale? – argumentaram os atenienses. _Ele está apenas dizendo como as coisas serão...
_Elas nunca serão assim – enfurecia-se o outro. _Atenas nunca dominará Esparta! Nunca!
_É verdade – concordou Charles. _Atenas nunca estenderá sua supremacia a Esparta. Seu império, se podemos classificar assim, o predomínio comercial e militar de Atenas sobre as outras cidades gregas, nunca será reconhecido por Esparta, o que acabará levando a uma guerra entre as duas. Uma guerra longa e amarga, que passará à história como a guerra do Peloponeso, porque se travará principalmente naquela região. Esta guerra marcará também o início da decadência grega...
Pela cara dos ouvintes, Charles percebeu que, agora, não estava agradando a ninguém e apressou-se em dizer:
_Essa decadência será compensada pela importância que a cultura grega adquirirá no mundo, depois que a Grécia foi conquistada pelos macedônios.
_Por QUEM? – estranhou um dos feridos.
_Já ouvi falar deste povo – riu outro. _Uns selvagens que vivem lá para o norte, entre as montanhas. Eles nunca conquistarão a Grécia. Esse vidente se engana ou um mau deus lhe inspira loucuras.
_Hoje eles são um povinho bárbaro – insistiu Charles – e a vocês parece impossível que um dia possam vir a dominar as civilizadas cidades gregas. Entretanto, por mais que isso pareça incrível, um rei da Macedônia, aliás grande admirador da cultura grega, chamado Filipe (ele ainda não nasceu) se tornará senhor de toda a Grécia e todas as polis lhe prestarão tributo. Ele sonhará conquistar a Ásia e dominar a Pérsia com os exércitos gregos. Mas não o conseguirá: morrerá antes disto. Quem completará sua obra será seu filho, Alexandre. Com apenas 22 anos, este rapaz, à frente dos exércitos reunidos em todas as cidades gregas, conquistará toda a Ásia e atingirá a Índia, país tão distante que vocês mal têm notícia dele.
_Mais longe que o Egito? – perguntou um dos feridos, para quem, evidentemente, o Egito parece ser perto do fim do mundo.
_Muito para lá – e Charles fez um gesto vago. _Graças a esse rei de um povinho que vocês consideram bárbaro, mas que será educado por um grande filósofo grego, Aristóteles (ele também ainda não nasceu), a cultura grega será conhecida por todo o mundo. Dentro de 2000 anos haverá na Índia templos dedicados à memória de Skander, isto é, Alexandre, o Grande.
_E depois?
_O império de Alexandre durará o breve tempo de sua breve vida. Mas, quando ele morrer, o mundo já conhecerá a cultura grega. Um dos generais de Alexandre se tornará faraó do Egito, fundando a dinastia dos Ptolomeus. E no Egito, na cidade fundada por Alexandre, Alexandria, florescerão a filosofia grega, a cultura grega, a matemática grega. Os futuros dominadores do Mediterrâneo, os romanos, aprenderão civilização com a Grécia. Quando todo o poder político e militar das pequenas e turbulentas cidades desta península tiver desaparecido, o mundo aprenderá com a tradição cultural que elas criaram. Esse período, no qual a Grécia será dominada pelos estrangeiros mas sua cultura se espalhará pela Europa, Ásia e África, será conhecido como o período helenístico. E dentro de 2500 anos, em países que ainda nem existem, peças gregas ainda estarão sendo representadas nos teatros, filósofos estarão sendo lidos nas escolas, escultores e arquitetos gregos serão citados e lembrados.
_Teatro? – sorriu um deles. _Até isso? Uma arte tão inferior? E a pintura? E a música?
_Infelizmente, nada destas artes gregas será preservada ou quase nada. Mas por que você acha o teatro uma arte inferior?
Os outros riram divertidos:
_O Ésquilo está troçando, vidente. Ele escreve peças de teatro...
_ESQU???? – Charles perdera a fala. _ESTOU FALANDO COM ÉSQUILO??????
_Ésquilo, para servi-lo, amigo vidente – confirmou o homem.
_Mas você não imagina!!!!! – explodiu Charles recobrando a fala. _Você será conhecido como um dos maiores autores literários de todos os tempos! Gerações e gerações de escritores o reconhecerão como mestre! Sua trilogia de peças, a “Orestéia”, onde você conta a tragédia dos filhos de Agamenon...
O outro interrompeu-o:
_Calma, amigo, calma. Logo vi que você estava me confundindo com outro. Nunca escrevi esta peça.
Charles fez as contas de cabeça.
_De fato, você não a escreveu ainda. Vai escrevê-la dentro de 21 anos. Mas dentro de sete vai escrever “Os Persas” e...
_Mas o que ele fará de tão importante? – estranhou um dos homens, passando um pedaço de queijo a Ésquilo.
