Temo


Meu vazio me preenche com medos novos
Temo alucinante velocidade dos nossos tempos
Temo a irreflexão que traz discórdia e desespero
Temo as fugas instantâneas e mal sucedidas
Temo a solidão acompanhada,
Temo a desconfiança que me leva o sono
Temo as aspas que fazem outros falarem por mim
Temo os temerários e, também os covardes,
Temo a falta de criação
Temo a comida
Temo o “progresso”
Mas não mais temo a morte
Porém, temo o enfraquecimento da vontade de viver...
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Hesíodo

Perversidade pode facilmente ser possuída em abundância,
Suave é a estrada que a ela conduz e sua habitação é proxima.
Mas diante da virtude suor colocaram os deuses imortais,
Longa e acidentada é a senda que a ela conduz, e, de início áspera,
Mas quando alcanças o cimo, é a estrada finalmente fácil, ainda que dura fosse.

                                      HESÍODO, Os trabalhos e os dias
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Ao te olhar


Meu José,
Ao te olhar lanço-te tudo o que jamais me atreveria a dizer,
Talvez por medo ou até por covardia,
[Impedi-me também essa cultura machista]
Lanço-te todo o amor que a ti nunca disse,
Mas que pulsa em meu peito a todo tempo;

Quando longe, tenho-te revivido no pensamento;
Vejo-te chegando sujo do trabalho, nervoso, sem muito papo,
Ah, como eu gostava de ouvir o barulho do portão que, batendo,
Anunciava que estavas chegando, para alívio da minha cabeça lunática de menino,
Gostava mesmo sabendo que nessas horas
Deveria desligar a TV, parar de brigar e bagunçar,
Era meio atemorizante, mas hoje me lembro com profunda nostalgia,
Pois a vida já começa a me mostrar que o tempo, além da nossa distância hoje vivida,
Separa-nos a cada instante, e tremo e suo frio ao pensar assim,
Choro como nos pesadelos onde não mais lhe tinha;

E como gostava de te ver vendo aqueles filmes chatos de domingo à noite,
Nada tinham de interessantes, mas estar ao teu lado, dividindo o mesmo cobertor
Cobria-me de uma segurança nunca mais sentida...
Ah, José! Não sabes o quanto gosto desse teu jeito,
Antes duro, impaciente, nervoso, mas nunca frio, sempre protetor,
[detalhe, mexia com as mulheres na rua, isso eu não gostava, mas hoje me lembro às gargalhadas]
E hoje és calmo, prudente, e já vislumbro em ti, apesar da pouca idade que tens,
A sabedoria que transborda em teus pais;

Então brindemos o teu dia, Pai!
Levantemos cedo, e tomemos, o senhor só leite e pão, e sem manteiga,
E eu, café com leite e pão molhado, ambos sem dizer palavra alguma...
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Cartola

Amor Proibido

Sabes que vou partir
Com os olhos rasos d'água
E o coração ferido

Quando lembrar de ti
Me lembrarei também
Deste amor proibido

Fácil demais
Fui presa
Servi de pasto
Em tua mesa
Mas fique certa que jamais
Terás o meu amor
Porque não tens pudor

Faço tudo para evitar o mal
Sou pelo mal perseguido
Só o que faltava era esta
Fui trair meu grande amigo
Mas vou limpar a mente
Sei que errei
Errei inocente
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Perfeição

      Talvez essa seja uma das cenas mais "fodas" que a tv brasileira jamais produziu. Tendo como cenário a linda Tiradentes emoldurada pela serra de São José - onde muitas vezes estive perdido a pensar na vida-, essa cena transborda fortemente a condição humana que grita em todos nós. Realmente perfeita!

Obs: Esse Rodrigo Santoro nasceu virado pra lua. Ô homi de sorte, sô!




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Amor (não) Vivido


Parecia real a vida que levamos
Ao sair do trabalho dela pensava em casa encontrar o beijo
No supermercado comprava iogurte de cenoura, laranja e mel
(ela adorava desse)
E para ela eu lia e pensando nela escrevia - e vivia;
Ainda hoje a ela escrevo, mas com outra inspiração
Jogo ao vento e cravo no papel, o vazio dilacerante
Que a cada lembrança, me faz ser dor...
Por todos os lados a vejo, porém sem a encontrar;
Cada mulher que passa só me anuncia que a ela nunca irei
(pois não há duas)

Mas por que sofro, se ela nunca vi? 
Será ela apenas imaginação? Pois dizem não haver perfeição;
Por que me deixas sofrer assim impiedoso coração?
Há tantas portas, tantas saídas, tantas; permita-me ao menos uma
Por que não posso ser como os outros? Por que não posso em outra esquecer?


Passam-se os tempos como os gatos que lá foram passeiam sobre meu telhado
Evito ouvir seus tristes miados, evito até olhar pra cidade dela na previsão do tempo
Tudo em vão, não me é possível fugir
Em mim mais do que em qualquer outra coisa, circula a cada pulsação
A voz, o nome, a forma e até o olhar, e isso me deixa feridas que não posso cicatrizar
Rogo-te apagar de minhas tua memória que em mim faz guarida
Deixa-me viver! Mas também me guarda, me proteja e não permita que eu te veja

Porque posso morrer ao ver-te junto a alguém que eu não seja
E te rogo por último, pra além dos tempos que minha juventude sofrida hoje imagina,
Um lomgo e apertado abraço... com teu cheiro,  gosto e toque de flor-menina...

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Não é uma apologia

Falam mal e discriminam Edmundo, chamando-o de vagabundo e sem-vergonha
Só por ele fazer filosofia e fumar maconha
A vós, senhoras e senhores que se arrogam doutores,
Ordinárias faíscas humanas que vivem num mundo de traições e falsos amores,
Falo e aponto sem rodeios nem temor
Aquilo que de vosso preconceito exala execrável fedor,
Mal maior é não (mesmo podendo) enxergar
Os mistérios que ele a noite, contempla sob o luar,
Ter endurecidos coração, alma e olhos, e ao ver perdido um irmão
Negar-lhe com indiferença abrigo e pão

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