_Seu amigo mudará a história do teatro – explicou Charles. _Vocês, gregos, são os criadores do teatro futuro. Até agora, o espetáculo teatral tinha um só ator e um coro que comentava suas façanhas ou falas. Ésquilo introduziu um segundo ator, inventando o diálogo. E o teatro moderno do futuro será feito principalmente de diálogo.
_Serei lembrado por 2000 anos por uma invençãozinha tão banal? – estranhou o escritor. _Qualquer idiota poderia ter feito isso...
_Não precisa ser modesto. E, além disso, você será lembrado pela extraordinária qualidade literária de seus textos. Você será reconhecido como pai da tragédia.
Camille rasgara mais um pedaço de sua blusa e pediu ao escritor:
_Não quer me dar o autógrafo?
Como não havia tinta, o escritor atrapalhou-se. Por fim resolveu o problema mergulhando um pauzinho no sangue da ferida e fazendo uns garranchos sobre o pano:
_Aqui está, gentil dama.
Do campo de batalha soaram trombetas e rufaram tambores. Outro cavaleiro que passava por eles gritou:
_Vitória! Vitória! O sátrapa do rei dos reis está-se retirando! Toda a ala central de seu exército debanda!
_Você viu certo, vidente – notou Ésquilo. _Meia hora cravada e eles foram derrotados. Acho que vou colocá-lo como personagem de uma de minhas peças. Como se chamam vocês?
_Charles Fitzgerald – disse o sábio com a voz embargada, pensando que ia entrar para a história da literatura pela mão de um dos grandes. _Ele é Henry e ela Camille.
_Então, meus caros, gostaria que vocês fossem meus hóspedes em Atenas.
A volta para Atenas depois da batalha foi coisa meio complicada. Ésquilo era de família nobre e tinha vários escravos e carros puxados a cavalo à disposição. Mas eles iam atulhados de feridos pertencentes a várias classes. Havia nobres de partido aristocrático e artesãos do partido democrata. Mas havia também muitos escravos, porque, no desespero, Atenas tinha mobilizado todas as forças. Outros eram metecos.
_E o que é isso? – indagou Henry.
_Significa estrangeiros residentes em Atenas – explicou Charles. _Podem habitar a cidade, comerciar, etc., mas não têm os direitos de cidadão.
No caminho, quase entrando na cidade, encontraram um grupo de marinheiros que voltava da batalha naval do cabo Micale, onde a frota grega desbaratara a persa. Entre os jovens saídos da cidade, que procuravam notícias com os marinheiros, encontrava-se um rapaz de uns treze anos com uma nuca proeminente. Dois velhos o acompanhavam.
_O almirante está bem, senhor Péricles – disse um dos marinheiros, que reconhecera o menino.
Henry cutucou Charles com o cotovelo:
_Você ouviu? Péricles! O futuro manda-chuva de Atenas.
_Ouvi. Seu pai é Xantipo, um dos estrategistas atenienses. Ele acaba de derrotar os persas no mar. Apesar de ser uma família das mais nobres, Xantipo é um dos chefes do partido democrata. Mas estou curioso para saber quem são esses dois velhos. Desconfio que...
_Zeus seja louvado, Anaxágoras! – exclamava o jovem Péricles, sorrindo para um dos velhos.
_Anaxágoras! – berrou Charles dançando num só pé. _Vou conhecer Anaxágoras!
_Mas quem é esse velho pra provocar tanto entusiasmo? – indagou Camille.
_Um dos pais da filosofia, Camille! E o outro deve ser Zenon de Eléia. Os dois foram os professores de Péricles, quando criança! Foram eles que fizeram de Péricles o maior estadista da Grécia, um racionalista convicto.
Ésquilo, que se aproximava, apresentou-os aos filósofos e ao jovem aristocrata, e convidou todos para jantar à noite, onde relataria as peripécias da batalha de Platea, que durara vários dias (eles tinham chegado já no fim).
A casa de Ésquilo, fora da polis, não sofrera grandes estragos com o saque dos persas, no ano anterior. Os escravos domésticos tinham-na adornado para receber o dono que voltava com seus agregados e familiares. E à noite começaram a chegar os convidados.
Os três receberam roupas gregas limpas. Camille gostou muito do quíton, a túnica que era vestida sobre o corpo, e do peplo, um manto que se deixava cair pregueado sobre o quíton. Em caso de frio, a pessoa se envolvia completamente nele. Havia alguns de lã, bordados em fio de ouro. No calor, deixavam-no cair livremente pelos ombros.
Uma escrava entrou para arrumar ao cabelo de Camille, enquanto outras perguntavam a Charles e Henry se não queriam tomar um banho quente. No banho encontraram Ésquilo e Anaxágoras mergulhados na água fumegante.
_Nosso amigo Ésquilo – disse o filósofo – me contou que você profetizou o destino da Grécia. Acho extraordinário que alguém se lembre de nós daqui a 2500 anos, já que nós, por exemplo, não temos memória alguma de povo que tenha vivido há 2500 anos. Só os egípcios e caldeus têm essa pretensão. Falam em livros com 10 000 anos de idade que seus deuses lhe teriam deixado...
Charles sorriu;
_Percebo que você desconfia, e com razão, da antiguidade destes livros. De fato não são tão antigos assim. E um dia, no futuro, a memória de todos estes textos sagrados e apócrifos não passará de mera curiosidade. Mas as idéias, suas, de seu amigo Zenon e de vários outros “amigos da sabedoria” (“filósofos” quer dizer isto – acrescentou para Henry), que hoje pensam e ensinam nas cidades gregas da costa jônica, serão lembradas entre as coisas mais importantes do “milagre grego”.
_Milagre?
_É o nome que o futuro dará ao extraordinário florescimento da cultura grega. Mais que como criadores do teatro, da poesia épica e lírica, e de tantas outras coisas, os gregos serão lembrados como o povo que criou a filosofia e lançou as bases da ciência.
_Por Hércules! – riu o filósofo. _Muito lisonjeador isso. Mas um tanto injusto. Sempre houve amigos da sabedoria entre os egípcios, caldeus e mesmo persas.
_Mas há uma diferença fundamental, Anaxágoras. Eu li suas explicações sobre a origem dos eclipses solares. Elas são completamente diversas das que fornecem os astrólogos egípcios ou caldeus. Eles atribuíam a causa dos eclipses a seres ou forças sobrenaturais. Você atribui a origem dos eclipses a causas naturais, ao movimento dos astros. E a idéia da procura das causas naturais será a idéia-mestra da ciência do futuro. Até ontem, os astrólogos e pensadores de outros povos não separavam causas naturais e idéias religiosas ou mágicas. A primeira escola de pensadores que fez isso foi a grega.
_Então nossas explicações sobre o universo serão reconhecidas amanhã como verdadeiras? – interessou-se o filósofo, já meio invisível entre o vapor.
_Eu não disse isso. No futuro não se acreditará que o universo é composto apenas por quatro elementos, água, fogo, terra, ar, nem que os astros estão presos a esferas invisíveis girando umas sobre as outras, nem em tantas explicações que os filósofos da Jônia fornecem. Mas a atitude que os levou a encontrar essas explicações, a atitude de raciocinar sobre os fenômenos, descartando causas sobrenaturais e procurando leis e princípios naturais, essa atitude será a grande contribuição dos filósofos da Jônia à história do pensamento humano.
_Vejo que você fala só dos “amigos da sabedoria” nascidos nas ilhas Jônias – disse a voz de Ésquilo, atravessando um vapor cada vez mais espesso. _E os outros?
_Por enquanto – retrucou Charles agitando as mãos para afastar os torvelinhos brancos –, os pensadores gregos importantes vieram de lá. Mas a chegada de Anaxágoras em Atenas vai mudar isso. Entre seus alunos, contam-se, além de Péricles, que terá grande importância no florescimento cultural desta cidade, um rapaz chamado Sócrates...
A voz do invisível Anaxágoras atravessou o calor branco e sufocante:
_Sócrates? Ah, sim, um garoto de nove anos, feioso e inteligente, que o pai mandou estudar em minha escola...
Charles pensou que tinham de sair daquele banho. Iam sufocar! Mas ainda acrescentou:
_Pois é, depois dele a história da filosofia será outra. Sócrates deixará de se preocupar com as causas dos fenômenos naturais, cuja explicação será cada vez mais delegada às ciências, e encaminhará a filosofia para o estudo do ser humano. Com ele se iniciará a grande escola da filosofia ateniense, com objetivos algo diversos da jônica. Tanto que vocês, seus predecessores, serão chamados os pensadores pré-socráticos... Mas, amigos, temos de sair daqui. Não consigo mais respirar! Henry? Henry!?
Em vez de Henry, a voz de Ésquilo, deformada pela distância imensa ao atravessar a parede branca, perguntou:
_E o tesouro de Agamenon?
_Ah, o tesouro... – murmurou Charles, que desmaiava. _Que sabe você dele? Eu... eu... socor...
_CHARLES!!!! CHARLES!!!! – gritava Anaxágoras de sobre uma montanha longínqua. _Charles, você será meu continuador! Acorde!
Nos lábios de Charles aparecia um sorriso cadenciado pelo seu ego.
Quando abriu os olhos, Camille o abanava:
_Acorde, Charles! Acorde!
Charles sentou-se entre as vitrines:
_Hummmm? Cadê o Anaxágoras?
_Você quer dizer o ladrão do museu? – riu Henry. _Ele ia escapando, mas você o agarrou. Só que a armadilha com gás soporífero atingiu os dois. Vocês dormiram alguns minutos, só.
_Só? – riu o sábio coçando a cabeça, ainda meio atordoado. _Para mim pareceram 2500 anos...